segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Infinitas Sagas


CRISE NAS INFINITAS CRISES Como destruir um universo e a vontade de lê-lo

Image and video hosting by TinyPic

Quando Ponto de Ignição começou a ser publicado aqui no Brasil, eu resolvi dar uma chance. Quem sabe, com o reboot da DC eu poderia voltar a colecionar as revistas da minha editora de super-heróis preferida. Só que, além do dinheiro curto, para comprar todas as edições relacionadas, parecia que eu estava velho demais para megassagas. Não tive paciência e nem mesmo comprei o últimos números para saber como se daria a transição do velho universo DC para o novo reboot. Para mim, Crise nas Infinitas Terras será sempre a única saga remodeladora que valeu a pena.

Eu tinha meus 17 anos e devorava tudo que saía nas bancas. Não colecionava como alguns anos antes, mas não deixava de acompanhar as minhas revistas prediletas. Eu já lia as aventuras de Marv Wolfman e George Perez em Novos Titãs e sabia que os caras eram bons. Os melhores da editora, naquela época. Mas, nada me me preparou para Crise nas Infinitas Terras e o que viria depois. Era como estar no olho do furacão.

Eu comprava as edições e não esperava chegar em casa para ler. Sim, eu lia andando, exatamente como esse pessoal anda com seus iPhones, só que era mais divertido. Lembro claramente de ir com minha mãe à casa de uns amigos e, no caminho comprar uma das edições de Superamigos. O pessoal ia na frente e eu atrás, lendo. Não conseguia largar e era penoso esperar pelo próximo capítulo.

Cada acontecimento era mais emocionante que o anterior. A morte do Flash foi algo que me atingiu quase em nível pessoal, já que Barry Allen era o Flash que eu mais gostava. Era como se a editora soubesse disso e dissesse: "ok, está na hora de ver até onde o Eudesinho aguenta". Mas, era tudo tão dentro do contexto, que era impossível não aceitar com resignação. E, então, as múltiplas terras acabaram e sobrou apenas uma. E tivemos um reboot de classe, com uma preocupação com o leitor e com a qualidade. Não eram apenas um novo começo, era um novo começo destinado a gerar clássicos.

Image and video hosting by TinyPic

Lembro de saltar do trem em São Cristóvão e atravessar toda a Quinta da Boa Vista em direção ao trabalho. Quando parei na primeira banca de jornal, lá estava Batman #1, anunciando uma nova fase de Batman, pós-Crise. Depois de Cavaleiro das Trevas, Miller retornava para recontar a origem do Homem-Morcego, com os desenhos a cargo de David Mazzucchelli. Mesmo perto de completar 18 anos, eu me sentia um garotinho, perto de algo grandioso demais. E não parava ali, afinal havia um novo universo DC para reformular.

O maior dos super-heróis ficava a cargo do meu desenhista/roteirista preferido, na época: Super-Homem era recriado por John Byrne. E, a Mulher-Maravilha era reformulada por ninguém menos que George Perez, que dava à sua nova origem um aspecto clássico. A trintade, a base da editora estava nas mãos dos melhores e, assim, o restante era só mandar ver.

Flash, Lanterna Verde, Aquaman e a melhor Liga da Justiça de todos os tempos, escrita por J.M. De Matteis e David Giffen e desenhada por Kevin Maguire. Era o recomeço perfeito, até os editores chegarem a uma conclusão: megassagas dava muita grana, então porque parar em Crise?

Image and video hosting by TinyPic

Assim, uma avalanche de sagas monumentais, tentando principalmente superar Crise nas Infinitas Terras, teve início. Não sei dizer qual a ordem, mas tivemos Lendas, Invasão, Zero Hora e muitas outras. Para piorar a situação, adentrávamos os malfadados anos 90, um tempo negro para a qualidade dos quadrinhos. Qualidade essa que parecia ser ditada pelo sucesso equivocado dos quadrinhos Image, editora que surgia e fazia suceso graças a traços anabolizados e cérebro defeituoso. Então as grandes seguiam a onda, e as megassagas também.

Até mesmo crossovers entre a DC e a Marvel viraram sagas monumentais, com direito a três minisséries e derivados chamados Amálgama. Uma idéia interessentae, mas infelizmente feita nos anos 90. Por sorte, nessa época eu vivia em reclusão no Tibete e não lia quadrinhos. Por isso minha falta de conhecimento sobre todas as grandes sagas desse período. Mas sei que foram muitas. Cada uma mais esdrúxula que a outra e quase todas desenhadas pelo Dan Jurgens, que parecia ser o único desenhista da DC naquele tempo. Até a saga da Morte do Super-Homem foi ele quem desenhou. Assim como a saga do enterro, do luto, do retorno, do corte do cabelo.

Mas se aproximava um novo século e novas possibilidades. Será que as coisas iam melhorar?

