terça-feira, 27 de outubro de 2015

Graphic Novels #06 a #09

GRAPHIC NOVELS #06 a #09 – EDITORA ABRIL
Digitalização e Restauração H.O.R.D.A. Comics

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Mike Saenz se une ao programador Wiiliam Bates e o resultado é  Crash, uma espécie de Cavaleiro das Trevas do Vingador Dourado,e  a primeira HQ completamente produzida por computador. A trama se passa no futuro, com Tony Stark já com mais de 70 anos, mas ainda jovem graças a uma droga que retarda o envelhecimento. Nesse cenário, ele contracena com Nick Fury, ainda diretor da Shield, numa história que envolve politicagens, pirataria e espionagem industrial. Enfim, uma história típica do ferroso.

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Batman é obrigado a se aliar ao seu maior adversário para deter um terrorista sanguinário e insano que obtém o controle de uma máquina capaz de manipular o clima. Assim, o Cruzado Encapuzado se vê em uma difícil situação, tendo de caçar o criminoso e, ao mesmo tempo, proteger Tália, a mulher que pode estar carregando em seu ventre o filho do Homem-Morcego. Roteiro por Mike W. Barr e ilustrações por Jerry Bingham.

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O Edifício conta a história de 4 personagens diferentes, que vivem realidades diferentes dentro do mesmo espaço: o mundo urbano e a fugaz vida citadina ao redor de um edifício. Monroe Mensh, Gilda Green, Antonio Tonatti e P. J. Hammond não só se enquadram em realidades diferentes, mas também podem representar estratos sociais diferentes – talvez o ponto principal desta leitura.

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Num futuro próximo a magnetosfera do planeta Terra foi destruída e a mortífera radiação solar dizimou a humanidade quase por completo. Por pura necessidade os robôs (que foram criados para serviços braçais humanos) iniciaram sua chamada “convergência evolutiva”. Ou seja, tiveram que se adaptar ao novo ambiente hostil da superfície terrestre e aos poucos começaram a poder se auto-reproduzir e ter consciência. Essa adaptação ao ambiente fez surgir os robôs-animais , muito semelhantes aos seus antecessores e com habilidades também semelhantes.

sábado, 24 de outubro de 2015

The Final Girls

TERROR NOS BASTIDORES (The Final Girls, 2015)
Quando seu pior terror é estar dentro de um filme dos anos 80

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Alguns devem se lembrar do filme Pleasentville – A Vida em Preto e Branco, em que Tobey Maguire e Reese Whiterspoon vão parar dentro de uma série de TV ingênua dos anos 50. O filme foi bastante elogioado, pois não era apenas um filme com uma premissa metalinguistica. Ele explorava bem a ideia de pessoas do mundo real interferindo em um mundo fantasioso e padronizado. Agora, pegue essa mesma premissa e coloque as pessoas dentro de um filme de terror dos anos 80.

Taissa Farmiga (de American Horror Show) é Max, filha de Amanda Cartwright (Malin Akerman, de Watchmen), atriz que ficou marcada por um papel em um filme de terror dos anos 80, Acampamento Sangrento.

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Logo um acidente de carro separa mãe e filha. Amanda morre deixando a filha órfã, vivendo com a tia. Três anos depois, os amigos de Max querem fazer uma sessão especial com o filme que celebrizou a mãe de Max: Acampamento Sangrento. A contragosto, Max aceita participar.

Tudo ia bem se não fosse um princípio de incêndio que obriga Max, Vicki, Gertie, Chris e Duncan a atravessa a tela de exibição, para conseguir escapar do fogo. Sem uma explicação plausível – quem precisa delas? – eles vão parar dentro de Acampamento Sangrento.

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Os cinco amigos demoram para perceber que estão mesmo no filme. O que para Duncan, fã de filmes de terror, é um sonho realizado, para os outros é um pesadelo. Para Max, a coisa é ainda mais dolorosa, pois ela está novamente diante de sua mãe que, no filme é a doce e ingênua Nancy.

O filme tem como referência básica Sexta-Feira 13. Temos o cara com a máscara estranha e o facão, temos as virgens, e o fato de que é só alguepm mostrar os peitos que o psicopata aparece. Mas, é claro, é uma homenagem a todos estes filmes de terror que fizeram a alegria dos anos 80. Principalmente se eram em um acampamento.

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Apesar de ser um terrir (terror e comédia) o filme também emociona devido ao drama de Max, que perdeu a mãe há três anos e agora tem ela ali na sua frente, mas que não faz ideia de quem Max seja, pois ela é uma personagem em um filme de terror.

