quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Da Infância aos Scans


O LONGO CAMINHO DA INFÂNCIA AOS SCANS
Tantas influências que pavimetaram o caminho até aqui


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Além das influências virtuais que me fizeram virar um digitalizador de quadrinhos, há várias muito mais antigas, e que a muitas delas já me referi aqui no blog. Minha mãe sendo uma delas, talvez a mais forte. O que é irônico, já que ela mesma nunca leu uma revista em quadrinhos. Mas, ela sabia que eu gostava de ler, e alimentou isso como pôde. Mas, não foi apenas ela, posso dizer que foi todo um conjunto de coisas e pessoas. E isso continuou até mesmo durante e depois dos scans.

Meus tios e tias, por parte de pai, eram uma verdadeira fonte de inspiração no que dizia respeito a gibis. Uma das lembranças que mais guardo com carinho é de uma de minhas tias chegando com um monte de HQs e me entregando. O mais interessante é que tenho certeza que eu não sabia ler ainda. E, mesmo assim, ela não pensou duas vezes em entregar a mim aquele tesouro.

Porém, na mesma lembrança, há uma "trauma": meus dois tios mais novos, por saberem que eu não lia ainda, tomaram os quadrinhos e escolheram cada um os que mais lhes agradavam e ficaram com os mesmos. Claro, sem que minha tia soubesse e não lembro de ter contado. Mas, não foram tão maus assim, deixaram um gibi para mim, Riquinho, o que eu menos gostava e, creio eu, eles também.

Esses dias vi que Riquinho voltou a ser publicado. Ao vê-lo nas bancas, lembro e acho graça dessas memórias tão distantes.

As histórias em quadrinhos fazem tão parte da minha vida, que parece que para onde olho, no passado, elas estão sempre lá, em alguma parte, em algum momento. Claro, com exceção do malfadado período de 1990 a 1997, onde fui abduzido por uma maldita religião e parei de ler esses anos quase todos. Mas, antes não. Antes, era como se quadrinhos estivessem am cada canto e, por um tempo, isso foi até literal. Eles estavam em cada canto.


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Meu pai nunca foi apreciador de quadrinhos. Ele gostava muito era de livros de bolso de faroeste que, naquela época, eram quase uma febre. Eu detestava. Ou achava sem graça aqueles livrinhos sem figuras. Também não gostava de faroeste, o que não deixa de ser irônico, haja visto eu ter criado Jerusalem Jones, um pistoleiro com aventuras no Velho Oeste.

Meu pai e minha mãe não ficaram juntos por muito tempo. Quando eu tinha 8 anos de idade, eles se separaram. O tempo passou mais um pouco e ganhei um padrasto que, para minha sorte, era um ávido leitor de gibis. Sem falar que era só dizer que eu queria tal edição, que ele me dava grana para ir comprar. Me pergunto se era para mim ou para ele. Afinal, eu ainda não era um colecionador. Lia e largava para lá.

Uma das edições que mais tenho lembrança da época de meu padrasto, é um Disney Especial, Os Cosmonautas. Ele me deu o dinheiro e eu disse, vou ali comprar. O que ele não sabia era que não havia banca de jornal perto. Todos os gibis que ele trazia, eram comprados longe, perto de seu trabalho. Ele nunca se deu conta de que no bairro, não havia banca de jornal nenhuma. Então o que fiz? Oras, eu andei. Andei muito.

Para piorar, não tinha na banca que era a mais "próxima". Então andei mais ainda, esquecendo que o tempo estava passando, e que eu era um garoto de uns 9 anos de idade. Eu dei uma volta de 360 graus enorme. Não voltei pelo mesmo caminho. Isso fez com que demorasse mais ainda. E, quando cheguei em casa, todos estavam mortos de preocupação. Minha mãe chorava e brigava e eu nada escutava. Estava extasiado com meu Disney Especial, que creio eu, devia ter sido meu primeiro gibi com tantas páginas. Tudo o mais era sem importância.


