sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Pausa Para Um Conto


NÃO É ASSIM QUE FUNCIONA
Só preciso me concentrar e acordar


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Me vejo em um lugar deserto, e não me lembro onde estava antes. Estou perto de uma rodovia, mas carro algum passa por ali. Tento me lembrar como vim parar aqui, mas não consigo. Estranhamente tudo parece cinza. E, mais estranho ainda, eu me vejo, como se fosse outra pessoa a me observar. Toda essa falta de ação, de pessoas e de carros, me faz chegar a uma conclusão que não me assusta, apesar de me causar um sentimento incômodo: estou sonhando.

Quando entendo isso, me sinto preso. Penso, só preciso me concentrar e acordar. Não demora muito para que eu ouça uma resposta, dada por mim mesmo: não funciona assim. Mas, assim como?

Não consigo acordar porque estou no estágio mais profundo do sono. Por mais que eu ache que deva acordar, não vou conseguir sozinho. Chegar a conclusão de que estava sonhando foi um acidente. Talvez devido a falta de um tema para este sonho em particular. Sinto uma certa solidão e impotência. Também curiosidade em estar sonhando, e saber que é tudo um sonho. Mas, não há nada a ser explorado, nem lugar para ir. É um sonho monótono. Como sairei daqui? Se eu me esforçar consigo acordar, tenho certeza.

Não, não funciona assim.

Estou em um ponto de ônibus. Uma chuva fina cai e eu, sentado, me recosto. Acabo cochilando e sonhando. No sonho eu já estou dentro do ônibus ao qual ainda estou esperando enquanto durmo. Me sento ao lado de uma moça muito linda. Ela me olha e me diz: você está sonhando. Ela aponta para fora da janela, para a frente e quando o ônibus passa, vejo que estou sentado, recostado e cochilando. A cena logo fica para trás. Percebo que estou sonhando, realmente.

Acordo com alguém tocando em meu ombro. Estou no ponto de ônibus e a mesma moça está parada, em pé, ao meu lado. Ela me olha e diz: você ainda está sonhando. Não consigo entender como pode ser. Então tento acordar de uma vez. Tento abrir os olhos e me encontrar deitado em minha cama. Ela olha para mim com um sorriso enigmático e diz:

- Não é assim que funciona.

Estou de volta à padaria onde trabalhei e onde era o único funcionário, além do dono. Perdi as contas de quantas vezes voltei aqui. Por que sempre vou embora e volto? Por que não consigo seguir em frente? A resposta vem em seguida.

Tudo se embaralha, e de repente muda. Não estou mais na padaria. É algum tipo de lugar como o Mundo de Oz ou o País da Maravilhas, só que tão ofuscante que dói aos olhos. Então entendo. Estou sonhando. Consegui permenecer entre a transição de um sonho para outro, como se passasse por uma porta. Vejo que arrastei o dono da padaria comigo, que olha para aquilo tudo como se soubese que está no sonho errado. Tampouco eu sei porque o sonho mudou tão radicalmente.

Tento sair dali, saltar para algum outro sonho, mas percebo que isso não depende de mim. Pelo menos não do eu que sabe que aquilo que é um sonho. Depende do eu que está dormindo. Então, enquanto ando por entre seres estranhos, como gnomos, fadas esquisitas e muitas árvores de cores berrantes, penso em tentar acordar. Como se ouvisse o que estou pensando, um dos duendes diz:

- Nunca funciona desse jeito, camarada.

Estou encostado a uma parede. Alguém está com um revólver apontado para minha testa. O que aconteceu?como cheguei até aqui? O que levou a esta situação? Pareço fadado a nunca descobrir. Nem mesmo o braço e o resto do corpo que porta o revólver consigo enxergar. Apesar de estar lá, eu não sei quem ou o que é. Não sei porque isso está acontecendo. A situação é tão absurda que só pode ser um sonho. E eu preciso acordar. Mas sei que não funciona assim.

Penso tudo isso em menos de um segundo, que é o tempo que levo para entender que a mão vai puxar o gatilho. E puxa. Escuto um BLAM. Tudo escurece e eu estou morto. Morto, morto, morto. Escuridão. Tanta escuridão.

Acordo sem ar, logo em seguida ao tiro. Não sei quanto tempo estive morto. Parece que se passou uma eternidade entre o tiro, a escuridão e o acordar. A sensação de morrer... tento não lembrar. Mas tudo ainda está fresco demais na memória, como sempre ficam os sonhos, assim que se acorda.

Sei que desta vez estou acordado, sinto minha pele fria, devido ao susto. Por questão de microssegundos, pensei que não fosse acordar. Ao mesmo tempo não sei como fui capaz de pensar isso, se estava "morto".

Paro de pensar nisso tudo e saio da cama. Quando dou três passos, acerto o dedo mindinho no móvel mais próximo e a dor insuportável me faz ter certeza de que estou acordado. Agora está tudo funcionando normalmente.


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