Image and video hosting by TinyPic

Não. Não melhorou. Decididos a recobrar a glória conseguida com Crise nas Infinitas Terras, agora toda saga DC tinha "Crise" no nome. Crise Infinita, Crise Final (era inifinita e agora já tinha final?), Crise de Identidade. Era muita crise, só não havia crise financeira, pois toda essa tralha vendia como água. As novas sagas vinham para desestruturar tudo que havia sido feito antes, e até mesmo desfazer coisas que Crise nas Infinitas Terras tinha dado como definitivas. Mas, isso não é novidade. No mundo dos quadrinhos de super-heróis nada é definitivo.

Heróis bacanas morriam, personagens coadjuvantes legais viravam vilões insanos, etc, etc, etc. Nesse meio tempo, voltavam a vida Lanterna Verde/Hal Jordan e o que mais tempo durou morto, Flash/Barry Allen. Era o alvorecer de Ponto de Ignição, que daria origem ao segundo reboot da editora.

Ah, sem contar as dezenas de sagas envolvendo o Lanterna Verde, Tropa Sinestro, Noite mais Densa, Dia Mais Claro, Com Grande Poderes Vem Grandes Sagas e por aí vai. Era assustador. Mesmo se eu já não acompanhasse mais as revistas mensais há anos, com certeza teria desistido nessa fase de Crises e tudo mais. O que era para ser divertido, se tornava estressante. Sem contar o gasto. Até lê-las em scans era um porre.

Image and video hosting by TinyPic

E Ponto de Ignição veio e se foi e uma nova era se iniciava na DC. Tão criticada nos meios virtuais, que eu não tive a mínima curiosidade de saber mais. Mas, quando você navega na internet e vai às bancas de jornais, acaba por esbarrar com os tais Novos 52. Superman de calça jeans, ou de armadura, Batman com início de carreira desencontrado com o restante dos personagens, Lanterna Verde gay, Liga da Justiça Dark e, mais recentemente, a notícia de que John Constantine encerraria sua carreira no selo Vertigo, para ser um anti-herói no universo comum da DC. E sabe-se lá o que mais, já que eu não li uma única edição sequer, como já fazia antes do reboot. Ou seja, não é pirraça com a nova fase.

O que me espanta nisso tudo, é que os EUA deve ser o maior produtor de scans do mundo. As revistas lá estão on line praticamente no dia seguinte. As pessoas poderiam ler essas porcarias no computador ou iPads da vida, e nem comprar. Mas, isso vende! E vende muito, já que tais megassagas são criadas todo mês. O mesmo se dá na Marvel com suas Guerras Civis e Qualquer Coisa Secreta.

Não se ouve falar em crise na indústria dos quadrinhos, como já aconteceu. A coisa vai de vento em popa porque quem reclama, compra! Eu não deixei de comprar quadrinhos, mas prefiro as minisséries fechadas sem ligação com nenhum tipo de saga interminável. Gosto também dos encadernados da linha Vertigo, que a Panini vem lançando regularmente.

Me pergunto porque as coisas não mudam. Porque não se acaba com esse modelo de números infinitos e aventuras repetitivas. Deixe os personagens que morreram, mortos. Criem novos e que sejam interessantes. Façam isso em Graphic Novels, álbuns, e se for insuficiente para gerar lucro, dê chance para os autores exercitarem a imaginação e criarem novos conceitos. Sim, o selo Vertigo já faz isso, mas seria muito bom ver os super-heróis terem a mesma chance.

No mais, dei reboot na minha paciência, mas ela não reinicializou
.

20 comentários:

Nitro disse...

Concordo com você Eudes, isso já encheu a paciência. Coitado do planeta Terra da DC que estava sendo destruido a cada semestre antes do Reboot.
Eu voltei a comprar revistas nesse novo reboot, estou comprando Superman e Liga da Justiça. Superman até que está bom, mas a liga não sei se não vou desistir mais adiante.
Passe longe de Novos Titãs, pois estão uma porcaria. E Batman agora virou filme de terror no estilo jogos mortais.

Eudes Honorato disse...

A descrição do batman me assustou hahahaahahahah

Na verdade eu não poso dizer que nao comprei nada dos novos 52, comprei o encadernado do Jonah Hex! Falta ler.

Gibiscuits disse...

ótimo texto. Concordo com quase tudo, menos que a Liga cômica foi a melhor de todas... Eu tbm estou de saco cheio de tantas idas e vindas pro mesmo lugar... aja paciência!

Eudes Honorato disse...

Acho que não li muitas aventuras da Liga da Justiça depois disso :)

Thiago A. disse...

Concordo com o texto eudes, hoje existem coisas horríveis que vendem como água, foi-se o tempo de sagas que valiam a pena, não sou fã do universo DC mas o texto foi perfeito!

E estou como vc, só compro mesmo o que vale a pena como sagas fechadas ou edições especiais.

