segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Memória de Cinema

OS CINEMAS DA MINHA VIDA:
TUDO POR APENAS MAIS UM FILME

Cine Paz/Duque de Caxias

O cinema, assim como os quadrinhos, fazem parte da minha vida. No começo, claro, só via os filmes na Sessão da Tarde ou na Primeira Exibição (que se tornaria Supercine). Fui levado uma única vez ao cinema quando bem criança, por minha mãe, que levou meu irmão e irmãs também, e só. Mas, tudo mudou quando comecei a trabalhar no bairro chamado Lote XV, aos 12 anos. É onde começa a história dos cinemas da minha vida.

CINE SÃO FRANCISCO

Como eu disse, ficava no bairro Lote XV, perto de onde eu morava, mas bem mais perto de onde eu trabalhava, apenas alguns passos. Assim sendo, sair da padaria - meu emprego - e ir direto para lá, era tranquilo. Porém, o mais marcante deste cinema que - assim como muitos - não existe mais, era o fato de que podíamos entrar parar ver filmes de qualquer classificação, em suma, filmes pornôs, softs ou não.

Nunca cheguei a ver nenhum de sexo explícito, mas lembro que o cinema tinha esse tipo de filme, tanto que lembro de um desses cartazes de filmes desse tipo, que só vinha o título e nada mais, que demonstrava que a coisa pegava fogo ali. O público era praticamente de adolescentes. 

Os filmes que não eram de sexo, estava sempre ultrapassados. Nunca eram lançamentos. Mas, num tempo sem videocassete, qualquer coisa era lançamento, já que eram filmes que não passavam na TV. Foi ali que vi Zumbi - O Despertar dos Mortos, e assisti um morto-vivo arrancar o pedaço do ombro de uma moça e achar aquilo a coisa mais horripilante que eu já havia visto na vida. 

Às vezes eu só queria estar no cinema, não importava que filme fosse, tanto que vi coisas totalmente ruins como Barracuda. Como trabalhei na tal padaria durantes três longos anos, esse tempo todo eu fui ao cinema São Francisco quase todo fim de semana. 

Outras peculiaridades era que o próprio dono - que talmbém era dono de uma casa de material - também atendia na bilheteria e o cinema também tinha uma espécie de programa que transmitia via um alto-falante para o bairro todo, você querendo ou não. Eram assuntos variados, e quase não se falava de cinema. 

CINE PAZ

A foto que abre o texto é do Cine Paz, porém, lá, quando passava esse tipo de filme que está ali no letreiro, crianção não entrava. Ele era em Duque de Caxias e, com certeza, bem mais fiscalizado nesse sentido. 

A primeira vez que fui a um cinema, foi nele, como eu disse, levado pela minha mãe. Lembro até hoje qual foi o filme: Cinderelo Trapalhão. A fila era gigantesca e tivemos que sentar no chão, pois lá dentro não havia mais lugar. Mas, isso pouco importava, afinal era minha primeira vez no cinema! 

Uma coisa que era normal nesses cinema, era que passavam dois filmes... e a gente assistia os dois! E, se bobeasse, ainda ficava na sala para assistir tudo de novo. 

Não havia um controle rígido do horário de entrada, tanto que, certa vez, indo assistir Gremlins, eu entrei e a porra do filme estava acabando. Tomei meu primeiro spoiler na vida, muito antes de saber o que era isso.

Um dos últimos filmes que lá assisti foi Jurassic Park. 

CINE SANTA ROSA

Era o único com três salas de exibição. Os 1 e o 2 passavam os filmes comuns e o 3 era sempre sexo explícito, que também nunca entrei, nem mesmo depois de adulto. Nesse caso, porque não quis mesmo. 

O Paz era o melhor cinema em termos de qualidade tanto de conforto quanto de imagem e som. Já o Santa Rosa, apesar de ter mais salas, era uma desgraça nesses quesitos. Cadeiras de madeira nua, qualidade de som terrível e a imagem também deixava a desejar às vezes. Ver um filme dublado era o caos. Mas, na época, ninguém se importava com isso, mesmo tendo aquele impacto da diferença entre o Paz e ele.

Por ter duas salas passando filmes que eram lançamentos mundiais, dois em cada, a quantidade era muito maior que a do Paz e assim, estávamos lá mais vezes. Foi onde assisti Rambo II, Rocky IV, D.AR.Y.L., O Último Dragão, entre tantos outros. O último filme que devo ter assistido lá foi Rei Leão. 

CINE RIVER

Enquanto o Paz e o Santa Rosa ficavam bem perto um do outro o River era mais adiante. Este cinema era minha última opção. Era pequeno, apertado e com uma qualidade de som e imagem três vezes pior do que o Santa Rosa, e nunca tinha lançamentos. Porém, era onde você podia encontrar os filmes mais estranhos. 