A metalinguagem sempre rende histórias divertidas e The Final Girls _ que se refere ao fato de sempre restar apenas uma garota no fim deste tipo de filme – não é diferente. Então, dê play e… corra.
Melhor cena?

- O… que… é… issoooo?
- Câ… me…raaaa…. len… taaaa.

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terça-feira, 20 de outubro de 2015

Retalhos

RETALHOS  - CRAIG THOMPSON
Digitalização e ajustes by H.O.R.D.A. Comics
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Quando vi Retalhos pela primeira vez, lá pelos idos de 2009, fiquei fitando aquela capa, e pensando, “ah, não! Romancezinho, não”, e deixei pra lá. Craig Thompson estava riscado da minha lista, relegado ao clássico “não li e não gostei”.

Algum tempo depois eu viria a adquirir sua graphic novel seguinte, Habib, e gostei muito do que li. Mesmo assim, Retalhos continuou não sendo uma opção. Mas, Habib já me mostrara o talento de Thompson.

O tempo passou mais um pouco e uma nova remessa de quadrinhos chegara à banca de livros usados que fica aqui ao lado. Entre eles estava Retalhos, seminovo e pela metade do preço. Resolvi que estava na hora de dar uma chance. E, claro, eu estava errado em meus preconceitos. Normal.

Retalhos é uma história em quadrinhos (ou graphic novel, tanto faz) autobiográfica, que levou Craig Thompson instantaneamente ao mesmo patamar de grandes autores, sendo elogiado até por Art Spielgelman, o autor de Maus.

O que ele faz é nos mostrar que toda história merece ser contada. Se ela será “ouvida” depende do narrador e de como ela será narrada. O que poderia ser apenas mais uma entre milhões de histórias cotidianas se torna algo grandioso quando Thompson nos conta.

Craig Thompson narra sua infância e adolescência, vivendo com pais muito religiosos e um irmão mais novo. Sua vida, entre bullings e igreja vai seguindo até que, já adolescente, conhece Raina, em um retiro religioso, e os dois sentem grande afeto um pelo outro.

Temos aqui muito mais que um “romancezinho”. Ao menos quando percebemos que Thompson não narra apenas sua paixão, mas toda a transformação a que isso levou. Todo amadurecimento e descoberta de si mesmo a que foi conduzido.

Quantos de nós não fomos mudados por eventos em nossas vidas, muitos deles ligados ao coração, como é o mais frequente. Quantos de nós temos nossas próprias histórias que dariam gibis e mais gibis. Toda história merece ser contada, só precisamos descobrir como. Thompson descobriu.

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domingo, 18 de outubro de 2015

The Jacksons

THE JACKSONS – AN AMERICAN DREAM (1992)
avi/DVDRip – Fullscreen – Legendas em Português

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Antes de tudo, quero dizer que a demora por posts de scans é devido a muitas coisas diferentes que causam uma certa falta de tempo. No entanto, apesar da demora, tenho vários já feitos que só dependem de restauração ou ajustes no Photoshop, a parte mais chata e lenta. Portanto, para que o blog não vire uma cidade fantasma, deixo aqui o post dessa minissérie que vi há muito tempo atrás, na Globo, e que reencontrei esses dias, para baixar.

The Jacksons, como o nome já deixa claro, conta a trajetória da família Jackson – não apenas dos Jackson Five e Michael Jackson – e de como se tornaram parte da cultura americana.

A história começa na década de 50, quando os pais do famoso grupo de garotos e do Rei do Pop, se conheceram e se casaram. Vivendo uma vida de dificuldades, Joseph Jackson, um homem de personalidade dura, tinha sonhos ligados à música e tentou algumas vezes emplacar uma banda.

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Com o rápido nascimento de seus vários filhos e precisando sustentar a família, este sonho rapidamente vai morrendo, até que o talento dos garotos vai aparecendo.

Inicialmente formado por quatro de seus filhos, o grupo logo recebe a adesão de Michael Jackson, que seu pai considerava muito novo, mas que acaba se tornando uma espécie de líder do conjunto. A ambição de Joe Jackson se mistura a sua personalidade agressiva e as crianças passam a ser constantemente cobradas, até mesmo com surras.

O sucesso vem gradualmente e, por fim, são contratados pela gravadora Motown e, dessa parceria, nasce o sucesso irrevogável do Jackson Five.

