quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Dois Contos de Sangue


DELANO

Image and video hosting by TinyPic


Eu não queria ter filhos. Tivemos duas meninas. Então não queria perdê-las nunca. E as perdemos, pelos motivos que eu tinha medo de ter filhos. Quando Laura se matou semanas depois, durante seu enterro, eu já sabia tudo que iria fazer. Era um plano de merda, mas eu sabia que ia funcionar. Por quê? Porque eu queria morrer, e sabia que isso não ia acontecer.

Encontrar quem fizesse um uniforme de guarda de presídio foi complicado, mas não tanto quanto conseguir uma arma e o silenciador. Tive de praticar. Nunca havia atirado antes. E eu era péssimo. Era como segurar um tanque e levar um coice do mesmo. Mas tudo era prática.

Eu precisava entrar no presídio, e faria isso pela porta da frente. Tentei ser o mais vago possível no disfarce. O bigode teria de funcionar. Sempre usam bigode. O quepe, como é complicado conseguir um quepe de guarda. Ainda bem que existe a internet. Não consegui comprar, mas consegui um maluco que sabia fazer um. Não perguntou nada, só quis seu pagamento.

Deixei o carro muito distante e fui andando. Se me vissem entrar, estaria acabado. Aproveitei uma hora em que o movimento na entrada estava conturbado e entrei como se fizesse parte daquela entrega de prisioneiros.

Alguém ia me perguntar algo, mas foi chamado por outro guarda. Mantinha cabeça baixa. Encontrar Delano seria complicado em um lugar tão grande. Então levei algo que me ajudaria, algo para o qual só olhei uma vez: uma foto. Uma que consegui, com um jornalista. Ela nunca foi publicada. Mas rodava pela internet. Eram minhas meninas.

Entrei pelos corredores. Homens apinhados em suas celas. Delano não estaria ali. Os guardas me ignoravam. Pareciam sentir o cheiro da morte em mim. Par encontrar Delano, me aproximei e mostrei a foto a um grupo de presos, e disse:

- Delano.

Era estranho ver alguns daqueles homens, assassinos, muitos deles, se encolherem diante da foto. Dois ou três disseram onde ele estava, sem reclamar, sem me denunciar. Eu não sabia se conseguiria, e se não conseguisse, não me levariam preso. E isso parecia contar a meu favor. como imaginei.

Eu suava. A camisa do uniforme logo estaria denunciando meu nervosismo. Cheguei ao bloco. Celas com dois presos, cada. Fui até a cela que me indicaram e chamei.

- Delano.

Quando ele levantou da parte de baixo da cama, eu atirei. TUFF TUFF. O primeiro eu errei e o segundo foi na cabeça, quando ele se preparava para gritar. Seu companheiro de cela ia dar o alarme , mas eu apontei para ele antes e coloquei um dedo sobre o lábio. Joguei a foto para ele e disse:

- Se quer gritar, tome aqui um bom motivo.

E fui embora, viver a vida de um homem morto.


PAI E FILHO

Image and video hosting by TinyPic


Drew custava a acreditar que tinha poucos meses de vida. Fora diagnosticado com um maldito câncer. Ele se entristecia com o fato de que ainda havia tanto a fazer. Se tornara um dos serial killers mais bem sucedidos da América. Chamavam-no de Chapeleiro Louco, Ele deixava um página de Alice no País das Maravilhas junto a cada corpo, ou o que sobrasse dele. Fazia aquilo apenas por diversão, não havia signifcado algum. Assim ele pensava.

Ele ainda estava apenas na metade do livro e morreria antes de completar sua missão. Mas, a solução veio quando seu filho apareceu a porta e perguntou se estava tudo bem com ele. Drew disse que sim, e o chamou, dizendo que queria lhe contar uma história. Seu filho reclamou dizendo que já não era mais criança, mas sentou-se a mesa e escutou seu pai.

Kenny foi entendo tudo aos poucos, e quando a dimensão de tudo que seu pai contou o atingiu, ele estava de olhos arregalados, mas manteve a calma e Drew viu a si mesmo em seu filho. E sabia que ele não o decepcionaria.

Ao longo dos meses seguintes, Drew foi ensinado a teoria a Kenny, já que a doença o estava debilitando, e não o permitia ensinar a prática, pelo menos não ainda. Drew se concentrava em deixar claro a motivação central daquilo tudo: não havia motivações. Era apenas algo necessário para se mostrar o quanto o mundo precisava de pessoas como ele, seu pai.

Kenny apenas ouvia, pouco falava. Sempre fora calado, o que era bom. Demonstrava já uma certa tendência para aquela "carreira".

Sentindo que seu fim estava perto, e que acabaria sendo internado de vez, Drew, mesmo debilitado, pegou seu carro e, depois de muito rodar, conseguiu capturar um garoto, e levar para seu lugar secreto. Era a hora da lição final.

Obviamente Kenny não usaria nada disso agora. Era muito novo. Sua mãe terminaria de criá-lo, sem saber que uma semente muito importante estava plantada dentro do filho amado.

Depois de amarrar e amordaçar bem o garoto - que parecia ter a mesma idade de Kenny - Drew explicou todo o ritual que era necessário para que se aquilo fosse uma obra de arte. Perguntou com qual "ferramenta" ele queria começar, e se surpreendeu ao ver Kenny dizer, "a faca de trinchar". Drew sentiu que fizera tudo certo.

Kenny segurou a faca em sua mão trêmula, o que era natural, e fechou os olhos, como se fizesse uma última oração ao deus da carnificina.

Drew só sentiu a facada no estômago dois segundos depois de tê-la recebido. Se não estivesse debilitado, poderia ter reagido. Sentiu a faca ser arrancada, e e caiu de bruços. Kenny se ajoelhou em cima dele e a cada facada nas costas, ponteava com uma palavra:

- VOCÊ... NÃO... É ... MEU... PAI... FILHO... DA... PUTA... DOENTE... DO... CARALHO.

Quando terminou, arrancou a última página de Alice no País das Maravilhas e enfiou na boca de Drew.

Soltou o garoto, que estava com tão assustado que havia se urinado. Eles precisavam sumir dali. Foram embora a pé. Kenny não sabia dirigir. Ele se separou do menino quando estava perto de casa. Este correu o mais rápido que pôde.

Kenny agora precisava libertar sua mãe da jaula em esteve presa por 8 anos enquanto ele era criado por aquele homem que aprendeu a odiar.


4 comentários:

Anônimo disse...

Ótimos contos, Eudes.

Gostei muito do final de "Pai e Filho", e "Delano" é um dos melhores que você já escreveu.

Falou,
LucaTorelli

Eudes Honorato disse...

Tenho usado a rapidez das redes sociais para escrever contos curtos, exercitando a imaginação, os que considero os melhores vou trazendo pra cá :)

massega disse...

aeh vc assiste programas globais campeões de audiência ou vê jovens embasbacados com tolices da internet.
Pq nosso Eudes ñ pode ter uma oportunidade pra mostrar seu trabalho?

Anônimo disse...

Realmente a cada conto vc se supera. Ainda me lembro da primeira edição da coletânea de contos. Ainda espero encontrar se nome nas prateleiras da livrarias.
Red.

Business

category2