Lembro que fui parar lá e acabei assistindo um filme inteiro de... pegadinhas. Era do mesmo diretor de Os Deuses Devem Estar Loucos, mas, o que não foi garantia nenhuma de ser bom. Era ruim demais e você percebia que era tudo atuação. 

Também assisti alguns do Jackie Chan, porém, da década de 70. Eu não fazia ideia de quem era ele. Para mim era só um chinês com a porra de uma cabeleira muito estranha. E eu não era tão fã assim de kung fu. 

Assisti ali Floresta de Esmeraldas, de John Boorman. Filme que se passa na Amazônia e que foi onde estreou a atriz Dira Paes. 

Na verdade, eu chegava a ter medo do cinema de tão soturno que era, mas, ver mais e mais filmes era mais forte do que eu, e sempre que não tinha nada no Paz e no Santa Rosa, eu corria para lá. 

CINEMAS DA ZONA SUL DO RJ

Em todos esses cinemas eu sempre fui sozinho. Não tinha uma turma para ir. Era eu e eu. E, eu sabia que na Zona Sul do Rio - onde moro agora - era onde os cinemas estavam em outro nível. 

Às vezes eu ia até lá e ficava andando pelos bairros, mas não ia aos cinemas. Na verdade, nem sei como eu fazia isso. Pensando nisso hoje em dia, creio que minha mãe ficaria louca se soubesse que, na verdade, eu não estava ali por perto, mas a quilômetros de distância... sozinho. 

Uma das minhas grandes frustrações era não ter assistido E.T. - O Extraterrestre nos cinema. Se passou nos cinemas de Duque de Caxias, eu perdi. Então, nas minhas andanças pela Zona Sul, entre na galeria de um dos cinemas e lá estava o anúncio do relançamento, isso em 1985. Eu tinha 15 anos. Claro que dessa vez eu não perdi. 

Fui apenas duas vezes nestes cinemas, que eu me lembre. Nesta vez para ver E.T. e em outra vez que eu estava passeando por Copacabana resolvi entrar em qualquer cinema e foi assim que acabei assistindo Um Dia a Casa Cai, com Tom Hanks. 

CINEMAS NOS DIAS DE HOJE

Os cinemas de Duque de Caxias foram sendo transformados em Igrejas Universais ou lojas e meu mundo foi se tornando mais sem graça. Lembro que os últimos filmes que assisti por lá, foi em um cinema de um pequeno shopping que existe por lá até hoje: foram A Bruxa de Blair e Príncipe do Egito. E terminou minha hist´roia com os cinema de Duque de Caxias. 

Quando me casei, eu e Lia íamos muito ao cinema aqui em Botafogo. Minha primeira vez num Cinemark foi algo extraordinário. Superava tudo que eu já tinha visto. Também havia os cinemas - que existem até hoje com outros nomes - de filmes de arte Estação Botafogo e Estação Unibanco. Íamos tanto ao cinema que vimos muita porcaria.

Indo pouco ao cinema agora, apenas ano passado fui a estes cinemas em que as poltronas se tornam quase que uma cama, onde vi Vingadores - Guerra Infinita. Uma viagem e tanto desde aqueles tempos de Cine São Francisco, uma cinema muito, mas muito poeira, até deitar confortavelmente e assistir um filme. Bons tempos na película da memória. 

Cine Santa Rosa/Duque de Caxias



10 comentários:

Diego Villela disse...

Saudações, meu caro. Bom saber que não estou só no que diz respeito à memória afetiva do Cinema santa Rosa.

juliano silva disse...

Eu só fui conhecer cinema depois de adulto, até tinha um cinema aqui na minha cidade que fica no interior de SC, mas foi na minha infância então meus pais nunca me levaram mesmo por falta de dinheiro. Lembro que virou um templo da Universal tbm. E depois de adulto quando abriu um cinema no shopping daqui, fui ver o primeiro Homem de Ferro, pqp, foi muito foda, tanto que até hoje é meu filme de supers preferido.

Wagner Ferreira disse...

