CONHECEREIS A VERDADE: MINHA JORNADA DE
TESTEMUNHA DE JEOVÁ ATÉ O ATEÍSMO
Em cima, como testemunha de Jeová, abaixo
já ateu convito, como todo bom marxista
Os últimos posts me trouxeram de volta o prazer de escrever aqui no blog, como eu fazia há anos atrás, tanto que foi assim que nasceu meu personagem de faroeste Jerusalem Jones, que tentarei retomar, também.
Fica aqui o aviso: você não precisa ler o texto se gosta apenas de baixar as HQs. Não há nenhuma obrigação aqui. Eu mesmo não sou muito de ler textos longos na internet. Os textos servem também para o blog ter mais atualizações enquanto os quadrinhos não chegam. Dito isso, vamos lá.
Vamos falar sobre manipulação. Com os acontecimentos dos últimos anos, que culminou nas eleições de 2018, vimos o quanto a manipulação pode ser uma forte aliada. Talvez digamos que nunca seriamos manipulados, nunca "iríamos pela cabeça dos outros", mas, a manipulação está além do nosso querer.
Desde criança eu sempre fui arrastado pela minha mãe para todo tipo de religião: evangélica, católica, espiritismo, umbanda. Com o tempo, entendi o que ela queria, que era ajuda para criar quatro filhos sozinha, e qualquer ajuda seria bem vinda.
Isso não deixou de ser um aprendizado. Desde cedo pude ver que as igrejas evangélicas davam muito valor ao dinheiro, isso muito antes da Igreja Universal existir. Parecia que o momento mais importante era aquele em que se "passava a sacolinha". As outras pareciam não ser assim, mas eu não me identificava com elas, mesmo assim. Desde cedo eu adquiri um senso crítico quanto a religião cristã, e achava que não havia lugar para mim ali. Ainda assim, acreditava muito em Deus, principalmente naqueles momentos mais doloridos, ou seja, quando estava envolvido em alguma paixonite.
O tempo passou e eu fui trabalhar em uma padaria, ainda bem novo. Como era apenas eu e o dono e o movimento era fraco, eu tinha bastante tempo para ler. Ele adquiria algumas revistas religiosas, achando qque estava contribuindo para a causa das Testemunhas de Jeová. Porém, nunca se envolveu.
As revistas eram A Sentinela e Despertai. Foram as primeiras sementes. Aos 15 anos eu parei de trabalhar lá. Apesar parecer ter se passado muito tempo, foi aos 16 anos que eu voltaria a ter contato com as Testemunhas de jeová, desta vez de forma mais direta e novamente em um trabalho. A irmã do dono do bar onde eu passei a trabalhar era Testemunha de Jeová. Ela não era insistente, mas aproveitava alguns momentos para falar sobre a religião. Mas, nada do que ela falava fazia diferença para mim. Mas, quando eu ela me emprestava livros, a coisa mudava de foco.
Muito mais do que ouvir alguém insistindo para que você se converta à religião dela, ler algo que estava, de certa forma, bem escrito, era muito mais impactante. Os livros pareciam saber do que estavam falando. Eles nunca colocavam nomes de autores, em nenhuma publicação, pois tudo vinha do "Corpo Governante das Testemunhas de Jeová", com sede no Brooklyn, em Nova York e, como aprenderia depois, o Corpo Governante eram como Deus na Terra, pois "recebiam" inspiração divina para interpretar as Escrituras, assim, não poderiam se considerar autores. Tudo isso mexeria comigo. Mas, estou me adiantando.
Mesmo ali, não foi a hora ainda. Tudo aconteceu quando eu tinha 20 anos. Eu andava numa espécie de adolescência atrasada. Indo a festa e bebendo muito, mas apenas nas festas. O problema é que haviam muitas festas. Eu já estava com Síndrome do Pânico - mas essa é outra história - e tive minha segunda tentativa com as outras religiões, pois minha mãe queria encontrar uma "cura". Hoje em dia estou bem, com remédios mesmo, como tinha que ser.
Novamente as publicações deles cruzaram meu caminho. Era como uma perseguição através das épocas. Eu estava sem nada para ler, e peguei novos livros das TJ com um amigo que estava estudando a Bíblia com eles. Ele nunca se tornaria um membro.
Abalado pela doença, por problemas no trabalho e talvez pela vida que parecia um pouco sem sentido, eu me deixei levar de vez por tudo que li e, decidi por mim mesmo que queria me tornar Testemunha de Jeová. Reencontrei aquela irmã do dono do bar e disse a ela que queria "ser testemunha de Jeová". Devia ser raro para eles, quealguém fosse até eles, em vez de o contrário.
