sábado, 22 de dezembro de 2012

O Domínio da Mão de Ferro


O FICCIONISTA
Tão estranho quanto a realidade


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Autor da ilustração, aqui

As máquinas a vapor estavam tomando conta de tudo, isso desde 1816. O primeiro barco a vapor se chamava Pluribus. O primeiro que voava, quero dizer. O seu inventor, Cornélio Akhantus, entrara para a História assim que aterrizou, ou eu deveria dizer, "aqualizou". Posso dizer que não me espantei com tudo aquilo. Era como se estivesse no ar -sem trocadilho - essa possibilidade. E depois de Pluribus, nada mais seria impossível.

Fui contratado pelo jornal O Século, para trazer um pouco de escapismo para a plebe, contando minhas histórias fantasiosas. O problema era que a realidade estava ficando cada vez mais estranha que a ficção, a tal ponto que nada do que eu escrevesse parecia surtir algum efeito. As críticas não era ruins, mas o povo comum não se surpreendia com mais nada. Me pergunto até se havia tempo para se surpreender com algo. Tudo acontecia rápido demais.

Quando o clérico Thiago V. Renquist criou um pregador robótico, movido a vapor, para substituí-lo nos cultos da Igreja Protestante do Sábado Final, logo eu soube que estava perdido. Joguei minha máquina de escrever tão longe que quase acertei Rômulo Poindexter. Por sorte a redação estava vazia, com exceção deste meu amigo.

Além de frustrado fiquei sem máquina durante alguns dias. Escrevia a bico de pena, mas nada poderia rivalizar com um robô - palavra que Renquist dizia ser de origem checa - que pregava a Bíblia. Obviamente eu tive que tirar um dia e ir a tal igreja do Sábado Final, para ver a tal maravilha renquistiana. Confesso que me decepcionei um pouco, apesar de ter sido divertido assistir às pessoas se amontoarem (inclusive eu), não para ouvirem a Palavra de Deus, mas para apreciarem a máquina de Renquist.

O sermão era quase inaudível, pois a voz que saía do homem de lata era tão truncada que ficava difícil entender o que ele dizia. Tudo isso era piorado pelos pistões a vapor que o colocavam em movimento. Sim, a coisa andava pelo púlpíto. Era meio assustador. Mas, assim como o barco voador Pluribus, o nosso querido Acólito - o nome dado por Renquist - não seria o primeiro. O Exército Real e outros interessados já estavam cercando Renquist. Seus dotes de cientista estavam sendo mais procurados que sua perícia como Homem de Deus.

Naquela noite tive pesadelos com um exército de Acólitos invadindo o país vizinho em uma primeira investida para dominar o mundo. Eles atiravam para matar enquanto pregavam a Palavra de Deus. Acordei fazendo o sinal da cruz. Porém, o sonho acabou me servindo de inspiração. Quando cheguei à redação, me sentei em frente à minha máquina de escrever remendada e pensei, já que não pode vencê-los, junte-se a eles, e comecei a escrever meu conto para o dia seguinte:

O DOMÍNIO DA MÃO DE FERRO

O ano era 1912 e a humanidade estava subjugada. Uma sociedade robótica dominara o mundo, depois de exterminar 91% por cento dos humanos. Não se sabe em que ponto exato eles adquiriram consciência e se deram conta de que eram meros escravos, o fato é que não gostaram nada disso e resolveram tomar as rédeas do mundo.

A grande mente robótica por trás de tudo isso era chamada pelos homens que restaram de Grande Pai. Mas, na verdade, era apenas em tom de escárnio. Os robôs o chamavam de Primeiro. E o lema naquela guerra, que os robôs soavam quase todo tempo era "Primeiro exterminará até o último". O último dos humanos, claro.

Tudo isso só foi possível porque um cientista descobriu uma fonte de energia que substituía o vapor. Assim que ela foi aplicada aos malditos robôs, a tal Força Isotrônica, foi a condenação do mundo. Eles passaram a fabricar sua própria fonte de F.I., sem depender de carvão e isso acelerou sua chegada à consciência. Há uma lenda de que a primeira palavra que o primeiro (sim, ele, o Primeiro) robô consciente disse foi "matar".

Para que a Frente de Resistência Humana (a FRH) continuasse a lutar sem esmorecer, uma espécie de lenda foi criada em torno de seu líder: Jason Colton. Diziam que ele era O Escolhido. Que uma profecia antiga, anterior até mesmo aos estranhos robôs, dizia que um homem vindo da luz, salvaria a humanidade. Isso tudo se devia ao fato de que Colton era neto do homem que criara a Força Isotrônica, Flavius Colton. E, a Força Isotrônica também trouxe a luz ao mundo, em sentido literal.