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Na série podemos ver os vários elementos que formariam a personalidade conturbada do futuro Rei do Pop, Michael Jackson. A relação com o pai, com sua mãe e com os irmãos. Assim como a relação com o homem responsável pela ascenção do grupo, Berry Gody, o produtor da Motown.

A telessérie de 1992,  foi produzida por entre outros, o próprio Jermaine Jackson, que queria contar a história deles e de sua família. Vai até o ponto monde Michael Jackson lança o álbum Thriller e faz uma última turnê com os irmãos.

O arquivo não é em HD, mas em um avi/DVDRip com boa qualidade. As legendas não estão perfeitas. Parece que foram feitas um pouco as pressas, mas não atrapalha a compreensão. Existe na rede, a versão dublada que foi transmitida pela Globo, mas a qualidade é sofrível demais.

Boa diversão.

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terça-feira, 6 de outubro de 2015

Gibiografia


GIBIOGRAFIA – MINHA HISTÓRIA EM QUADRINHOS

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Entro na estranha máquina do tempo, uma espécie de divã em formato de uma motocicleta sem rodas, com assento mais largo. No que seria o guidão aciono o memorial-pad. Ele escaneia minhas ondas cerebrais e procura a memória afetiva mais frequente: quadrinhos, é o resultado. O contador passa a procurar a data-momento onde minhas memórias guardam a lembrança mais antiga que tenho sobre quadrinhos. E sou jogado para lá em um vórtice enjoativo. Estou em meados de 1975, na casa em que morei quase a vida toda.

A viagem não é física, mas virtual. Estou lá e não estou. A máquina funciona por datas e temas. Estranhamente ela escolheu quadrinhos. Me vejo sentado no muro da meia-água onde eu morava. Uma das minhas muitas tias – por parte de pai – chega com um monte de revistas em quadrinhos e me entrega. Ela sabe que eu não sei ler ainda, e pouco se importa com isso. Em algum momento ela notou a minha afeição pelos quadrinhos e me trouxe este presente.

Meus dois tios mais novos – irmãos dela – se aproximam e pedem para ver as revistas. Eu deixo. Como já sabem ler, querem emprestado. Vão separando as que querem, uma a uma. Somente as melhores, as de super-heróis. Mas, ainda deixam uma comigo: Riquinho. Nunca mais vi as outras. E tomei uma certa raiva das revistas do Riquinho.

A máquina diverge e me joga mais para a frente. Estou com minha mãe  no ponto de ônibus. É o ano seguinte e já sei ler um pouco. Ao nosso lado uma banca de jornal muito humilde tem alguns gibis. Esta banca é, na verdade, uma pequena filial de uma maior que fica num bairro mais distante. Foi a única banca que meu bairro teve e, depois que ela acabou, alguns anos depois, nunca mais teve outra, até os dias de hoje.

Peço CR$ 1,00 (um cruzeiro) à minha mãe, para comprar uma revista do Pato Donald. Era superfina, pouquíssimas páginas, mas era o que eu podia comprar. Ela me dá o dinheiro e eu a compro, como se estivesse adquirindo ouro puro.

Vou mais para frente um pouco – quase nada – e estou em casa novamente, com minhas irmãs e irmão – esperando minha mãe chegar. Ela foi às compras e parece estar demorando. Ela chega cansada, mas com um certo brilho nos olhos. As bolsas ainda são aquelas de papel, com alças, Ela as deposita no chão e me chama. De dentro de uma delas ela puxa algo.

Olhando de onde estou, parece que tudo se passa em câmera lenta, ou talvez seja apenas ela saboreando a alegria de me ver em expectativa. Ela retira um gibi da bolsa. Eu quase não consigo acreditar. A imagem à minha frente é a mesma que carrego na memória: ela segura uma revista em quadrinhos de O Mestre do Kung Fu. Nunca tinha visto. Não sei se vou gostar ou não, mas sei que é o melhor presente do mundo.

Os anos passam com um pouco mais de pressa e já estou em um tempo que meu pai se foi, separou-se de minha mãe. Ela seguiu sua vida e cria a nós quatro sem nunca reclamar desse fardo. Chegamos a ter um padrasto, mas não deu certo. Então ela procura não se apegar. Quando arranja um namorado, para minha surpresa, ele gosta de gibis, exatamente como eu. Acho que eu nunca tinha visto isso, um adulto que lia gibis.

