terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O Velho Homem Cansado

O VELHO HOMEM CANSADO
Um Conto de Um Lugar Qualquer no Mundo



O velho homem cansado observava a tarde de sua varanda. Não gostava de admitir para si mesmo que estava cansado. Cansado até mesmo de odiar. Seu racismo ainda fazia ferver seu sangue ao se dar conta de como a vizinhança cada vez mais era habitada por negros, incluindo os da casa ao lado, que ele sempre fez questão de evitar por todos esses anos em que vieram morar ali.

Sentia falta de Mina, que sempre ralhava com ele, dizendo para ele se preocupar com coisas mais importantes, como educar os filhos e pensar no futuro deles. Eles se foram. Mina também. Eles para longe, ela para sempre. Agora era só ele e Claire, sua vira-latas de estimação.

Escutou um barulho na cerca de madeira e se virou. Não conseguiu acreditar no que via. Uma das filhas, a mais nova, acreditava ele, ao que parecia, estava empurrando a tábua e passando por ela. Sua pequena bola caíra no seu quintal. A menina, a negrinha, estava invadindo seu espaço sagrado. O velho homem cansado queria gritar e mandá-la embora. Mas, algo o segurava. Ainda assim, seus olhos ardiam de raiva.

A menina devia ter uns 5 anos. Passou pela cerca e apanhou a bola. Já estava indo embora quando notou que o velho a observava com estranhos olhos de alguém muito mais velho do que parecia. Ela foi em sua direção.

Ele já ia levantar e mandá-la embora, mas, para piorar, Claire passou por ele e foi fazer festa com a menina. A menina ria e Claire tentava pegar a bola da mão dela. Ela segurava no alto e ria. Claire tomou a bola e a menina caiu. O velho não conseguia emitir palavra alguma. Não sabia o que fazer, mas não estava gostando daquilo, não mesmo.

Claire trouxe a bola para ele, insistia que ele pegasse. e ele só pensava que não queria tocar em nada que viesse de um negro. Ou de uma filha deles. Mas, Claire era insistente, então ele pegou e arremessou longe, Claire foi buscar. Quando viu, a menina estava ao lado de sua cadeira de balanço. Olhava para ele, intrigada.

- Sua bebê gostou de mim.
- Ela deve ser mais velha que eu. E cachorros gostam de todo mundo. Não sabem a diferença.
- Que diferença? 
- A... ... a diferença de... cor. - disse, sem se importar. 
- Meu pai disse que é porque eles não enxergam as cores. 
- Ah, basta treiná-los e eles saber exatamente que cores não gostar. 
- O senhor fez isso com ela?
- Não. Nunca me passou pela cabeça. 
- Mas, assim também não ia contar.
- Por quê?
- Porque ela não escolheu não gostar, só foi treinada pra isso. A gente pode escolher, ela não. O senhor, por exemplo, de que cor não gosta? 
- Eu...

Antes que ele respondesse, Claire voltou com a bolinha e pulou em cima dele, entregando-a. O velho homem cansado tomou um susto e se aprumou.

- Seus pais devem estar preocupados, melhor você ir. 
- Eu já vou. Qual seu nome?
- É... Kurt. 
- O meu é Mina. Jasmina, quer dizer, Mina é meu apelido. Eu vou pra casa agora, tchau e obrigado.

O velho homem cansado sabia que era apenas coincidência, mas, não conseguiu se conter quando algo dentro dele morreu. Suas lágrimas o faziam sentir-se cada vez menos cansado.

2 comentários:

raimundo disse...

Essas palavras foram as que me tocaram mais.não sei os motivos.lágrimas marejaram me fazendo feliz e infeliz.os sensíveis hão de me entender.obrigado Eudes.belo post.

NandoCode disse...

Eudes está se superando...

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