quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Jerusalem Jones–Queimado

Fire02

Fazia um bom tempo que J. J. não aparecia por essas paragens. Mas, ainda assim, foi uma surpresa para ele encontrar a maior parte da pequena cidade de Old Cow queimada, destruída. Já a outra parte, estava apenas deserta mesmo. Mas, não estava em melhor estado. As casas que não tinham virado cinzas, estavam visivelmente queimadas, negras. Todo o lugar parecia ter sido atingido por algo, uma explosão talvez, que selou seu destino.

Jones cavalgou até o cemitério, e ele parecia do mesmo tamanho e com a mesma quantidade de túmulos que viu da última vez que esteve em Old Cow City. Para onde foram os cadáveres torrados pelo incêncio, ou seja lá o que tenha acontecido ali? Os sobreviventes levaram consigo? Não parecia provável.

J. J.  já sentia sua cicatriz no pescoço começar a pulsar, mesmo sabendo que aquilo era apenas uma impressão causada pela sua pulsação agitada. Cavalgava lentamente, com inveja de Chase, que parecia não se dar conta de quão estranho era aquilo tudo. Na verdade, parecia mais que ele estava dormindo, mesmo que andasse. E ele tinha certeza que aquele cavalo já devia ter feito isso alguma vez. Não era bem preguiça, era aquela espécie de calma que ele tinha.

- Uooooouuuuu!!!

Jerusalem Jones foi retirado a força de seus pensamentos quando Chase empinou, para evitar pisar sobre uma estranha massa enegrecida que estava bem diante deles, no chão. J. J. não queria admitir, mas era uma pessoa. Totalmente queimada. O mais estanho é que ela ainda fumegava, ao passo que a cidade já tinha esfriado a um bom tempo.

Mesmo sabendo que não devia, J. J. desceu do cavalo e se agachou ao lado daquilo. O calor era suportável, mas o cheiro era outra história. Uma espécie de carne assada, mas que ele nunca… J. J. parou com aqueles pensamentos. Sua fome estava controlada há muito tempo e a cicatriz vinha deixando-o em paz. Seus problemas de morto-vivo pareciam ser um assunto do passado.

A coisa abriu os olhos e olhou diretamente para Jones.

Ele pulou para trás, com o susto. Não tanto por medo. Já estava acostumado, foi mais o espasmo que a pessoa –ou coisa – sofreu ao abrir os olhos. Duas piscinas azuis em um rosto totalmente desfigurado pelo fogo. Seria uma mulher? Não conseguia deduzir. Com certeza estava viva. E tentava falar:

- N-necessário… foi… necessário.

A voz parecia queimada, também. Não dava para definir se era homem ou mulher. Qualquer vestígio de identificação o fogo havia levado. J. J. não sabia o que fazer, nem o que dizer. Era uma daquelas situações que ele sabia ser impossível qualquer ajuda. O que quer que tenha acontecido ali, ele não participara. Pelo menos desta vez.

Mesmo que a pessoa parecesse calma e sem sofrimento, apesar de seu aspecto e estado, J. J. achou que só havia uma coisa que poderia fazer por ela. Retirou um de seus revólveres e aponto para a pessoa. E, com o dedo indicador da outra mão, apontou para a arma e fez uma expressão de quem pergunta, “é o que deseja?”.

- N-não. Ainda falta… um.

Ah, não, pensou Jones. Eu só passei por aqui algumas vezes. Nem mesmo morei aqui, só fiquei alguns dias, no máximo. Por que essas coisas sempre tem que me perseguir? O que aconteceu aqui?!

Tão distraído que estava, J. J. não percebeu de imediato, como a pessoa começou a se recompor, se regenerar. De início, muito devagar. mas, conforme J. J. se dava conta do que o esperava, a coisa foi acontecendo mais rápido. Quando ele finalmente saiu de seu estupor, a coisa estava completamente restituída. A índia nua de profundos olhos azuis estava em pé, encarando-o. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela o agarrou pelo pescoço com as duas mãos:

- Era necessário, forasteiro. Era necessário. A cidade toda precisava pagar. Olho por olho, fogo com fogo. Eu nasci do fogo que levou minha mãe, minha família, minha aldeia. Aldeia por aldeia.

