quarta-feira, 8 de maio de 2013

Nos velhos gibis, eu me reencontro...


PELO SEBOS DE TODA UMA VIDA
Aprendi a ler, enquanto passeava

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O primeiro sebo exclusivo de gibis que conheci ficava em uma feira livre, num bairro próximo de onde eu morava. Para um aficcionado em quadrinhos como eu, aquilo era o verdadeiro paraíso. Pertencia a um simpático casal, que todo domingo armava sua banca em uma das entradas da feira e nela espalhava dezenas ou centenas de gibis usados, aos quais eu passava um bom tempo examinando. Eu acabava por descobrir gibis que nunca havia lido ou visto antes, como era o caso do primeiro número da quadrinização do seriado O Homem do Fundo do Mar.

Nesta mesma época, eu era um colecionador compulsivo. Tanto que, em poucos anos, não havia mais onde guardar revistas em quadrinhos. Minha mãe já estava ficando louca comigo. Eu roubava todo o espaço possível da casa e entulhava de gibis. Talvez por isso e por querer algo que sempre desejei, acabei por vender as mais de 500 revistas que eu tinha, justamente para esse casal. Como me garantiram que pagariam na hora, juntei todas em três caixas grandes e levei até eles... em um carrinho de mão, que era a única maneira. Com o dinheiro arrecadado, comprei minha primeira bicicleta..

Com o tempo o casal sumiu da feira, mas apareceram outras pessoas que vendiam gibis usados, no mesmo bairro, já que lá era uma espécie de centro comercial da área onde eu morava. Primeiro apareceu uma pequena banca de jornal especializada em gibis usados, localizada bem perto de onde o casal ficava. Comprei alguma coisa lá, mas não muita. Como a banca era fechada, creio que a falta de um contato mais direto com as revistas, poder pegar, analizar, não me agradou.

Um tempo depois apareceu um rapaz que vendia gibis usados em uma calçada. Lembro que a maior contribuição que este "sebo" teve em minha vida, foi me fazer gostar de Tex e Zagor. A explicação é simples: mesmo comprando todo tipo de quadrinhos nas bancas de jornais, eu achava que os quadrinhos de faroeste era terrivelmente chatos. Era o velho "não li e não gostei" em ação. Daí que eu não queria arriscar meu rico dinheirinho em algo assim, então nunca os comprava. E, esse cara tinha muito de Tex e Zagor. Então pensei, oras, porquê não? É tão barato que se for ruim, nem é tanto prejuízo. E nunca mais parei de lê-los.

Depois de um tempo eu passei a ir além do Lote XV, nome do bairro onde se passava a história até o momento. Comecei a ir a Duque de Caxias, cidade famosa pelo filme O Homem da Capa Preta, com José Wilker. Ia aos sebos espalhados pelas calçadas que por lá existiam. Em um desses encontrei Shakespeare em Quadrinhos, de Gianni De Luca. Fiquei fascinado peal arte de De Luca e pelo modo como ele quase abolira os quadrinhos, fazendo suas páginas em "movimento". Infelizmente nunca fui um colecionador de verdade, e sempre acabava me desfazendo do que conseguia, fosse revendendo, trocando ou emprestando.


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Rarirade que queria muito fazer em scan


Na mesma cidade, em um canto mais afastado, encontrei um outro sebo que me fez relembrar o da feira livre. Ele usava uma banca dessas que se usam exatamente em uma feira, mas era solitário. Lembro que a quantidade de gibis era muito grande, espalhadas por aquela banca improvisada. O que mais encontrava lá eram exemplares antigos de MAD e Pancada (concorrente da MAD). Ainda hoje ao relembrar desse sebo em particular, sinto como se estivesse em um universo paralelo, naquela rua suja, com aquelas revistas sobre uma banca de madeira escura, parecendo infindáveis. Às vezes acho que se eu for àquela rua, a banca ainda estará lá, como se misticamente intocada pelo tempo.

