domingo, 6 de março de 2016

A Menina

A MENINA  
Um Conto Após o Fim do Mundo


Era uma manhã cinzenta e fria de mais um dia após o Fim do Mundo.

Os mortos-vivos agora eram raros. Mas, ainda apareciam de vez em quando. Às vezes eram apenas aqueles que os parentes guardavam escondidos em uma esperança de cura, isso antes do Grande expurgo. Foi pensando nisso, que avistei a menina enquanto eu estava lá fora, apreciando aquele dia melancólico.

Ela estava com um vestido branco, e descia por um estrada acima, acompanhada de outras crianças. Demorei um pouco para me dar conta do que estava acontecendo. A menina estava morta.

As crianças que eram imprudentes, implicavam com a menina, como crianças gostam de fazer quando veem alguém diferente. Não entendiam o perigo que corriam. A menina, no entanto, apenas caminhava com aquele passo típico deles. Mesmo de longe, percebi que ela estava nos estágios finais.
Eu gritava para as crianças se afastarem. Mesmo sem atacar, isso não era garantia de que ela não iria fazê-lo a qualquer momento, então teríamos um grande problema, com o exército chegando ao lugarejo e limpando o lugar, levando consigo mortos e vivos.

Eu gritava, mas os gritos de zombaria das crianças eram mais altos. A menina caminhava, descendo a estrada, numa caminhada sem pressa. Parecia tão calma, tão inofensiva. Mas, aquilo só fazia com que minha apreensão aumentasse. era como o silêncio antes do terremoto.

Eu comecei a entrar em pânico. mesmo sendo uma menina, eu não tinha outra alternativa. Comecei a procurar alguma coisa que me servisse de arma. Eu precisava fazer algo para evitar uma catástrofe maior.

Varri o chão com os olhos, corri como um louco pelo lugar ao redor. Foi quando vi o que me parecia um pedaço de vergalhão, já enferrujado. Eu o segurei com uma das mãos e seu tamanho parecia que serviria para o que eu precisava. Quando olhei na direção da menina, as crianças a derrubaram e e ela rolou e caiu pela beirada do caminho, ficando bem mais perto de mim.

Corri em sua direção e olhei para seu rosto. Ela não parecia disposta a atacar, era como se soubesse que seu tempo acabou, que aqueles iguais a ela não existiam mais. Que não adiantava lutar por uma vida que não existia. Ela nem mesmo era mais uma menina. Eu segurei o pedaço de vergalhão acima de sua testa e, esquecendo qualquer sentimento, matei o que restava de seu cérebro. Ela não fechou os olhos, pois não os tinha mais.

Eu não queria mais ficar ali. Devia queimar o corpo, mas não conseguia ficar perto dela. Só pensava em me mudar novamente, ir para longe daquele lugar. Sem nada a me apegar, eu apenas comecei a caminhar para longe. As crianças que antes estava rindo e zombando, agora pareciam tão mortas quanto a menina, depois do que viram eu fazer. Foram embora caladas.

Quando eu já estava a uma certa distância, olhei para trás uma última vez. Um homem se aproximava da menina. Ele carregava o que parecia ser um caixão do exato tamanho dela. Ele me viu. Olhou em minha direção, com o olhar mais triste que eu já vi em minha vida - e eu vi muitos olhares tristes - e acenou para mim.

Comecei a chorar sem parar, enquanto ia embora. Senti no aceno do homem que ele me agradecia.

FIM

[Extraído de um sonho de duas noites atrás.]

3 comentários:

Lucas Lisboa disse...

Boa historia.
Tem o completo?

Eudes Honorato disse...

Não entendi, lucas. Não tem completo, esse é o conto todo.

Marcelo Soares disse...

Boa história mesmo, imaginei isso como HQ até. Parabéns Eudes.

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