terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Infância Apaixonada

AS AVENTURAS DE EUDES: A PRIMEIRA NAMORADA
Um Tempo em Que Tudo Parecia Mais Simples e Descomplicado


Eram os idos de 1979, ou seja lá se vão 40 anos de uma história que está gravada em cada partícula de memória da minha História, sim, com H maiúsculo. Eu, minha irmã e meu irmão estudávamos na Escola São Cosme e São Damião. Ela não era nada perto e, por um tempo, alguém nos levou,  mas isso durou pouco. 

Tentamos pegar carona nos ônibus que por lá passavam, mas a caminhada até o ônibus mais próximo, era tão longa que quase igualava com o caminho para a escola. Sem contar a timidez para pedir carona aos motoristas. Então, desistimos disso. Resolvemos ir a pé mesmo, nós três contra o mundo. 

Eu já estava na terceira série do que era conhecido como Primário. Entrei nesta escola um ano antes, já na segunda série, quando ainda tinha 9 anos. Então, claro, estava com 10 anos, na terceira série e meus irmãos na segunda e primeira respectivamente. Era a época da Loira do Banheiro e ainda se falava muito em Superman - O Filme. 

Acho que essa autonomia que minha mãe nos dava, fez com que nos tornássemos mais maduros, mesmo que muito novos ainda. Talvez por isso, eu tenha me apaixonado tão cedo. Na verdade, minha primeira paixão mesmo foi aos 8 anos de idade. O nome dela era Ivonara. Mas, era aquela paixão de mão única e que eu não sabia realmente o que estava acontecendo ali. Aos 10 anos eu já era praticamente de meia-idade. 

Eu a conheci por intermédio de minha irmã. As duas eram amigas, estudavam na mesma sala, na segunda série. Algumas coisas são difíceis de explicar, por causa da  memória, como por exemplo, como que fui parar dentro da casa dela, e começamos a ver TV, sentado na cama, com o pai dela dormindo atrás de nós, que foi onde tudo começou. quero dizer, nosso namoro. 

Não sei como me descolei de minha irmã e irmão. Afinal, no fim das contas, eu ainda era o mais velho e responsável pelos dois. Acho que o fato de minha irmã também ser muito independente contou a meu favor. os dois devem ter ido pra casa e eu ficado. Ela morava ao lado da escola.  E, de algum modo, fomos pra casa dela. Pensando bem hoje, acho que não era eu quem controlava a situação ali.

Bem, só sei que terminamos ali, sentados à beira da cama, onde o pai dela dormia, um sono tão pesado, que me fazia sentir de certa forma seguro. Acho que ficamos de mãos dadas, enquanto assistíamos sei lá o que na TV. Eu provavelmente olhava pra tela, mas não estava vendo nada. Elisângela - o nome dela - era a mais tranquila das criaturas ali ao meu lado. Seu pai ali, atrás de nós, era um detalhe inócuo, para ela. Apesar da atmosfera de tranquilidade, havia algo que deixava claro o que queríamos: nos beijar. 

Claro que, ao pensar nisso, minha tranquilidade ia embora, pois eu só pensava: "será bem na hora que eu estiver om a minha boca na dela, que o desgraçado vai acordar, e me matar". Ainda assim, eu tinha firme certeza de que iria beijá-la. E, depois de respirar fundo, virei pra ela e a beijei. Não lembro exatamente como foi. Deve ter sido algo que achávamos ser um beijo e na verdade devia ser só suas crianças encostando lábios desajeitadamente. Mesmo assim, foi algo do outro mundo. O pai dela nem se mexeu. 

Fiquei mais um pouco com ela, e quando ela saiu do quarto, fui junto. A beijei na sala. A verdade é que não queria mais parar de beijá-la. Mas, claro, eu tinha que ior pra casa. Para que minha mãe não soubesse, disse que tinha ido à casa de meus avós, que ficava um pouco depois da escola. 

Daí é so fazer aquela montagem de cenas, onde eu namorei Elisângela por algum tempo, sempre ficando por lá, onde ela morava,depois da aulas. Algumas vezes meu irmão e irmã ficando comigo, pois não dava para eles chegarem em casa sozinhos sempre. No fim das contas era um namoro regado a muito pique-esconde e outras brincadeiras de criança. 

Duas cenas eu guardo com muito carinho em minhas lembranças, junto com a do primeiro beijo: certa vez estávamos juntos e ela viu alguém que conhecia um pouco distante e gritou para essa pessoa, apontando pra mim:

- EI, MEU NAMORADO É DA TERCEIRA SÉRIE! 

Outra que parece coisa de sonho, somos nós dois deitados em um gramado, de mãos dadas, olhando um céu muito azul, num daqueles dias perfeitos. Era a síntese de algo simples e puro que estávamos vivendo e que faria parte de nossas lembranças para sempre. Parecia que, naqueles momentos, só existíamos nós dois. E, claro, com o tempo acabou. Pois, era uma pequena parte da longa história de nossas vidas. 

Foi algo natural, como quando amigos perdem o contato. Foi antes mesmo que eu mudasse da escola. Quando, muito tempo depois, pensei em visitá-la, ela já havia se mudado. Foi na mesma época em que a escola foi demolida para dar lugar a construção de casas. Era como perder dois pedaços de mim ao mesmo tempo. Assim como amei - com uima criança pode amar - Elisângela, eu amava a escola, onde fiquei três anos. 

A casa onde ela morou continua no mesmo lugar, 40 anos depois. Até mesmo a rua mudou pouca coisa. Uma padaria que existia na época, está lá até hoje, como se fosse um inseto preso no âmbar do tempo, para o qual se pode olhar e ver o passado. 

Bom, depois dessa referência a Jurassic Park, vou me despedindo, deixando com vocês mais essa parte da minha pré-história. Yaba-daba-duuuu!

10 comentários:

Unknown disse...

A inocência de uma época. Bonita história, meu caro. E bem poético seu texto.

Murdock disse...

Você começou cedo... Nessa época as meninas ainda eram chatas pra mim kkkkk

Maligno disse...

Nossa memória... nosso maior tesouro!

Allan Chaves disse...

Lindo texto, até me emocionei aqui lembrando das minhas histórias

Anônimo disse...

Dava pra fazer um filme... ou pelo menos uma mini serie pra HBO!

Rubens "Harryhausen" Duprat disse...

Anos Incríveis do Eudes!

Anônimo disse...

Foi uma das primeiras histórias que tu contou aqui, lá em 2004... tive até que checar se tinha aquele texto existia mesmo ou se eu tava tendo algum Déjà vu estranho hahaha
Eu sinto muita falta desses "tempos de inocência"... bem, com certeza eram bem melhores que meus atuais "tempos de desespero"... e eu nem sou tão velho assim para ter os problemas que tenho, se bem, que isso já é desviar demais do assunto... enfim, alguma ideia do que aconteceu com essa menina? Já tentou procurar ela no facebook ou orkut (na época em que existia, claro) por curiosidade?

Eudes Honorato disse...

"Já tentou procurar ela no facebook ou orkut (na época em que existia, claro) por curiosidade?"

Só lembro do primeiro nome dela, Elisangela, fica imposivel encontrar.

dado disse...

Adorei! Me trouxe lembranças de minhas próprias experiências... Escreve bem pra caramba, Eudes!

Anônimo disse...

Show!

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