Não é a toa que tenho sonhos recorrentes com estes tipos de sebos. Muitas vezes sonho que estou entrando em uma grande feira livre, procurando ávidamente por alguém que esteja vendendo quadrinhos usados. Nos sonhos, sempre encontro e sempre são gibis que eu nunca li antes na vida. Claro, eles só existem nos sonhos. É uma parte da minha vida que fazia com que eu me sentisse bem, confortável. Talvez por isso os sonhos.

Diferente de uma banca de jornal, que você já sabe o que vai encontrar por lá, pois já espera o que vai sair todo mês, ou o que viu em anúncios da revista (e hoje em dia o que viu na internet), nos sebos você vai encontrar o inesperado e em alguns casos o surpreendente! Coisas que você talvez nunca tenha lido antes ou ainda, exemplares que você pensou que nunca encontraria. É arqueologia emocional.

O tempo se passou e minhas idas a sebos de qualquer tipo foi rareando até parar totalmente. Quando casei e me mudei para a Zona sul do RJ, as coisas retomaram esse antigo rumo. Em grande parte devido ao fato de eu estar compartilhando gibis digitalizados, os scans. Eu precisava de material para escanear, e não queria que fosse apenas o que estava sendo lançado nas bancas de jornal, mas tudo aquilo que eu pudesse conseguir de material antigo.

Apesar de existirem esses "sebos" espalhados pelas calçadas daqui, a especialidade deles eram mais os livros usados, quadrinhos quase não havia. Assim, eu acabei por descobrir as comic shops, e a primeira foi a extinta Gibimania, do Marquinhos, de quem já falei aqui algumas vezes. A comic shop não é exatamente um sebo, mas algumas delas, como a citada, vende muito material antigo, funcionando assim como um sebo, também. A outra que descobri foi a Point HQ, em Ipanema, que ainda existe. Através dessas duas, consegui voltar aos tempos em que garimpava gibis usados.

Em Botafogo, onde moro, ainda há a Luzes da Cidade que, infelizmente é um sebo para ricos e só vou lá para ver se há algo realmente indispensável e que valha o prçeo que pedem. Também compro quando acho que o preço é razoável. Também há os quiosques de livros usados que, às vezes, vendem gibis antigos que aparecem ao acaso e onde o preço é mais justo. Em Copacabana temos a Baratos da Ribeiro, também especializada em livros, onde aparece gibis de tempos em tempos.

E, nos tempos de internet, temos os sebos virtuais, entre eles o que aglomera todos os sebos, que é o Estante Virtual. O Mercado Livre também pode ser considerado um sebo, se você souber como procurar. Porém, onde tenho conseguido revistas a bons preços e muito bem conservadas é no Rika Comics. Favor mandar a grana do jabá.

Enfim, o tempo passa e os tempos mudam, mas a paixão por gibis antigos continua, desta vez com um objetivo específico: compartilhá-los na rede. Os sites de scans talvez sejam a forma de sebo mais perfeita que existe. Você entra, escolhe e pega, sem pagar nada. Faltando apenas aquele cheiro de mofo característico dos gibis muito antigos, que ainda não temos como escanear... por enquanto.


17 comentários:

Jorge disse...

Eudes, fantástico teu texto! Me fez ter vários deja-vus e flashbacks, hehe...
O Primeiro sebo que conheci na vida foi a Livraria do Gibi nos 70s, qdo ainda guri. Todo sábado que podia ia na galeria perto da Av. Paulista onde ficava no fundo, ao lado do finado Cine Paulistano, uma loja pequena mas aconchegante. No 1o andar as feras da HQ nacional papeavam mas eu nem fazia bem idéia de quem eram, pois meu negócio era subir no apertado mezanino e mergulhar durante horas na vasta coleção das eras de ouro e prata da Ebal na qual a loja era imbatível. Anos depois já na faculdade, mudou-se p/ outro bairro onde acabei vendendo toda minha coleção a preço de banana, pois queria viajar. Pois bem, viajo a procura desses gibis até hoje, às vezes encontrando, às vezes sonhando em encontrar. Inclusive tendo sonhos recurrentes como o que vc tão bem descreveu, ora achando verdadeiros tesouros, ora contando os trocados para fazer uma "escolha de Sofia" entre títulos os quais não podia bancar, exatamente como era na real, hehe.
Hoje em dia vou às vezes ao Centro velho na região da Liberdade onde se concentram sebos, mas nenhum especializado. E muita coisa se acha mesmo garimpando no Mercado Livre. A Rika tem sede física na Augusta e vale a visita qdo vier passear por aqui. Grande abraço e muito obrigado por compartilhar não só seus incríveis scans, como suas maravilhosas memórias!

