quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Era Nóis nas Fita

VIDEOLOCADORAS: REBOBINANDO O PASSADO


Depois de falar dos cinemas, vamos agora para as videolocadoras. Essa semana assisti um documentário sobre a história das videolocadoras - que logo estará disponível aqui no blog - que me emocionou. Apesar de se restringir a São Paulo, pois foi lá onde começou tudo, com a OMNI Vídeo, podemos identificar todas as locadoras ali, naquela história. E é uma história muito humana. 

A primeira vez que vi uma videolocadora está gravado em minha memória como que por ferro e fogo. Eu estava em Duque de Caxias - sempre lá - e andava por uma pequena galeria envidraçada, quando deparei com uma vitrine cheia de pequenas capas de fitas de vídeo coladas ao vidro. Eu fiquei vários minutos olhando aquilo, totalmente enlevado. Lembro que não entrei. Não sei se por eestar fechada ou se fiquei sem jeito. Afinal, o que eu faria ali? Eu nem tinha ideia do que era um videocassete! 

O tempo passou, e um dia um amigo de um amigo apareceu comum videocassete. Foi um alvoroço. A gente precisava ver algum filme naquele bagulho. O único problema era que... ninguém tinha uma fita de vídeo. Provavelmente ninguém em todo Parque dos Ferreiras, onde eu morava. Para piorar, era domingo. Mas, não íamos desistir por nada. 

Entramos em um ônibus. e fomos até Belford Roxo, que era mais distante, e procuramos uma locadora aberta. Só havia uma, e mesmo assim estava fechada. Nem mesmo pensamos no fato de que seria preciso fazer ficha, comprovante de residência e etc. Ou, provavelmente nem sabíamos disso. Desta vez desistimos. Achar uma locadora e ainda aberta em um domingo, naquele fim de mundo seria impossível.

Para se ter uma ideia, só tivemos uma locadora no bairro já no fim dos anos 90, e eu trabalhei nela por um curto período. Mas, aquele ainda eram o fim dos anos 80 e não havia muitas locadoras nas redondezas. Por fim, alguém conseguiu um filme de guerra, não me lembro como. Um filme totalmente desconhecido, ruim e monótono. Mas, parecia que estávamos vendo Star Wars, afinal era nossa primeira fita de vídeo! O filme mais memorável que lembro de ter assistido neste videocassete emprestado foi Colors - As Cores da Violência, com Sean Penn e Robert Duvall. 

As locadoras começaram no bairro próximo, Lote XV, lá pelo início dos anos 90. Ainda não tínhamos videocassete em casa, então se eu entrava nas locadoras era apenas para ficar vendo tudo aquilo que eu não tinha como alugar,pois não tinha onde assistir. 

Mas, o começo dos anos 90 foi a época em que eu me tornei Testemunha de Jeová e vivia mais na casa dos "irmãos" que na minha. Então eu acabava alugando filmes para ver com os amigos que tinham videocassete. Estranhamente, filmes não eram muito controlados pelos "anciãos" (os pastores deles) e muitos deles curtiam um bom filme. 

As locadoras eram sempre pequenas, com poucos filmes e os lançamentos nunca estavam disponíveis, já que eram poucos e logo eram alugados. Com o tempo foram aparecendo algumas um pouco maiores e eu já tinha videocassete em casa. Um dos primeiros videos que tive foi a trilogia de Star Wars, que meu irmão me deu de presente, já com as mudanças feitas por Lucas. 

Eu comecei a frequentar cada vez mais as locadoras e passava um bom tempo por lá. Às vezes ia apenas para conversar mesmo, como era o caso da locadora onde trabalhava a amiga Cristina, de quem sou amigo até hoje. Aliás, o dono da locadora - seu cunhado - tinha uma espécie de luta a favor da cultura, pois, com exceção das animações - todos os filmes eram legendados, o que deixava o povo um pouco chateado, já que não tinha o hábito de ver filmes assim. 

Essa coisa de ir ás locadoras como uma espécie de passeio era o que as fazia tão especiais. Não apenas estávamos acostumados com as pessoas que atendiam, mas com os amigos que lá fazíamos, outras pessoas que tinham o mesmo hábito. Passávamos horas apenas falando de tudo que era assunto, sendo o mais frequente, filmes, claro. 

