segunda-feira, 4 de março de 2019

Livros e Liberdade

PELAS LIVRARIAS DA CIDADE EU VOU


A primeira vez que fui a uma livraria eu devia ter uns 11 anos de idade. Uma livraria era algo quase mítico para mim, naquela época. Para se ter uma ideia, até mesmo banca de jornal só havia uma no bairro do Lote XV, um pouco distante de onde eu morava. Livraria, nem pensar. 

Porém, eis que a professora seleciona um livro para um trabalho escolar, que era As Viagens de Gulliver. Imagine a minha reação. Eu fiquei estupefacto, pois já havia visto desenhos animados e filmes sobre a história e queria muito ler.

Provavelmente a professora deu o nome da livraria e onde ela ficava, para que os pais comprassem. Só que havia um problema, eu queria o livro o mais depressa possível e minha mãe não podia ir tão logo. Então, pedi o dinheiro a ela e disse que eu mesmo iria. Não lembro se ela ficou preocupada, afinal, eu nunca fora em Duque de Caxias sozinho. Seria a primeira vez.

O livro era uma publicação da editora Ediouro e,quando cheguei na livraria, ela era exclusiva dessa editora. Ficava na mesma galeria onde, anos depois, eu  veria a primeira locadora da minha vida. Mas, voltando à livraria. Ela era pequena, e toda envidraçada. Os livros ficavam em mostradores giratórios de acrílico, e eu fiquei ali um bom tempo, admirando tudo aquilo. Por fim, levei o que fui comprar, uma edição condensada de As Viagens de Gulliver. 


Curiosamente, assim que eu comprei o livro, a professora mudou para outro. Ela agora queria O Príncipe e o Mendigo, de Mark Twain. Eu fui tão rápido comprar o livro, que ninguém mais tinha comprado, então ela podia trocar sem problema. E, sim, eu fiquei quieto, afinal, seria mais uma chance de retornar à livraria e de ter mais um livro para mim. 

Fora esta livraria, em Duque de Caxias o que havia muito eram papelarias grandes que vendiam muitos livros, principalmente os da Coleção Vagalume, que eram muito pedidos pelas professoras também e que, assim, fui pegando gosto pela leitura cada vez mais. Lembro que o primeiro desta coleção que foi pedido para trabalho escolar foi O Mistério do Cinco Estrelas, que só mais tarde descobri que fazia parte de uma trilogia, sendo o primeiro O Rapto do Garoto de Ouro e o último, Um Cadáver Ouve Rádio. 

Comprei muitos desses na Papelaria Itatiaia, lá em Duque de Caxias. Era enorme e eu ficava transitando pela seção de livros. Na maioria das vezes não comprava nada, apenas olhava, folheva, sentia o cheiro e ia embora.


Eu lia bastante nessa época, mas os livros eram quase todos emprestados. Aos 12 anos já lia Agatha Christie, que uma amiga de 18 anos me emprestava. Ela trabalhou por um tempo na mesma padaria que eu, e me viciou nos livros da autora. Porém, comprá-los era mais complicado. Eram bem mais caros que gibis. Até que começaram a sair nas bancas, em uma coleção da editora Record. Mas, essa é outra história.

Voltando às livrarias, assim como eu ia à Zona Sul do Rio de Janeiro - onde moro hoje em dia - para ver cinemas mais sofisticados que os de Duque de Caxias, eu também aproveitava e entrava nas livrarias. O efeito de ver uma grande livraria era tão impactante quanto o de ver um cinema de qualidade. Se uma pessoa olhasse para mim, provavelmente me veria de olhos vidrados, admirando todos aqueles livros que eu não podia comprar. 

O tempo passou e eu fui morar neste lugar onde eu só ia de vez em quando, depois que me casei. Se eu já tinha o hábito de comprar livros esporadicamente, isto se tornou praticamente um vício, tendo estas livrarias todas por perto. Uma pena que esteja acontecendo uma crise e muitas delas estejam fechando. Algumas que eu frequentava muito nos 18 anos que aqui moro, como a Cultura, no bairro da Cinelândia. 

A que abre o texto é a Saraiva MegaStore, no Botafogo Praia Shopping, onde vou quase toda vez que passo em frente ao shopping. É como se o canto de uma sereia me arrastasse e me fizesse subir até lá. E, do mesmo modo de quando eu era só um garoto, eu olho, toco, sinto o cheiro, mas, desta vez, sempre compro alguns.

As livrarias são parte de mim, parte da minha história, escrita neste livro chamado Vida. Nossa, mais piegas impossível.


9 comentários:

Duke disse...