Ela me explicou que eu precisaria estudar a Bíblia, junto com as publicações deles. E assim foi. Em seis meses eu estava sendo batizado num Congresso em que as Testemunhas de várias partes do estado do RJ se encontravam. E, assim fui um membro da religião ou seita, como preferirem, por longos sete anos.
Tentarei resumir os próximos "capítulos", pois parece que eu não calculava que fosse ficar tão grande. O começo foi uma época extraordinária. Fiz muitos amigos e até mesmo a parte de ir de casa em casa, que eu tinha grande medo, por causa da timidez, eu consegui tirar de letra. O problema é que eu fui sendo abduzido por aquilo tudo,deixando de lado até mesmo minha família, já que apenas eu era Testemunha de Jeová. E eu não questionava nada disso.
Não podia mais ir a aniversários, nem festejar o Natal. Não podia ir a nenhum batizado, e nada, absolutamente nada que envolvesse estar dentro de outra igreja que não fosse o Salão do Reino (como se chama os lugares de reunião deles). Nos estudos, nas reuniões e publicações fiquei sabendo também que não poderia mais cantar o Hino Nacional, votar e, o dogma mais polêmico de todos, não poderia receber transfusão de sangue caso precisasse.
Todas essas coisas eram decididas pelo tal Corpo Governante nos EUA, que lia a Bíbli, interpretava e criava suas leis. A questão do sangue mesmo, era a interpretação de um ou dois versículos onde se falava em "não comer sangue", mas eles diziam que transfusão era o mesmo que comer, e nenhum de nós questionava isso. Questionar seria sinal de estar "fraco na fé". Apenas pensar em ler um livro que contestasse os ensinamentos deles, era flagrante pecado. Numa época em que a internet estava começando, vivíamos nas trevas. Mas, como eu saí?
Para muitos religiosos, sete é um número que simboliza perfeição. Depois de sete anos, eu decidi que precisava sair. Eu não aguentava mais pregar, não aguentava mais aquela expectativa deque eu teria que me tornar um "ancião" (pastor, padre, para eles) e, por fim, não aguentava mais ficar sem fazer sexo. É, esqueci de dizer que lá, eles levavam a coisa de sexo só depois do casamento extremamente a sério. E eu não pretendia me casar tão cedo. Precisava sair, mesmo achando que estava errado em ir embora. Mas, minha consciência não conseguia me deixar continuar lá e fazer o que eu precisava fazer. Então uma bela noite, eu não voltei mais.
Ainda enviaram uma comissão até minha casa, mas eu disse que minha decisão era irrevogável. Assim, em 1997, eu me desliguei das testemunhas de Jeová para sempre.
Vale lembrar que a montagem que abre o post se refereao fato de que eu parei de ler histórias em quadrinhos, que eram consideradas desvirtuadoras, imagina, elas tinham um "herói" chamado DareDEVIL! Ou seja, Diabo Audacioso ou Demônio Petulante, segundo tradução das TJ. Assim, eu não lia mais gibis e não podia fazer sexo. Era querer demais.
Assim que saí, me sentia ainda meio preso aquele lugar.Cheguei a visitar o Salão do reino que eu frequentava, e fiqquei na porta, em pé. A reação das pessoas foi, claro, pensar que eu voltaria. mas, era apenas a despedida final. Da religião e de todos os amigos quelá fiz, pois, por meio demais uma interpretação da Bíblia, nenhum deles poderia mais ter contato comigo, e não tiveram. Nunca mais.
Eu estava trabalhando e assim continuei. os anos se passaram e chegou o ano 2000. Eu conheci pessoas na internet, que eu começava a usar, que também foram TJ e saíram. Ver que sobreviveram me fez bem. Também pude pesquisar mais sobre o assunto e ver que eu estava totalmente cego e que muita coisa tinha sido encoberta ou simplesmente deletada por eles ao longo dos anos. Cada nova geração de Testemunhas de Jeová nada sabia do que realmente tinha acontecido no passado, a não ser a versão retocada deles mesmos. Por exemplo, eles já havia feitos previsões de fim do mundo sendo a última data, antes de desistirem disso, 1975. No meu tempo, eles faziam cálculos sem uma data precisa, que a esta altura também já foram ultrapassados.
Aos poucos fui me desligando não apenas das Testemunhas de Jeová, mas da religião como um todos e inclusive de Deus. A verdade, por mais chocante que seja para quem é religioso e está lendo isso até aqui, é que eu não sentia mais necessidade de nenhum dos dois. Em grande parte eu ainda era um agnóstico. Eu não admitia abertamente o que eu sentia. Talvez por medo do que iriam dizer ou por medo de estar totalmente errado.