Boa noite. Talvez a maioria por aqui não saiba, mas no início dos anos 1970 era comum as matinês de Tom & Jerry aos sábados pela manhã nos cinemas (Madureira ou Méier - Imperator), onde meu pai me levava... Também cansei de pegar filas quilométricas para assistir Superman ou Star Wars, mas o primeiro filme que eu me lembro de ter visto foi Tubarão... A gente dava um jeito de ir aos filmes para 18 anos mostrando rapidamente a carteira escolar ao bilheteiro, mas nem sempre dava certo... Lembro dos lanterninhas e também das guerras de pipoca e saco amassado da mesma... ET eu assisti no Natal de 1982 na Praça Seca, em Jacarepaguá - Baronesa. No Cine Cisne, quando estreava filme dos Trapalhões, ficava em cartaz por mais de dois meses, pois dois deles moravam no bairro, rs... Os cinemas de rua tinham um charme e eram democráticos e populares no sentido de não se restringirem a nenhuma classe sócio-econômica - todos podiam usufruir desta diversão sem limites - porque dava pra todo mundo comprar os ingressos numa boa, ao contrário de muitos cinemas de shopping hoje em dia, com entradas bem caras... Até nisso, com o tempo, foi-se restringindo à população mais pobre - o direito à diversão, à educação e informação. Tempos que não voltam nunca mais, infelizmente...

Unknown disse...

Meu primeiro filme no cinema foi o grandioso Superman II. Meu pai levou eu e meu irmão caçula. Superman(ou Super Homem até então), retira o S do peito e engloba os vilões. É a cena mais marcante que assisti na tela grande.
Depois um salto.1997. Titanic. Cinema de rua ainda. Era o fim. Dezenas de pessoas fazendo fila para assistir o épico. Filas nos quarteirões. Consegui assistir na semana da estreia. Numa terça feira, às 21 horas, o filme pára. Era a segunda parte. Cada um foi à bilheteria para ser ressarcido. Eu paguei um ingresso, mas peguei 3. Era para ter levado minha futura esposa, mas optei por assistir as 3 seções sozinho. (ela me cobra até hoje, rsrsrs).
Em Belo Horizonte, os cinemas de rua foram comprados pelas igrejas universais da vida. Um ou outro viraram teatro.
Hoje, assistir um filme com meu filho em 3D, é no mínimo 100 reais, com a pipoca inclusa. Um roubo, diga-se. Sem magia, sem lembranças...

Júlio Oliveira disse...

Saudações.
Os cinemas de Caxias também fazem parte de minhas memórias afetivas. Olhava o que estava passando e, quase sempre, eu ia ao River ou ao Santa Rosa1 ou 2. Poucas vezes no Paz, que só passava um filme. Os cinemas de Caxias eram minha segunda opção por serem longe muito na contra-mão de onde morava. Minha primeira opção era o Cine São Geraldo, em Olaria, onde pisei em um cinema pela primeira vez, para ver O Último Golpe, Com Clint Eastwood e mais um filme de Kung Fu. Os filmes de Kung Fu estavam no auge então. Só quando não tinha filmes bons lá eu pegava o trem na estação de Olaria e ia para Caxias tentar a sorte. Bons tempos.

Anônimo disse...

Em Meriti tambem havia Cine Santa Rosa. Mas o Batman do Michael Keaton, assisti no Paz.

Vitor disse...

Por mais histórias assim. excelente! deu pra sentir o cheiro da nostalgia.

Fábio RT disse...

Sim...100 Reais para ir a um Cinema...tudo bem ter essa opção...mas o cinema popular foi extinto e a população de baixa renda foi também excluída das salas de cinema...como foram dos campos de Futebol...dos shows...e assim segue na eterna elitização de nossa sociedade "meritocrática"

Unknown disse...

Estes dois cinemas também fizeram parte da minha adolescência. Lembro de ter assistido ótimos filmes como: Star Wars, O feitiço de Aquila, A Encruzilhada...Ótimas recordações. Mas se não me engano eram 6 cinemas em Caxias, E sempre com dois filmes, um era de karatê. rsrsr.

Rubens "Harryhausen" Duprat disse...

É interessante como, nos anos 80, os filmes pornográficos eram meio que considerados filmes como quaisquer outros, passando junto com filmes "normais" em qualquer cinema de rua.

Eu me lembro vagamente de ver cartazes desses filmes pornográficos em alguns cinemas de rua, também. Mas não me lembro de ter frequentado muitos cinemas de rua aqui em São Paulo. Meus pais me levavam muito a cinemas de shopping, mesmo, onde só entravam filmes "normais".

Um filme que eu me lembro de ter visto num cinema de rua foi o primeiro Batman do Tim Burton. Talvez tenha sido o último. Isso sem contar aqueles cinemas de rua mais badalados da região da Paulista, que sobrevivem até hoje.

Os outros foram todos sendo transformados em igrejas. Teve até cinema de shopping que virou igreja, também! O cinema do Cal Center, por exemplo, que era um shopping pequeno, virou igreja. O último filme que vi lá foi o primeiro Harry Potter.

Lembro também das fotos de divulgação, com cenas dos filmes, que costumavam acompanhar os cartazes. O jeito de divulgar os filmes mudou bastante!

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