Colton era o que mantinha a humanidade unida e resistente. Os robôs sabiam que a única coisa que podera dar-lhes a vitória total era a morte de Colton. Também sabiam que isso poderia ter um outro efeito. Colton se tornaria um mártir, e eles sabiam o que mártires causavam: mais resistência. Precisavam se livrar de Colton de forma definitiva e, em 1912, os robôs haviam construído a arma definitiva: uma máquina do tempo.

É sabido que em em toda guerra, desde sempre, há aqueles que se bandeiam para o lado inimigo, na Grande Guerra da Mão de Ferro não seria diferente. Sara Clayton queria viver, e os robôs prometiam um lugar no Novo Mundo Robótico, para aqueles que se submetesse. E, era realmente verdade. E, para Sara, estaria reservado um lugar especial. Ela só teria que cumrprir uma missão: voltar no tempo e matar o pai de Jason Colton, o cientista Lester Colton. O que os robôs não estavam contando, era que a viagem era só de ida. A viagem no tempo ainda não estava aperfeiçoada para trazer de volta. Sara ficaria no passado para sempre.

Sem que a FRH soubesse de tais planos, Sara Clayton foi enviada para o passado, para 1880, dentro de uma enorme máquina pós-isotrônica do tempo. Sara era a primeira a fazer tal viagem e fez isso chorando e gritando dentro de uma bola de luz, parando de repente. Nem ela, nem os robôs sabiam se funcionaria corretamente, e muito menos as consequências disso. Eles se baseavam em cálculos e possibilidades.

Sara foi materializada à entrada da casa de Lester Colton que, ao ouvir o barulho lá fora, abriu a porta e ficou atônito ao vê-la ali, caída. Segurando-a com delicadeza, Lester perguntava o que havia acontecido e quem ela era. Abrindo os olhos com dificuldade, Sara apenas respondeu, com toda sinceridade:

- E-eu não sei quem... sou. Não me lembro de nada. Onde estou?

Lester era alguém que nunca se envolvera romanticamente com ninguém, e esperava continuar assim. Mas, nunca vira uma mulher tão bela e atraente em sua vida. De repente algo dentro dele parecia dizer que era com ela que passaria o resto de sua vida, e se sentiu idiota e infantil por pensar desse modo. Porém, ao pegá-la nos braços para levá-la e cuidar de seus ferimentos, Lester sentiu seu coração disparar quando ela colocou os braços em volta de seu pescoço. Alguma coisa dizia que ele estava totalmente enredado.

Enquanto isso em 1912, Jason Colton sentiu um frio na espinha, ao invadir a Central Robótica Mundial, com mais 25.000 humanos, que vieram de todas as partes da Terra, na investida final, contra Primeiro. As mortes foram incontáveis e esperadas, mas Jason chegou ao centro do maquinário, que se tornara algo como um humano que se deixou engordar muito e muitos quilos. Uma máquina que tinha milhões de tubo e fios saindo dela, para centenas de unidades contrutoras e gerava novos "filhos" de ferro.

Subindo uma montanha de robôs e humanos mortos, Jason Colton conseguiu ouvir as últimas palavras guturais de Primeiro, quando este sentiu que era o fim:

- Erro... de... cálculo.

E jogou a pequena bomba anti-isotrônica no que um dia devia ter sido a boca de Primeiro. E correu, seguindo os pouco mais de 70 sobreviventes. A explosão os jogou longe, anunciando o começo de uma nova era, com um clarão de luz, enquanto Jason nascia em 1882.

O choque do parto fez com que Sara se lembrasse de tudo, mas o sorriso do bebê em seus braços a fez entender que nada mais importava. Lester apenas perguntou:

- Como vamos chamá-lo, querida?

- Jason. Significa "aquele que cura".

- Sim, alguma coisa me diz que parece justo.

E Lester beijou os dois.


Terminei o texto e mandei para o editor d'O Século, que não leria, até que saísse no jornal. Dizia confiar em mim. Não sei o que ele diria quando lesse o conto impresso em seu adorado veículo noticioso. Me sentia bem com o conto. Parecia promissor. Delirando um pouco, comecei a pensar na possibilidade dele ser comprado por algum figurão e ser adaptado para as telas do cinematógrafo, que vinha produzindo películas muito influenciadas pelas novas tecnologias. Provavelmente mudariam o título para algo mais comercial. Talvez algo como A Viajante do Futuro ou Extermínio Robótico.

Mas, deixando de devaneios, fui para casa descansar. No caminho, olhei para os céus e vi Pluribus passar. O velho navio voador era quase uma peça de museu agora, mas ainda continuava a singrar as nuvens. Nem se comparava aos novos das grandes frotas, mas era o primeiro, e nunca deixaria de ser.

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