Não sei, acho que em algum ponto as livrarias perderam o rumo quando viraram lojas de Shopping. Para sustentar o aluguel caro, vendiam de tudo, cds, dvds, eletrônicos. Com o fim da mídia e o streaming, essas livrarias estão falindo, como a Cultura e a Saraiva, ambas dando calotes milionários nas pobres editoras, em um efeito cascata destruídor em nosso minúsculo mercado. Afinal, quem no Brasil lê?

Para exemplificar a derrocada, eu a percebi quando fui em uma loja da livraria cultura faz uns três ou quatro anos acho. Em Shopping. A loja possui um enorme acervo de livros incríveis, mas a preço de burguês. Fui atendido por um "universitário" que ficou nos fazendo perguntas sobre o Olavo de Carvalho. Logo deu pra perceber que era um olavete. O que um vendedor de livros tem que ficar fazendo comentários fascistas a um comprador. Ali eu senti que algo de podre havia no reino das grandes livrarias.
Para mim livraria mesmo são as pequenas, únicas, com as quais podemos falar com o dono no balcão. A era dessas mega-stores acabou. Agora é Amazon. E eu não derramo uma única lágrima por elas.

Alex Silva disse...

Até os 12 anos eu era frequentador assíduo da biblioteca da minha escola, acho que li mais da metade da biblioteca, lembro do primeiro livro que li "O Caso da Borboleta Atíria" da Coleção Vagalume, isso lá nos meados de 1986/1987. Só fui entrar em uma livraria em 1994. Mas era uma livraria pequena, que estava fechando e colocando tudo a venda. Lembro até hoje o que comprei: Um disco vinil do Nirvana (Nevermind) e o livro "Na Natureza Selvagem".
Só fui entrar em uma livraria de grande porte quando estava na Faculdade, isso entre 2000 e 2001. Livraria Nobel onde comprei meu livro de Química e o primeiro volume da Coleção Torre Negra.
Acho que até os 25 anos eu frequentei mais sebos do que livrarias. Só fui conhecer a Livraria Cultura na Paulista depois dos 30 anos. Confesso que depois que surgiu a Amazon eu dificilmente voltei em uma.

Anônimo disse...

Meus pais não são formados, apenas têm o que equivalia ao ensino médio/técnico/curso de normalista. O hábito de leitura nunca foi constante lá em casa, além de que, nos anos 90, mal dava pra fazer o mercantil e pagar as contas. Nas escolas onde estudei, o ensino possuía a sua precariedade costumeira. Apesar disso, possuía o gosto pela leitura, por alguma razão.
Era um tempo onde não havia internet, nem aquele pdf/scan que aquece corações...
Cada livro lido, cada revista, emprestada, xerocada, era uma conquista.
Por conta de inúmeros fatores, além de boa dose de sorte, terminei o ensino médio,
me formei e estou concluindo o doutorado.
A leitura, hj, mais do que um prazer, e não somente uma questão profissional, tornou-se um meio de sobrevivência, além de contribuir para a sanidade mental, num mundo cada vez mais louco...
Sempre lembro da frase atribuída ao Heine: "Onde se queimam livros, acabam-se queimando pessoas"

Duke disse...

Eu concordo que o livro no Brasil é caro, em comparação com o exterior por exemplo. O problema é que o mercado da nossa língua é reduzido, e o brasleiro compra livro como artigo de luxo. Todas as editoras que tentam vender livros de baixo custo quebram a cara, a não ser se forem livros obrigatórios para colégios com domínio público, tipo Machado de Assis, ai tu acha livro pocket por menos de 10 reais. Curiosamente, tu pode ler na internet de graça também.
Agora, mesmo assim, com um ingresso de cinema tu compra boa parte dos livros. Se incluir a pipoca então... e olhe quantas horas de diversão um livro proporciona em comparação com um filme. Sem falar nas reflexões.
Não, o brasileiro prefere gastar seu tempo com séries de TV e novelas. Essa é a verdade. E compra livro com capa dura porque fica bonito na estante. Não são todos, nunca é. Mas a maioria...
Mesmo quem lê não está no mesmo patamar de paises mais desenvolvidos. A falta de transporte público humanamente decente também atrapalha o mercado, já que em todo mundo muita gente lê nos metrôs, mesmo de pé. Aqui no Brasil tu mal tem espaço para respirar, e no lugar do metrô tem ônibus com motorista dando freada a todo o momento feito maluco, pra cumprir horários impossíveis.

Del Mar disse...

Nos anos 2000, ainda no primeiro casamento, passava nesta livraria, lembrei que assisti Senhor os Aneis no Botafogo praia Shopping, apelidado de Escada Shopping. Depois iamos até a Voluntários da Pátria, pegar um cineminha diferente no agora chamado Estação Net Botafogo. Para fechar, dentro da Estação tinha uma locadora de filmes antigos, por autor....POR AUTOR e por País. Tempos impecáveis. Suspiro.