MiGuEl RuDe disse...

http://www.youtube.com/watch?v=MX36t631VEk&feature=share
quem financia ?

Venerável Victor disse...

Pois é rapaz, concordo. Eu não reclamo, mas leio... Sabe, o pior mesmo foi o fim do selo Vertigo, era o Oásis de grandes histórias e celeiro de artistas maravilhosos para a própria DC...

Allan Chaves disse...

Concordo com Eudes, também me lembro de quando lia Crise nas Infinitas Terras, tudo ali era dramático, e épico, o Lex Luthor do bem e sua maldição de ver as infinitas terras sendo destruídas, os heróis caindo um a um, a épica morte do Flash que foi prenunciada em algumas ocasiões, a morte da Supermoça, e depois o excelente universo rebootado. Era uma iniciativa com uma proposta clara, e que atingiu o objetivo. Hoje eles enrolam apenas pra vender. E ninguém se salva, a Marvel também entrou nessa. Agora com Os Novos 52, vamos ver até quando a DC aguenta antes de inventar uma nova "Crise".

Eudes Honorato disse...

A Marvel faz reboots disfarçados.

Anônimo disse...

Faltou mesmo só um scan 2.0 de Crise...

gilbertking disse...

Gostei demais do seu artigo, caro Eudes. Vou publicá-lo em meu Face. Claro que com sua devida autorização e créditos. Não há mais criatividade nos quadrinhos. Os anos 80 nunca mais voltarão, infelizmente...

Eudes Honorato disse...

Sem problema, Gilbert :)

Eládio disse...

Concordo com tudo. Tenho que dizer que foi logo após essa época que parei de ler HQ's de super-herois. Simplesmente deixou de ser interessante pra mim. Ainda leio quadrinhos, mesmo já estndo com 40 anos. Adorava Homem-Aranha mas quando soube da saga dos clones parei de ler. A origem do Wolverine também me desagradou - aquela em são mostradas as "garras de osso". Enfim, estavam destruindo as mitologias dos heróis que eu gostava e trocando por outras que, bem, como é que vou dizer? Que não tinham muita consistência, profundidade, sei lá, ou pra ser mais pé no chão, tava na cara que o negócio das editoras era só ganhar uma grana. Sei que a moda continuou, e como voce relata aqui parece que ainda continua. Vivo procurando coisas diferentes ou revistas antigas, ou coisas que deixei passar quando era criança, por exemplo. Quadrinhos ainda são uma fonte de diversão pra mim, mas essas coisas da DC e da Marvel dos anos 90n em diante já não são pra mim.

Eudes Honorato disse...

Um rapaz me doou varios formatinhos da década de 90, e eu disse que so poderia usar para vende-los e quem sabe usar o dinheiro para comprara algo mais interessante para escanear, e ele concordou.

É de doer os olhos ver a qualidade dos quadrinhos de super-herois (ainda mais em formatinho) dos anos 90.

Jota disse...

"Com grandes poderes vem grandes sagas". Ri parecendo um doido aqui no trampo. huahuahuahua

Eudes Honorato disse...

:))))))

Anônimo disse...

Acho que a combinação "editora que dá pitaco nos roteiros e quer 22 páginas desenhadas no prazo de uma semana" mais "artista bom e que quer fazer um trabalho bem feito" não rola mais.
Antigamente, até os anos 80, só tinha Marvel e DC para se trabalhar, hoje estes artistas têm dezenas de opções melhores.

Samir Bilro disse...

Só vou chover no molhado, mas não resisti e devo dizer: muito bom o texto. Infelizmente as editoras só estão atráz de lucro e esqueceram da qualidade. Concordo em tudo que você escreveu. Crise nas infinitas terras era emocionante. Dan Jurgens era interessante no início, mas foi ficando desleixado, tanto no traço quanto no argumento. A fase da liga, com excelente desenhista e escritor era muito boa. Humor e realismo (aquela estória com o Homem-Cinza e o Senhor-Destino, espetacular e o Maxwel Lord e o computador lembra? Muito massa, só pra citar algumas). Perez, Byrne, Miller, parecia que todos os títulos eram incríveis. Agora tudo parece um arremedo do que já foi escrito. Uma pena.

Ralf Risi disse...

Li todas as 12 primeiras edições dos novos 52 e tirando a mulher maravilha, so perdi tempo....

Giancarlo Centoundici disse...

Putz... falou tudo que penso nesse post. Memoráveis aventuras são as da época de Crise e pŕe crise, mais interessantes ainda no Pós crise. Masdaíveio guerra infinita, guerra isso, guerra aquilo... crises demais pra eu acompanhar. Comecei a ler as hqs marvel e dc em 1981 (!!!) e hoje, não consigo mais ir na banca, comprar e ler. Baixo um arco específico, leio de uma vez só pra tentar tudo. Estou receoso com Rebirth, DCYou foi uma b*sta.

Business

category2