Eudes Honorato disse...

Poxa Jorge, obrigado pelo comentário bacana!

Rubião disse...

Nu Eudes, li essa adaptação do Will quando eu tinha uns 14 anos, nunca mais encontrei. Ia ser ótimo poder reler. Bração procê.

Eudes Honorato disse...

Ela existe pra vender no Mercado Livre ou Estante Virtual, mas pedem muito, por ser rara.

V@ndix. disse...

Caramba, foi nostálgico ler sua matéria e que saudades dos sebos da vida, infelizmente não encontro mais nenhum em minha cidade e no mercado livre(onde encontro muita coisa que procuro) considero um pouco caro mas parabéns por compartilhar essa sua aventura conosco, relembrar é viver, abraço campeão!

Anônimo disse...

Também tenho sonhos recorrentes com sebos e coleções de quadrinhos que nunca vi na vida. E só você mesmo, Eudes, para me responder o que realmente vou fazer quando vou a um sebo mesmo sem um centavo no bolso: praticar arqueologia emocional. Muito bom!

Eudes Honorato disse...

Sim, no Mercado Livre tem esse problema. No Rika Comics depende da HQ. Já consegui coisa que considero raridade por 2 reais, mas outros há coisas com preços inacessíveis pra um mero mortal, V@ndix.

Anônimo, é bom saber que outras pessoas tem esses sonhos diferenciados rsrsrsrsrs

DilmarX disse...

Bom saber que ainda está na ativa, man!

Eudes Honorato disse...

:D

Anônimo disse...

ja faz mais de 4 anos que conheço o rapadura no inicio acessava pra ler quadrinhos mais ultima mente acesso mais pra ler seu texto e dessa vez merece o comentario realmente fico bom esse texto.

IOLANDO VALENTE disse...

Olá.Moro em Duque de Caxias.Me lembro desse cara que vendia Gibis numa barraca de feira perto da estação de trem.Como você,também tenho sonhos com sebos e revistas que provavelmente não verei no mundo real.Isso me faz lembrar de LUCIEN,o bibliotecário de Sandman.Com todos aqueles livros escritos em sonhos.P.S.:tem um sebo muito bom(e empoeirado)na Rua Sacadura Cabral,na Praça Mauá.Tem muita coisa interessante.

Eudes Honorato disse...

Nossa, Iolando. Incrível encontrar alguém que lembre desse sebo.

Evandro disse...

MUITO BOM

Nano Falcão disse...

Bem que podiam vender essência de "cheiro de papel" nas variedades "novo" e "mofado", pra gente soltar em spray no ar, antes de ler um scan, eheh.

Rone Fideles disse...

Achei muito legal o texto. Aliás, do que seria nós, leitores de gibi, se não fossem os sebos? Lembro q quando comecei a ler gibis de super-herois eu perdia muitos números, já que não tinha condições de comprar todo mês. Então, os sebos eram a salvação para comprar os números antigos ou perdidos.

Anônimo disse...

http://www.estantevirtual.com.br/sebohumaita/Gianni-de-Luca-Shakespeare-Em-Quadrinhos-25335453

sabugo disse...

a HQ Shakespeare de Gianni de Luca tem na biblioteca da FFLCH/USP para empréstimo - infelizmente lá só pode pegar quem é aluno, mas qq um pode consultar... realmente vale a pena, está tb em meu sonho de consumo, pois a movimentação dos quadrinhos é demais...

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