- O-onde estão… as… pessoas? – perguntou, sufocando, Jones.

- Não estão.

- Eu… acho que lembro da história. – isso fez a índia afrouxar as mãos. 

– Pensei que era apenas uma lenda para assustar crianças. O fundador de Old Cow City  teria tomado essas terras de índios, de uma tribo desconhecida, pequena. Falava-se em terem queimado todos, incluindo… uma índia grávida.

- Old Cow, era como meu avô a chamava, em sua língua.

- Mas… foi há muito tempo. Essas pessoas, elas.. elas nem lembram… não são… não eram culpadas.

- Forasteiro… todos… são… culpados.

E, dito isso, seus olhos de um azul estranho, foram preenchidos por um buraco negro, cada um, sua boca se abriu, suas mãos esquentaram e Jones se preparou para morrer queimado. Era isso, todos eram culpados. Ela estava presa ali, à cidade, à sua tribo, e matava a todos que por ali passavam.

Esse foi o último pensamento que passou por sua mente, ao sentir o fogo preencher o mundo, o espaço, cada átomo de seu corpo. Era uma dor bem-vinda. Era libertador. Fogo purificador. Sentia que, no fundo merecia isso. Todos… nós.

Sentiu as mãos da índia o largarem no chão. Uma massa disforme, carne queimada e apodrecida. Mas, como podia estar pensando ainda? Abriu os olhos e sentiu os fiapos chamuscados de roupa revoarem de seu corpo. O vento fresco o banhava e ele sentia… ele sentia que chorava. As lágrimas desciam por seu rosto e quase evaporavam. Todo seu corpo ainda fumegava, mas ele estava vivo, e bem. Só queria conseguir parar de chorar. Ela se fora.

- Onde estão as pessoas? – ecoou a pergunta em sua cabeça.

- Não estão – ele lembrou da resposta.

Foram embora. Não pertenciam mais àquele lugar. Nem conseguia imaginar como centenas e centenas de pessoas saíram vagando por aí, conscientes de que eram culpadas de alguma coisa. Nuas, talvez, como ele estava agora. Nu para si mesmo.

O chão a sua volta estava chamuscado. Chase estava seguro ao longe. Parecia assustado, mas conformado. J. J. tentava parar as lágrimas, mas sabia que elas ainda iam durar mais um pouco. Pegou uma roupa no alforje  e se vestiu. Queria ir embora, mas também queria ficar. Saber mais, ser purificado totalmente. Talvez esta fosse a vingança: tornar-se consciente de si mesmo, de seus pecados, e não conseguir perdão para eles.

- Vamos embora, Chase.

4 comentários:

Dyel disse...

Legal a história!!
Aproveito para lhes comunicar que fiz aquele macete para driblar o bloqueio do MEGA...e funcionou! o único detalhe é que eu fiz esta operação NÃO no google Chrome... Mas No OPERA!! o processo é quase o mesmo,porém com uma diferença... Após escolherem a opção "DIA ANTERIOR" ou "HORA ANTERIOR", fechem o Opera e o Reiniciem! Daí,é só partir pro GOOOOL!!!

Anônimo disse...

Show ,Rapá!
Já virei fã de JJ pode continuar os conto ele não pode morrer mesmo ,já que não está vivo e nem morto...rs
Gostei muito ,porque dá pra imaginar a cena como de um filme!
Mais uma vez parabéns Rapa!Continue a nos presentear com seus contos!
bjim no core!
Kristorm

Monio disse...

Parabéns novamente, Eudes.

As histórias do Jerusalém Jones sempre são ótimas!!

Mauri disse...

Com JJ, é tiro dado e bugio deitado.
Êta cabra da peste!

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