terça-feira, 3 de setembro de 2013

Lugares Distantes


JERUSALEM JONES: LUGARES DISTANTES

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Eu não sou um homem do mar. Na verdade, nunca encontrei nenhum pistoleiro que tivesse viajado de navio. Eu vivo do deserto, respiro a areia e cavalgo as dunas. Mas, precisei ir até Hong Kong e, quem sabe um dia, eu conte o que fui fazer por lá. Tudo o que sei é que a viagem de ida já foi problemática para um marinheiro de primeira viagem. Mas, o retorno está se mostrando bem pior. O navio encalhou e, tenho a ligeira impressão, de que o capitão Norwal não sabe onde estamos.

Encalhamos nas pedras do que parece ser uma ilha. A neblina - sempre ela - fez com que o navio acabasse preso aqui. A tripulação não vai conseguir retirá-lo até a maré subir. E isso vai demorar. Eu deveria ficar por perto, mas se eu fisesse isso, não seria eu. Adentro a ilha, reparando como pedras negras estão em todo lugar. São de todos os formatos, e sempre negras. Norwal grita algo sobre não me afastar muito. Mas se eu o obedecesse, bem, vocês já sabem.

É tarde e daqui a pouco o sol sumirá. Mas ainda há luz o suficiente para que eu possa andar com segurança. Reparo que logo adiante há uma espécie de pequena muralha, feita da mesma pedra que infesta a ilha. Alta o suficiente para que ninguém possa pular sem que use alguma escada. Parece que foi entalhada na pedra e não construída. Que sempre esteve ali, e eu não duvido disso. Parece haver um pequeno portão. E ele está se abrindo.

Caminela corre, avança a toda velocidade. Ela não para até pular sobre o peito do homem de roupa estranha e o derruba. Ele puxa algo que parece serem armas, aponta contra Caminela, mas nada acontece. Ela não se mexe. Sabe que deve obedecer minhas ordens, e estas foram para imobilizar o estranho. Corro na direção deles e percebo que ele está gritando com Caminela e comigo, mas não consigo entendê-lo.

Enfio a mão na parte de dentro de meu vestido, que parece mais uma roupa de garoto, e puxo o androletopse. Reisar, o mago do reino, estava se divertindo ás minhas custas e disse que faria Mircela falar. Jogou o androletopse sobre ela, e ela disse: "estou entediada". Levei um susto. Reisar disse que o pó era, de certa forma, mágico. Traduzia qualquer língua, mesmo as mais impossíveis. Não devia ser usado em animais, por isso fez Caminela falar apenas uma frase. Ele usava para falar com estrangeiros, mas não sempre. Afinal estudar línguas também era o dever de um mago, e de uma aprendiz não-oficial. Pois sim, antes de ir embora, peguei um pouco. Certo, não um pouco. Parecia que eu estava adivinhando. Joguei o pó no rosto do estranho, que levou um susto.

- Que diabos é isso?! - Funcionava!

Droga, depois que de quase morrer com aquele lobo me derrubando, uma garotinha vestida de forma esquisita se aproxima e me joga um pó preto na cara. Mas, aparentemente, aquilo faz com que eu começasse a entender o que ela estava dizendo e ela me entendia. Ela manda o lobo, a quem chama Caminela, ou seja loba, sair de cima de mim. Só não acabei com a loba porque os revólveres estavam molhados.

- Bem-vindo ao Nono Reino, estranho. - diz a menina - Meu nome é Trinya. Você é amigo ou inimigo?

- Hã... amigo, eu acho. Não sabia que havia gente nessa ilha. Meu navio...

- Que navio?

Olho para trás e vejo que não há mais navio algum. Ou foram embora - o que era impossível - ou eu não estava mais no mesmo lugar, a não ser pelas pedras negras.

- Bom, meu navio, que sumiu, me deixou aqui e agora tenho que arranjar um modo de voltar até ele. Mas, como ainda tenho tempo, teria alguma coisa para comer? Mesmo eu sabendo que a comida não vai ficar muito tempo em meu estômago assim que eu pôr os pés no navio, seria bom forrar ele assim mesmo.

- Claro, temos. Somos poucos no castelo, já que meu pai saiu com meus irmãos e todos os soldados para a guerra. Mas temos comida sim.

- Que castel...? Ah, esse castelo.

As coisas iam aparecendo como se uma neblina baixasse de meus olhos. Talvez fosse a menina, talvez fosse o pozinho preto. Talvez fosse apenas a fome, não sei. A loba seguia-nos como um cachorrinho de estimação. E ainda roçava a cabeça na minha perna. A filha da mãe ainda gostava de mim, mesmo tendo quase arrancado minha cabeça alguns minutos antes.