Seu nome é engraçado, Daguiberto, nunca esqueci.Quando ele mesmo não me dá seus gibis, me dava dinheiro para eu comprar. Numa dessas vezes, eu pego o dinheiro e saio pelo mundo para comprar uma revista. Não encontro a banca que estou acostumado a ir aberta. Então ando mais e mais. Acabo indo muito longe, mas compro o que queria: a Disney Especial – Os Cosmonautas. Era o primeiro gibi com tantas páginas que eu tinha.

Quando chego em casa, quase apanho. Demorei demais, e ninguém sabia onde eu estava. Daguiberto quase apanha também.

A máquina acelera e estou em meu primeiro emprego, aos 11 anos de idade. É 1980. O que aconteceu foi que perguntei minha mãe se eu podia trabalhar. Ela reluta um pouco, mas decide que posso, e consegue emprego para mim num armazém de um senhor para que ela trabalha de faxineira em sua casa: o Seu Joaquim. Para minha surpresa é o pai de uma de minhas primeira – ou talvez a primeira – professora, de muitos anos atrás. Anos depois iria trabalhar para seu filho, no bar dele. O dinheiro não dá para comprar muitos gibis.

No ano seguinte a coisa toda muda. É como se fosse a Era de Ouro dos quadrinhos para mim. Estou com 12 anos e consegui emprego em uma padaria de bem pouco movimento no tal bairro onde a banca de jornal matriz, que mencionei lá em cima, fica. Junta a fome com a vontade de comer.

Me vejo acordar todo dia bem cedo e, antes de seguir para a padaria, começo a ir a banca. Acelero o tempo e me vejo criar uma relação comercial e de amizade com os dois jornaleiros donos da banca. Até mesmo confiam em mim para comprar fiado. Ganho tano a confiança deles, que já chego e não pergunto mais o que saiu de novo, apenas entro na Kombi, procuro os pacotes, abro e vou pegando o que quero. Pensando nisso hoje, era muito estranho fazer isso.

Com o tempo acelerado, vejo minha coleção de quadrinhos crescer e não caber mais no pequeno armário amarelo onde eu as colocava. Não compro mais apenas Disney ou apenas super-heróis, eu compro TUDO que sai. De Turma da Mônica a Espada Selvagem de Conan. Tomo conta de um grande armário branco que fica na sala e uso toda a parte de baixo para colocar minha coleção. Arrumo em várias pilhas bem organizadas.

Fico sabendo já depois de adulto, que minhas irmãs pegavam quadrinhos da Turma da Mônica que tinha medo de pedir emprestado, quando eu ia trabalhar e colocavam de volta na mesma posição, para que eu não desconfiasse. Ri quando me contaram isso.

O armário branco torna-se pequeno também, e não consigo encontrar solução. A casa não tem espaço, e muito menos eu tenho um quarto meu. Nenhum de nós tem. Uma ideia me vem a cabeça.

Todo domingo, na rua da padaria onde eu trabalho, há uma feira livre e há algo lá que destoa de toda a feira: uma banca de gibis usados, onde eu mesmo comprei alguns. Fico sabendo que eles compram, também, e falo dos meus mais de 500 gibis. Eles aceitam comprar. Então, arranjo três grandes caixas, coloco todos eles dentro e consigo um carrinho de mão, para transportá-los até lá. Eu já começava a exercer o desapego, quando necessário. Com o dinheiro arrecadado, comprei minha primeira bicicleta, mesmo que de segunda mão.

Então, nos anos subsequentes eu não mantenho uma coleção tão vasta como aquela. Sempre compro, guardo, troco ou vendo. Faço muitos amigos por meio da troca de gibis. Também vou crescendo, chegando à idade adulta e um desastre acontece em minha vida: quando chego aos vinte anos me torno religioso, uma Testemunha de Jeová.

A máquina para com um sopetão e eu me vejo parar de comprar quadrinhos, pois a doutrina ensina que é errado lê-los, devido às duas muitas más influências, como por exemplo, personagens baseados em deuses pagão, como Thor, ou no próprio demônio, como Daredevil (Demolidor). E assim, sigo por sete anos, demorando para perceber que tudo é basicamente um discurso para nos fazer sentir culpados, e que muitos fazem e veem o que querem, fora das reuniões religiosas.

Como se para compensar, coleciono muito material de leitura da religião, quase como quando eu colecionava quadrinhos. Mas, não é a mesma coisa, Perto do fim dos sete anos – que por ironia, significa perfeição, na simbologia bíblica – eu já voltei a ler alguns quadrinhos. Quando abandono a religião, o primeiro gibi que leio é O Reino do Amanhã (Kingdom Come, uma alusão ao Pai Nosso), fazendo a ironia estar novamente presente.