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Uma das lembranças mais truncadas que tenho é sobre as edições gigantes da EBAL, Super-Homem X Muhamad Ali e Super-Homem X Homem-Aranha. Eu era muito novo ainda, e por isso essas lembranças se embaralham. Sei que li estas duas edições - e creio que a edição Super-Homem X Mulher Maravilha - e lembro que todas elas eram muito grandes. Para meu tamanho então, eram enormes.

Como criança que era, fiquei intrigado ao ver um personagem fictício enfrentando alguém do mundo real, Muhamad Ali, mesmo que eu não consiga entender como eu conhecia Ali, naquela idade e num tempo em que TV era coisa escassa lá em casa. A edição em que ele trava combate com o Homem-Aranha também me deixou muito surpreso, pois eram os meus personagens preferidos, de editoras diferentes, se encontrando.

Minha memória se confunde no sentido de que não sei se essas edições foram minhas ou emprestadas. Só tenho a certeza de que as li. Nenhuma edição que veio depois, pela editora Abril, superou essas da EBAL. Mesmo assim, a edição contra Muhamad Ali nunca foi republicada, até que a pouco tempo a Panini a reeditou, em uma edição de luxo. E, claro, eu a adquiri em nome da nostalgia.

Uma cena que vem à mente sempre que lembro dessa época, sou eu esperando a hora de entrar na escola, com a revista Super X Ali, aberta, lendo. Devorava cada detalhe, rezando para que o sinal não batesse logo. Eu com a revista aberta devia ser uma cena no mínimo hilária, já que ela era tão grande que me cobria pela metade. Então o sinal toca, eu guardo a revista e vou para a sala de aula, pensando em boxe em outros planetas.


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Mais adiante no tempo, porém ainda no meu tempo de criança, uma família resolve comprar o terreno vazio, que fica ao lado de nossa casa. Achava impossível que aquele terreno, naquela área sem graça, um dia fosse vendido e ocupado. A família era composta de pai, mãe, filho e filha. Para minha alegria, um deles gostava de gibis e sempre que vinha, trazia. Era o filho? Não, o pai. Ele sempre trazia revistas que trocávamos. Lembrando hoje, era algo surreal. Ele era gerente de uma casa de material, e eu e meus irmãos só nos referíamos ao mesmo como "O Gerente", já que nunca lembrávamos seu nome.

Para piorar (ou melhorar), sua filha era linda e, claro, eu estava perdidamente apaixonado. Era bom demais para ser verdade, uma paixão e gibis que vinham do mesmo lugar. E, é verdade, estava bom demais para ser verdade mesmo. Antes de começar a construir, eles desistiram do lugar e revenderam o terreno. Perdi duas paixões de uma cajadada só, gibis aos montes e uma garota linda.

O tempo passa e começo a comprar eu mesmo meus gibis, com o dinheiro que ganho, trabalhando em um armazém. Quando mudo de emprego e vou trabalhar perto da única banca de jornal que realmente tem todos os gibis que quero, aí começo mesmo uma coleção de verdade. Eu tinha doze anos nessa época e o gibi de que mais tenho lembrança desse tempo, é Superaventuras Marvel #1, por ser a primeira revista número um que compro em minha vida.


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Assim, dos 12 aos 15 anos eu amealho umas 500 revistas que vão desde Marvel, DC, Espada Selvagem de Conan, até Disney e Turma da Mônica. Eu comprava tudo que tivesse quadrinhos. Creio que a excessão eram os fumettis, Tex e Zagor. Eu ainda tinha preconceito com o faroeste e, somente depois que adquiri algumas edições dos mesmos com um rapaz que vendia gibis usados na rua, foi que percebi que eu havia perdido muito tempo.

Mesmo depois que me desfiz da minha coleção - para comprar uma bicicleta - eu não parei de adquirir, fosse nas bancas ou em sebos improvisados. Também trocava com os amigos, e muitas vezes eu conhecia a pessoa mais por causa dos gibis, mas não era realmente amigo delas. Trocávamos aqueles que queriamos e depois cada um para o seu lado, para ler. Mas, claro que havia pessoas das quais eu era amigo e os quadrinhos cimentavam mais ainda a amizade.