Ela me leva através do portão no muro de pedra e o castelo aparece em todo seu esplendor. E ao redor, pessoas e mais pessoas trabalham freneticamente. Algumas olham para mim, geralmente as mais jovens e os mais velhos parecem já ter visto de tudo, não se incomodam. A menina deve ter uns 10 anos, mas não parece ter medo de mim. E não é apenas pela proteção da loba, é algo nela mesma.

Entramos no castelo e vamos até um lugar que parece ser a cozinha, se bem que do tamanho de três das que eu estou acostumado. Nos sentamos e ela busca algo para eu comer. Pão, carne e até vinho. Eu queria uma filha assim.

- Que lugar é este? Acho que não está nos mapas. E que guerra é esta? Acho que vocês vivem bem isolados por aqui.

- Antes diga seu nome, não é mesmo? Eu já me apresentei.

- Oh, desculpe. Sou Jerusalem Jones. Prazer. - apertei a mão dela, que achou o gesto engraçado.

- Então, sir Jones. Este é o Nono Reino, mais conhecido como Reino Inóspito, mesmo que não seja mais tão inóspito assim. Está com tempo?

- Ah, tenho todo o tempo do mundo. Pode falar.

"Meu pai Uziel, era o rei dos Nove Reinos Antigos, e uma grande guerra fez com que ele fosse deposto, e os reinos divididos em... nove, é claro. São agora conhecidos apenas como Nove Reinos. Hetén, filho de Kahsy, se rebelou. Ele não era ninguém, mas fez com que os outros reinos acreditassem em suas promessas de grandeza e poder. Claro, não avisou que o poder seria só dele. Tudo isso aconteceu muito antes de eu nascer. Mas eu sou obrigada a estudar isso todos os dias. Reisar diz que o conhecimento evita que os erros se repitam. Sei lá se é verdade.

O fato é que cada reino agora é dominado por um discípulo de Héten. Menos o Reino Inóspito, para onde meu pai e nossa família fugiram e se refugiaram, saindo do Reino dos Dias Eternos, onde Héten agora tem a sua base. Para seu azar, os outros reis e príncipes querem tanto poder quanto ele, e agora a guerra não é mais só contra meu pai, mas contra todos, uns contra os outros. Meu pai não quer mais o poder, quer apenas coneguir reunir os Nove Reinos sob uma mesma bandeira e depois escolher um novo rei, justo e capacitado. Se seré um de nossa casa, apenas as estrelas irão dizer. Mas meu pai não interferirá.

Há até mesmo um príncipe, em uma terra fora dos Nove Reinos, que diz ser o herdeiro de antigos reis, antes de meu pai, e está agrupando um grande exército e, dizem alguns estrangeiros que aqui aportam , que ele teria nada mais nada menos que dois grifos adultos, como parte de seu exército. O chamam Príncipe Bastardo. Confesso que fico animada com essas histórias, já que eu nunca vi um grifo em minha curta existência. Afinal diziam que eram extintos."

- Meu pai está contratando soldados. Se você quiser pode se juntar a ele.

- Fico lisonjeado com a oferta. Afinal, logo se vê que tenho tudo, menos porte de um guerreiro. Minhas lutas são em outro lugar. Talvez outro tempo, não sei. Acho que virei em alguma esquina errada e entrei nas suas terras por engano. E agora preciso descobrir como voltar. E, espero que você se mantenha longe o suficiente desses problemas entre reinos, para crescer e virar uma princesa, pequena Trinya. Já comi o suficiente e só tenho a agradecer. Vou tentar voltar pelo mesmo caminho e encontrar meu navio perdido.

- Reisar poderia ajudar, mas ele saiu, foi andar pela floresta em busca alguma das pedras menores, mais negras. Ele tenta montar um feitiço contra grigos ou algo assim. E eu terei de ficar, pois minha mãe já deve estar preocupada, sem saber que estou apenas aqui, na cozinha. Foi bom conhecer você, Jerusalem Jones.

- Tome, fique com uma de minhas armas como lembrança. Retirei as balas e duvido que vocês tenham esse tipo de munição. Então servirá apenas de suvenir. Mas acho melhor esconder de seus pais, mesmo assim.

- Nossa, é linda. Então, tome meu broche de aprendiz não-oficial de feiticeira. Na verdade eu roubei de Reisar, como sempre faço. Caminela vai acompanhar você até onde quiser. Proteção. Quando encontrar seu navio diga apenas "volte", e ela volta.

A menina conseguiu me fazer ficar triste ao ir embora. Mas não era meu mundo. Não sei como fui parar ali, mas precisava voltar. Essas coisas sempre acontecem comigo e o mais sensato é refazer o caminho de volta. Baguncei os cabelos curtos dela e disse adeus.