Volto para o mundo dos vivos, agora com 28 anos de idade. A máquina do tempo parece navegar em águas mais calmas. Ainda estou meio perdido, mas as coisas vão ganhando foco novamente. A síndrome do Pânico que adquiri antes de me tornar religioso ainda prevalece. E não, não procurei nas Testemunhas de Jeová uma cura. Procurei conhecimento e, de certa forma, eu atingi o meu objetivo.

Na internet conheço outras ex-Testemunhas de Jeová e outras pessoas com Síndrome de Pânico. Essa facilidade em lidar com o mundo virtual faz com que cheguemos ao anos 2000, o alvorecer do século 21 e tudo volte a mudar na minha vida, mais uma vez. Conheço uma pessoa, no mundo virtual que, no ano seguinte se torna minha esposa, minha sempre amada Eliane, ou simplesmente Lia. O que vem pela frente é fruto dessas mudanças que ocorrem aqui.

A máquina dá um salto para o ano de 2003. Já estamos casados há mais de dois anos. Desde então, me imiscuí no mundo da internet e por uma espécie de acidente – como em toda boa origem – os quadrinhos voltam com força total à minha vida. Até então eu vinha comprando e lendo de forma esporádica, sem me importar realmente. O baque de ficar tanto tempo afastado ainda cobrava seu preço. Mas, uma conjunção de acontecimentos faria tudo isso mudar de vez.

Eu tinha começado um tal blog, chamado rapadura Açucarada, e não tinha muito o que postar. Blogs eram novidade e eu acabei experimentando o formato. Mas, assim como nas duas vezes anteriores, parecia que este blog também acabaria sendo deletado. Até que alguém me pediu para escanear a página de uma HQ que eu descrevi e tudo se tornou isso, como muitas vezes acabei relatando no próprio blog, em quase cada aniversário.

Eu queria compartilhar, como vi pessoas fazerem antes de mim. E, para compartilhar, eu precisava adquirir, comprar quadrinhos. E eu voltei a fazer isso com todo fervor de muitos anos antes. Como na minha pré-adolescência. E não apenas novos, mas eu comecei a percorrer sebos e comic shops, passei a conhecer pessoas que amavam os quadrinhos como eu amava, tanto no mundo virtual, quanto no real. E, aquilo – isso – se tornou um caminho sem volta. Ou apenas, um caminho que teve uma breve pausa.

A máquina acelera passando por esses quase 13 anos, e mostrando como amadureci como leitor de quadrinhos. Como aprendi a gostar de coisas que antes eu não tinha acesso e, quando tinha, demonstrava certo preconceito: Will Eisner, Chiclete Com Banana, Striptiras, Robert Crumb, Asterix, Circo, Revista Animal, Akira, Lourenço Mutarrelli, Bone, Quadrinhos europeus, mangás, e por aí vai em uma lista muito grande.

Era como se tudo que vivi antes tivesse sido apenas uma preparação para tudo que aconteceu nessa última década. E eu não conseguia parar, mesmo quando queria, porque no fundo, eu não queria. Tive tanta ajuda de tantas pessoas e vi essa coisa de compartilhar sem nenhum interesse financeiro ser tornar algo que eu nem mesmo podia imaginar que seria.

As pessoas já faziam isso com música, acho que até mesmo com mangás. Foi um site que compartilhava quadrinhos bem modestamente que me inspirou, e vi que o que bastava, como sempre, era continuar, não desistir, e outros fariam o mesmo.

Isso tudo me fez ver – ou apenas constatar – que eu e os quadrinhos estamos ligados por mais do que apena um mero gosto pessoal. Estamos ligados desde que eu apenas os abria para olhar os desenhos, sem saber ler ainda. Parece que todos sabiam disso: minha tias, minha mãe, o Daguiberto. Todos.

O que aconteceu aqui – e ainda acontece- foi algo que validou uma paixão que eu nem mesmo sabia que era tão grande. Não fiz porque queria ser ativista de nada, não sou assim. Fiz porque queria compartilhar algo que eu gosto com outras pessoas, como alguém que chama os amigos para ver um filme que já assistiu e quer que eles também curtam. Fiz por empatia.

No fim das contas, ainda sou aquela criança, sentada no muro da meia-água, com uma pilha de gibis ao meu lado, folheando-os um por um, e me imaginando ali dentro. E é assim que eu gosto de ser.

E a viagem nunca termina.

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