Outra lembrança que tenho, relacionada aos quadrinho, é de estar na casa de um amigo - que não lia quadrinhos - e ver, jogada em um sofá, uma HQ do Thor, em inglês, da fase de Walter Simonson. Eu nunca vira, ao vivo e a cores, uma HQ importada. Peguei a revista e fiquei olhando aquilo, com uma certa reverência. O fato de ela ser totalmente diferente, em formato, do que eu estava acostumado a ler - pelo menos no caso de revistas de super-heróis - me fazia estranhá-la e, ao mesmo tempo, ficar curioso. Decidi então que ia traduzi-la. Sim, ia traduzi-la sem saber um pingo de inglês.

Consegui um pequeno dicionário de português-inglês e realmente tentei. Não consegui passar da primeira página e, frustrado, desisti. Mal sabia eu que um dia faria aquilo novamente, não traduzindo, mas revisando traduções e letreirando HQs que não tínhamos em português.


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E, mesmo que eu tenha parado de ler gibis por um tempo, por motivos imbecis, como religião, na verdade eu nunca deixei de estar ligado a eles. Quando voltei a ler, aos poucos, as coisas foram caminhando para que chegassem onde chegou, ou seja, aqui, ao Rapadura Açucarada e aos scans, que me abriram horizontes muito mais amplos do que os que eu tinha antes. Todas as minhas experiências anteriores foram os tijolos que construíram o meu gosto pelo mundo das HQs, e esse caminho me trouxe a um lugar com muito mais estradas e opções. Não havia mais apenas os supér-heróis, ou os quadrinhos Disney, ou qualquer outro quadrinho a que eu estivesse acostumado. Ao procurar para levar aos outros, eu encontrei para trazer a mim mesmo. E o resto se tornou história.


9 comentários:

fernandoagz disse...

Olá Eudes, acompanho o seu blog praticamente desde que começou. Inclusive mandei o scan que traduzi da DC 27(Batman). Li o post todo e é de emocionar sua relação com os quadrinhos. Agradeço pois graças ao blog, que inclusive inspirou vários outros, pude ler muita coisa que jamais teria a oportunidade. Parabéns pelos 10 anos e pelo excelente trabalho!

Nitro disse...

Uma coisa só que me intriga, Eudes. O quê o Rapadura Man faz pra sobreviver? Nunca falou sobre o seu trabalho, ou fonte de renda.
Não quero me intrometer na sua vida particular (mas já me intrometendo), mas é uma dúvida que eu sempre tive, pois eu não consigo dar mais atenção ao blog nitroglicerina justamente por causa da vida profissional.

Um abraço e sucesso por mais 10, 20, 30, 40, 50 anos!

Eudes Honorato disse...

Obrigado, Fernando e Nitro.

Nitro, devido aos problemas de saúde, eu me aposentei, o que fez com que eu tivesse tempo para o blog.

Alex Nery disse...

Eudes, obrigado por todos os scans que você já compartilhou com a gente. Eu me afastei dos quadrinhos por mais de uma década e só voltei depois que conheci o Rapadura e os scans.

Obrigado mesmo. Grande abraço, saúde sempre!

Eudes Honorato disse...

Voltar a ler quadrinhos é como se nunca tiovesse parado. Obrigado pelo comentário, Alex Nery.

Fabio Tola disse...

Eudes,
muito legal ver seu depoimento - começamos meio juntos nos quadrinhos (eu tinha 8 anos e comecei no Super Aventuras Marvel 01, virei colecionador e rato de sebos desde pequeno).
Parabéns pelo blog.

Eudes Honorato disse...

Verdade Fábio. Superaventuras 1 é uma HQ que nuca vou esquecer.

Alef Designer disse...

Tudo no seu blog tem cheiro de uma boa nostalgia, como se muitas experiência comuns que todos tivemos se encontrassem e tomassem voz, parabéns pelo Blog e saiba que o acompanho e leio todos os posts a mais de 5 anos, embora comente muito pouco, mas fica aqui o crédito pela bela postagem.

Eudes Honorato disse...

Obrigado mesmo, Alef!

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