O homem chamado Jerusalem Jones se vai. Segurei a arma que ganhei de presente e notei como era pesada. Iria guardar bem escondida. Mas mostraria a Reisar antes, ele não contaria nada sobre ela a ninguém e, mesmo se contasse, eu teria de contar a meu pai como ele anda usando os feitiços de alucinação, aqueles pós brancos brilhantes.

Caminela e Jones já estavam longe, quando olhei na direção do portão norte. Não entendi bem o que aconteceu aqui, mas muitas coisas estranhas aconteciam neste dias de conflitos e magia. Vou virar esta página, que é melhor.

Caminela era um lobo assustador, mas caminhava ao meu lado tão calma que, às vezes, nem parecia estar ali. Refiz todo o caminho e mesmo assim não encontrei o navio. Já estava escuro e aquilo estava me preocupando. Me sentei e Caminela colocou a cabeça sobre meu colo. Esta desgraçada vai fazer eu sentir falta dela.

Estávamos perto das mesmas pedras negras que avistei. O caminho parecia ser aquele, mas eu poderia ter me perdido também. O sono começava a aparecer,e e eu cochilei por uns segundos. Caminela me acordou, estava rosnando. O caminho para o mar estava iluminado, e ela olhava com fúria para o navio. Enfim, eles estavam se preparando para zarpar. Meio triste, eu disse para a loba:

- Volte.

E ela não pensou duas vezes. Apenas me cheirou um segundo e deu meia-volta, sumindo na escuridão. O capitão já me avistara e esbravejava comigo. Eu disse:

- Fui mijar. Não posso?

- Bebeu o Rio Mississipi inteiro?

Ainda olhei para trás uma última vez e senti calgo estranho. Saudade, talvez. Depois que subi a bordo e o navio começou a se afastar, ainda conseguiu ouvir um uivo vindo de lugar nenhum.


8 comentários:

Máq disse...

Bem legal esse conto.
É de sua autoria mesmo Eudes?
hauhauha tem umas belas sacadas aí.

Eudes Honorato disse...

É sim, Máq.

joalfa666 disse...

Cara, muito bom mesmo esse conto. O personagem tem futuro, continue contando as estórias de Jerusalem Jones. E pra fechar, bonita imagem pra proteção de tela. Quem é o autor dela?

Anônimo disse...

Sempre me espanto em ver como Jerusalem Jones é um personagem flexível, que se adapta a diversos cenários e situações com naturalidade.

Também gosto do personagem porque, para mim, suas aventuras são uma grande homenagem ao gênero pulp, apresentando histórias de faroeste, terror e ficção científica.

Com este último post, JJ entra agora no gênero “aventura na selva” (como as de Tarzan e as do Fantasma, quando eles encontravam reinos perdidos na floresta), com possibilidade para se tornar também uma história de corsários.

Minha única reclamação é que você criou um ótimo background, com personagens interessantes como Trinya e sua loba falante, mas não aproveitou todo o potencial desses elementos. Ao ler o contou, fiquei esperando o momento em que JJ e a loba, quando estão voltando para a praia, cruzariam com soldados inimigos, forçando o pistoleiro a entrar na guerra dos Nove Reinos.

Não sei se o conto é a primeira parte de uma história maior. De qualquer forma, acho que você poderia aproveitar essa ilha mágica como cenário para outras aventuras do JJ (digo o mesmo para o cenário steampunk que você apresentou em uma aventura anterior do JJ). Nós, leitores, agradeceríamos!

Falou,
LucaTorelli

Eudes Honorato disse...

O Conto é uma homenagem ao estilo fantasia e espada, que ganhou força no últimos tempos com Guerra dos Tronos, livros e série.

A inetnção era cria uma história fechada, apenas como uma referencia e homenagem mesmo. Mas que tb pudesse ser lida por quem não conhece nada dos livros e da série.

Mas sempre há a possibilidade de retornos a esses mundos. :)

Joalfa, eu peguei no Google Imagens e não tinha o nome do autor na página onde ela estava.

Chico Bento disse...

Sempre me delicio com contos de JJ,se sair o livro o 01 vem pra minas com certeza.

Máq disse...

Cadê os quadrinistas fãs do Rapadura pra fazer a quadrinização de um desses contos do Eudes?

Anônimo disse...

J.J. o viajante intergaláctico, do futuro, do presente e das 51 terras paralelas. Nada acontece por acaso, mas tudo acontece con Jerusalém Jones. De longe meu personagem favorito, de todos os que vc já criou.
Red.

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