Trabalhei em duas locadoras - incluindo aquela que abriria no meu bairro - por pouco tempo. Pude estar do outro lado do balcão e ser aquele que recebia essas visitas de pessoas que iam matar o tempo e, talvez, alugar um filme. Na locadora do meu bairro, não me sentia nem mesmo empregado, já que o dono era mais um amigo que patrão.Duas amigas também trabalhavam comigo, e uma delas, Giselle, eu já conhecia antes, mas de vista,m e depois disso, nos tornamos grandes amigos. O cinema era um grande elo de nossa amizade, e a locadora também. 

Nessa época começavam a chegar as primeiras revistas de videolocadoras com anúncios sobre o DVD que, para nós, era um sonho distante ainda. Só tínhamos contato pelas revistas mesmo. Não havia nenhum aparelho de DVD no bairro, então não havia porque comprar DVDs. Logo depois eu me casei e me mudei para Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro. 

As locadoras aqui eram em outro nível, e os filmes eram bem mais variados. O fato é que as locadoras de onde eu fui criado, na Baixada Fluminense, atendiam à demanda do povão, que era ação, comédia, desenhos animados, algumas comédias românticas e muito pornô. Na Zona Sul, com o povo mais metido a cult, a coisa mudava de figura. Porém, confesso que para minha bagagem cinematográfica isso foi muito bom. pela primeira vez assisti filmes que achava que fossem um saco, como os iranianos. Eu fiquei tão habituado, que certa vez assisti O Jarro, que era sobre... um jarro d'água que se quebrava. E gostei. 

A transição para o DVD estava começando a pegar força e nós já tínhamos um aparelho, mas ainda era o VHS que dominava. Nas locadoras, os DVDS ficavam em um canto, quase esquecidos. Mas, com o DVD cada vez mais dominando o mercado, começaram também a pirataria física e virtual. Começou a ficar fácil baixar filmes. Ainda não parecia, mas o fim das locadoras estava se aproximando. 

Antes disso vimos o VHS ter seus dias de glória findados. O DVD tomou conta. Mas, uma locadora aqui perto, dentro do cinema Estação Botafogo, ainda resistiu por muito tempo com muitas fitas VHS, mesmo que fossem apenas filmes que não existiam em DVD. Eu mesmo aluguei dois, para poder usar como base para copiar as legendas e colocar em arquivos avi. 

Com o tempo as locadoras começaram a fechar. As pequenas locadoras e algumas maiores começaram a desaparecer. A coisa se mostrou séria quando a Blockbuster, que era aqui ao lado, se fundiu com a loja Americanas. Isso ainda deu uma sobrevida à franquia, que terminou de vez no começo do ano passado. Agora é apenas Americanas. Não sei de nenhuma locadora funcionando por aqui. 

No documentário é triste ver as pessoas que foram donas de locadora falando sobre o término. É algo que era mais do que apenas comércio, e digo isso com conhecimento de causa. É muito bom termos acesso a filmes pela internet a qualquer momento e, muitas vezes, sem pagar nada, além da conta de internet, para isso. Porém, o aspecto humano se perdeu. As locadoras eram como casas de amigos que visitávamos e ainda levávamos filmes. 

O avanço da tecnologia é inevitável e ele costuma atropelar a parte que nos faz melhores, e isso acontece desde sempre. Mas, como diz nosso camarada Jeff Goldblum, "a vida sempre encontra um meio". 


16 comentários:

Ronald Apolinario disse...

Caramba, Eudes, que texto incrível! Fico muito contente quando você coloca textos mencionando suas origens no Parque dos Ferreiras, onde eu costumava visitar na minha adolescência, me sinto representado por ter nascido no Parque São José e frequentado o Lote XV e o Parque Amorim, onde meu irmão ainda mora, por muitos anos. É muito bom ver as experiências que tive sendo representadas por outros olhos. O seu texto sobre as locadoras me emocionou, pois, lá no São José, ainda existe uma última, guerreira, que se mantém, a locadora do Léo. Sim, era mais que filmes, o fator humano, a conversa e os encontros não se encontram no download em torrent. Obrigado pelo seu texto!

Anônimo disse...

Eu também amava as video-locadoras, no bairro tinha cadastro em quase todas.

Tinha cadastro na Blockbuster também,além de dvds diversos tinha muitas opções de jogos para alugar e de desenhos que eu não encontrava em nenhuma outra locadora, como os Asterix, Snoopy e os desenhos do Garfield.
Fora outras coisas como brinquedos e guloseimas diversas,sorvetes e etc...

Primeiro veio os DVDs piratas e por fim,a pá de cal,veio a melhora da banda larga,netflix e afins...
E aos poucos morre a TV a cabo também, o futuro é o streaming, não tem volta.