Unknown disse...

Meus pais sempre leram e isso me levou à leitura desde cedo. Piolho de biblioteca, ajudava a arrumar os livros e podia lê-los com um prazo maior em casa. Isso desde a quarta série do fundamental até o ensino médio. Lia filosofia, histórias polícias ou romances. Agatha Christie acho que li quase tudo. Não li nada de Sir Conan Doyle, mas conheci Arsene Lupin e Raymond Chandler.Literatura brasileira li pouca coisa. O Cortiço, Tieta, O Alienista. Adorava mesmo filosofia e teologia. E com orgulho, jamais li livro de pastores.
Daí para os quadrinhos foi um pulo. Aí li tudo dos anos 80 até 2005. Parei, voltei. E as livrarias eram lotadas. Mas as bibliotecas eram vazias. Bibliotecas eram um reino de encanto para mim. Frequentemente ia após o trabalho. E eram vazias. E como frequentador, sabia tudo sobre os livros ali, as estantes erradas, livros trocados, magia.
Hoje vejo essa crise das livrarias como resultado não só do avanço das mídias digitais, mas tem muito de má administração também. A Panini hoje é apontada como publicar hqs com erros grosseiros de diagramação, letreiros, cores e aumento abusivos. O leitor percebeu isso e gritou nas redes sociais sobre essas falhas. E parece que não é com ela. Parece que Saraiva não tem problemas, e assim, vão desaparecendo aos poucos da nossa mente. E do mercado

Rubens Duprat disse...

Eu sempre gostei de livrarias e de bancas. Era uma alegria ir àquelas bancas grandes que havia em alguns lugares aqui em São Paulo, geralmente em frente a shoppings. E, dentro dos shoppings, sempre havia as livrarias. Eu frequentava muitos shoppings, não para comprar roupas, mas para visitar as livrarias, mesmo!

Anônimo disse...

Poeme-se, uma livraria de usados na região histórica de São Luís, tá mal da pernas, mas ainda existe, uma pena que livros virou sinônimo de Amazon.

Rubens Duprat disse...

Não vejo tanto problema no fato da Amazon e outros sites de venda de livros pela Internet dominarem o mercado. Não sou saudosista. Se a Internet der às pessoas a possibilidade de encontrarem mais facilmente os livros que desejam ler e, assim, lerem mais, ótimo!

O grande problema é que, mesmo estando mais fácil encontrar livros, as pessoas não leem. Não acho que as livrarias estejam fechando por culpa da Internet. A culpa é da falta de tempo para ler, da falta de dinheiro para comprar livros e, principalmente, do desinteresse pela leitura.

Há igrejas que incutem em seus fiéis a ideia de que toda leitura, música ou filme que não tenha a ver com religião é herege, e que o fiel não deve nem chegar perto deles. Eu vejo a ascensão desse tipo de igreja como uma ameaça ao hábito da leitura, muito mais do que a Internet. Se a pessoa só pode ler um livro, a Bíblia, como ficam todos os outros livros?

Mas, claro, a culpa não é só das igrejas. A ignorância quase sempre é hereditária. Se os pais não leem, nem incentivam os filhos a lerem, os filhos naturalmente vão ser adultos que não leem. E por que motivo os pais não leem? É só por preguiça?

No Brasil atual, estamos tendo uma onda de anti-intelectualismo estimulada pelo presidente. As pessoas se orgulham de ser ignorantes. Acham mais fácil ver vídeos no YouTube do que ler. Isso piora a situação. Mas será que algum governo anterior foi melhor nesse sentido?

Por mais que tivesse intelectuais entre seus apoiadores, o Lula era outro que não inspirava ninguém à intelectualidade, sendo alguém que falava errado e chegou à presidência sem ter tido uma educação formal.

Já na ditadura militar, a única cultura que o governo estimulou no povo foi a cultura do futebol. Foi a partir da ditadura militar que o futebol se tornou o esporte nacional e alvo de fanatismo da esmagadora maioria da população. E os livros ficaram de lado, claro.

O Brasil sempre flertou com a ditadura, e sabemos que as ditaduras se caracterizam pelo anti-intelectualismo. Os ditadores não querem que as pessoas leiam, para que não aprendam a ter pensamento crítico e, assim, não se revoltem contra o governo.

Antes dos militares, tivemos Vargas, e, antes ainda, a monarquia, a escravidão e a submissão a Portugal. O país mal tem tempo de respirar após se livrar de um opressor, e já aparece outro. O povo se acostumou a ser submisso, a não pensar pela própria cabeça, a acreditar em salvadores da pátria, a ser burro.

É difícil mudar uma cultura tão arraigada na população.

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