Eu me casei em 2001, mesmo ainda me debatendo com meus problemas de saúde. Em novembro de 2002 comecei este blog e no começo de 2003 comecei um tratamento que, finalmente, depois de 12 anos, funcionou. As coisa estavam indo bem.
Eu não pensava muito em crença ou descrença. Mas sempre lembrava de como foi fácil me manipular, mesmo que ao longo de muitos anos. As Testemunhas de Jeová não parecem pessoas fanáticas, costumo dizer que é um fanatismo light. A lavagem cerebral está presente, você faz tudo que eles querem, você não questiona, mas você parece uma pessoa como outra qualquer, a diferença é que você fala muito em Jeová.
O blog me deu uma espécie de terapia ocupacional, a qual me dediquei bastante, como podem ver. Isso foi mais um ponto para eu não sentir necessidade de algo mais que isso. Lia, minha esposa, é católica, mas não é praticante e é desencanada com religião. Nunca tentou me converter a nada. Foi e é uma parceira essencial para este blog. Muito disso aqui devo a ela aturar um marido nerd.
Os anos passaram tranquilamente, mesmo com alguns altos e baixos e eu não pensava muito nesta questão so ser ou não ser religioso. Eu já sabia, no meu íntimo, que não era mais. Sabia também que não precisava ser, para querer ser alguém bom. Bastava ser bom, e pronto. Meus erros eu teria de resolver apenas comigo mesmo... ou com a justiça se fossem erros do âmbito dela. Eu me sentia bem, mas ainda não me declarava abertamente ateu.
Nesta nova década de 2010, em algum momento dela, eu recebi de presente de um amigo da internet o livro O Mundo Assombrado Pelos Demônios de Carl Sagan. Apesar de conhecer o autor e de saber que era muito conceituado, eu nunca havia lido nada dele, por pura falta de interesse mesmo. O livro não foi exatamente uma grande descoberta, não foi um blowmind, pois se eu não me declarava ateu, cético eu sempre fui, desde criança, o perído como TJ foi apenas uma espécie de experimentação, que quase me prendeu para sempre.
Mas, ainda assim, a leitura me permitiu colocar as coisas em perspectiva. Um tempo depois, li Deus - Um Delírio, de Richard Dawkins. Então as coisas foram se arrumando dentro da minha mente. Cada coisa em seu lugar. Apesar de entdner tudo que Dawkins escrevia, e entender que ele estava falando comigo, achei que ele tinha uma arrogância que Sagan não tinha. E que tentava fazer uma espécie de proselitismo ateu. Enquanto Sagan queria divulgar a ciência para que as pessoas decidissem por si baseadas naquilo que aprenderia, Dawkins parecia querer divulgar a ciência para que as pessoas se tornassem ateus porque era assim que tinha que ser. Não é.
O teceiro livro com o título bem enfático de Deus Não é Grande - Como a Religião Envenena Tudo de Christopher Hitchens fechou a trilogia para que eu entendesse que eu era agora um ateu assumido, que saiu do conessionário (entendeu? saiu do armário... confessionário... hein, hein! Ah, deixa pra lá). Contudo, eu nunca seria, nem serei um militante ateu. Isso me transformaria em Testemunha dos Ateus. Posso conversar sobre oi assunto se ele vier à baila, apenas isso.
Com tudo que vivi, li, ouvi, aprendi, eu também entendi que a religião e Deus sempre será essencial para muitas pessoas. Claro,sempre vou criticar ferrenhamente qualquer religião que se aproveite dos mais ingênuos para fazer rios imorais de dinheiro. Mas, todo mundo que tem senso crítico sabem que essas pessoas não representam ao Deus cristão.
Nunca mais deixei de pedir a benção a minha mãe - como parei de fazer para agradar a Jeová - porque como ateu, eu não estou praticando pecado algum fazendo isso. Posso ir aonde eu quiser, como hoje mesmo fui ao batizado da minha segunda sobrinha, Ísis. Por sorte saí das TJ a tempo de ser padrinho do meu primeiro sobrinho e ir ao batismo da minha primeira sobrinha.
Por isso, só posso concordar com o versículo da Bíblia que diz, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. Sou mais livre agora do que jamais fui antes. E mais feliz. E que cadsa um decida seu próprio caminho, em seu próprio tempo.
O texto ficou gigantesco, e se você chegou até aqui, realmente está sem ter o que fazer (Risos) e é um herói! Obrigado e boa noite!