João Luiz Cavalcante Junior disse...

Sou morador do bairro do Parque dos Ferreiras e lembro muito bem dessa época, auge da única locadora do bairro (New Shock Video Locadora, ou algo assim kkkkkk). Sempre que tinha a oportunidade dava um pulo na locadora (depois de chegar da escola e assistir cinema em casa seguido da sessão da tarde) para ver se havia chegado alguma novidade, ou alguma revista nova (anunciando as novidades) ou só para conversar com Eudes, rs.

Murdock disse...

Também tive uma vídeo locadora e testemunhei essa mudança de VHS para o DVD e a derrocada final deste segment. Penso como você - Eram em sua grande maioria, lugares aprazíveis de se gastar algum tempo e normalmente cheios de amigos. Espero que o mesmo não venha a acontecer com as livrarias...

geraldof.vieri disse...

Locadoras me dao lembranças d os filmes d Kickboxer q viraram moda no fim dos anos 80. Recordo q qdo um filme fazia sucesso sempre havia mais alguns com titulos parecidos..

Fábio RT disse...

Mesma coisa as lojas de Discos e CDs...fazem falta
No do streaming oficial para cinema e séries a situação não é a ideal porque você fica refém do catálogo das empresas...que geralmente não é tão abrangente...por isso que ainda defendo a mídia física como forma de tornar mais variadas as opções de consumo de cultura. Óbvio que uso e adoro streaming...mas gostaria que ele não fosse o único caminho...no entanto sei que nado contra a maré,

Márcio Lima disse...

Já fui rato de videolocadora quando mais jovem... bons tempos.

Anônimo disse...

Cuidado, Eudes, vc está passando muitas informações sobre sua vida pessoal! O Sistema está de olho em você! Salve seus arquivos em HDs externos e deixe com amigos próximos caso te aconteça alguma coisa!

Rubens "Harryhausen" Duprat disse...

Minha história com as locadoras é um pouco parecida. Eu só pude ter um videocassete quando já tinha uns 22 anos.

Antes disso, eu vivia lendo guias e revistas de cinema que falavam sobre os lançamentos em vídeo, que eu acabava vendo só bem depois, quando passavam na TV. Vivia checando a programação da TV pra ver se ia passar algum clássico no Corujão, e quando passava, ficava de madrugada assistindo. E vivia, também, visitando locadoras, sem poder alugar os filmes.

Até hoje tem filmes que eu conheci nos guias e revistas, e que tinha vontade de ver mas não vi ainda, porque nunca passaram na TV e já não existiam mais em locadoras depois que comprei meu primeiro videocassete. Mas hoje é só procurar na Internet!

Jr Nog disse...

sexta feira era o dia...alugava umas 4 a 5 fitas para entregar na segunda kkkk

Unknown disse...

Boas lembranças. Me lembro da transição das mídias.
O locatário vivia me dizendo que isso não iria acontecer. Que as fitas tinham mais qualidades. Meses depois, ele separava um espaço para vender as VHS. Kkkkkk. Como era amigo dele, ri da situação. Aí vieram os DVDs piratas. Mesmo raciocínio. Era melhor um filme original(com certeza, mas... ) venceram os piratas. Venceu o streaming. A saudade permanece

Anônimo disse...

TODOS ESSES HIPÓCRITAS SAUDOSISTAS, FALAM MAL DA INTERNET MAS DUVIDO SE VOLTARIAM A ALUGAR CASO AS LOCADORAS VOLTASSEM.

Fábio RT disse...

O Anônimo tem problemas de interpretação de texto.

Anônimo disse...

Como não amar as locadoras nos anos 80/90? Conheci minha esposa na locadora que frequentava. Ela trabalhava lá e depois que eu a conheci tive de passar a alugar pornôs em outra locadora só pra ela não ficar pensando que eu era tarado. KKK. Fiquei um tempão alugando filmes em duas locadores só por causa dela. Até hoje rimos dessa história.

Wener de Carvalho disse...

Precisa colocar logo esse documentário, viajei em cada um dos parágrafos, sei que vai ser uma suadeira nos olhos quando tiver assistindo.

Gilbert King disse...

Emocionante o documentário. Ele me fez lembrar de um texto seu, que li e gostaria que vc postasse novamente. Um artigo sobre as bancas de jornais, que estão discretamente saindo de cena. As poucas que resistem vendem apenas doces refrigerantes e recargas para celular.

Business

category2