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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Invasão

OS MORTOS E OS VIVOS



Samson Failright sabia que isso poderia acontecer um dia. Os sinais eram um tanto quanto evidentes em toda a sociedade humana. Quando ele perdeu Marah e seu filho Andrew, passou por um período como se estivesse anestesiado, morto por dentro. E, por um tempo, enxergava o mundo com outros olhos. Ele conseguia ver o que mais ninguém enxergava. Não era um superpoder, não, era apenas, sei lá, observação. 

Algumas pessoas, por melhores que fossem, pareciam exalar um odor diferente, um odor simbólico. O odor do ódio. Era algo contido, mas, que às vezes, não era possível mais esconder. Maridos que espancavam mulheres até a morte, mães que tratavam os filhos como saco de pancadas, homens atacando outros homens, no meio da rua, apenas por causa de sua orientação sexual, brigas no trânsito que acabavam em morte. E, quando havia alguma reportagem sobre algo do tipo, alguém sempre dizia: "Não entendo, fulano era um amor de pessoa". Mas Samson entendia. Eram os sinais do que ele agora via nitidamente. Não apenas via, também sentia aquele cheiro terrível. Pouco depois a invasão teve início. 

Ninguém entendeu bem o que estava acontecendo, nem o porquê, já que as pessoas simplesmente se transformavam em algo torpe, pútrido, sem nenhuma causa aparente. Estudos científicos nos capturados não mostrava a ação de nenhum vírus, nenhuma doença aparente. Mas, Samson, ah, Samson sabia. Era o ódio. Puro e cristalino ódio. Que sempre esteve ali, nos estupros, nas guerras e nos rostos sorridentes numa manhã ensolarada de domingo. 

O ódio agora não era algo do qual sentir vergonha, nem se preocupar com uma consciência culpada. Ele não era algo que entrava no corpo daquelas pessoas, mas que saía delas, e transformava seu exterior, antes tão bem aparentado por aquela fachada. O ódio os consumia, deixando-os como zumbis, como mortos-vivos, porém mais mortos do que vivos. E tudo começou por ele, por aquele que era o líder: Craig M. Stevenson. O paciente zero. 

havia porém relatos de surtos em outros países, onde os pacientes zeros também se tornaram os líderes da invasão. Era como se aquele ódio emanasse do primeiro e fosse contaminando todos os outros, mesmo a contaminação fosse apenas cerebral, por meio de ideias, de ideologias, de palavras. Mas, nosso problema era apenas nosso, e Samson sabia disso. 

Os mortos-vivos pareciam cada dia mais deteriorados mentalmente, e aquilo parecia fortalecer Stevenson, que, com uma estranha combinação de palavras vazias, que apenas os zumbis entendiam e acatavam. E os ataques continuavam. Mesmo o exército sucumbiu diante dos milhões que iam surgindo. Por fim, os próprios militares foram contaminados. Era o fim. 

Os estudos de capturados, mesmo não encontrando uma causa específica, conseguiu isolar os sintomas que começavam de maneira discreta até terminar naquela devastação da pessoa: frases repetitivas, olhar vazio, salivação excessiva, gritos hediondos, dificuldade em articular palavras mais complexas, cérebro se tornando cada vez mais simplório, tendência a morder, e andar atabalhoado. 

Stevenson, que parecia ser o mais inteligentes entre os infectados, portando o líder, ainda assim não conseguia enganar ao observador mais atento, apenas os mortos-vivos o acompanhavam. Tentativas de captura de Stevenson, para tentar desbaratar a invasão, foram desastrosas, pois os mortos-vivos atacavam de maneira frenética, causando mortes e sofrimento. Com a infecção dos militares, que agora pareciam formar uma espécie de sub-líderes, restaram apenas focos de resistência. Stevenson tomou o país e se tornou uma espécie de ditador, alguém morto, que pensava estar vivo, alguém destituído de uma consciência humana, que acreditava estar realmente pensando, quando na verdade, eram apenas espasmo de raciocínio desconectado. Porém, aquilo era o bastante para a massa de zumbis que crescia mais e mais. A invasão fora completada com sucesso.

Samson sabia que Stevenson tinha alguém que o comandava. Naquilo que restava da rede mundial de computadores, a internet, que agora funcionava por meios escusos, com sinais aqui e ali, sendo repetidos de um para outro, ele conseguiu receber imagens e áudio do que parecia ser um doz zumbis, só que em estado de putrefação ainda pior. Ele balbuciava palavras estranhas, mas muito parecidas com as que Stevenson e seus milhões de zumbis balbuciavam. Talvez aquele fosse a fonte. Não como Stevenson, o primeiro contaminado, mas ele deveria ser o ser que era aquilo mesmo, que nasceu morto-vivo e cresceu assim. Um ser de ódio puro, nascido deste modo. Samson só precisava encontrá-lo... e matá-lo. Não sabia se solucionaria o problema, mas, ele precisava tentar. 

Samson saiu da caverna blindada, para a luz do dia. Distante que estava de tudo, passou um tempo olhando aquela planície, onde ninguém mais habitava. Longe de tudo, ele conseguiu tempo para elaborar seu plano de combate, só precisava entrar em contato com a resistência e lhes mostrar sua descoberta e a possível localização do que ele chamava agora de mentor de Stevenson. Ele passou horas assistindo os velhos arquivos do Homem Putrefato e agora podia... podia... o quê? Samson estava se sentindo estranho, com raiva. Sua cabeça doía, sentia como se... o Homem Putrefato, as coisas que ele disse... não, eu não acredito. Samson sentiu um cheiro estranho, sua visão escureceu.  Quando sua visão retornou, Samson era outro homem. Era um homem cheio de ódio, que agora precisava encontrar seu líder, Stevenson. Hail, Stevenson! 

Ele desceu da montanha, e foi embora, entrando na estrada à direita. 

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Com Johnny Eu Vou Até o Inferno

JERUSALÉM JONES: COM JOHNNY EU VOU ATÉ O INFERNO
Um conto do pistoleiro mais pilantra do Velho Oeste



- Johnny, por quê você tinha que se meter com a filha do chefe da tribo? Eu disse para não tentar enganá-los com suas babaquices. Olha onde estamos agora?

Estávamos amarrados em estacas, com uma pilha de madeira aos nossos pés. Morreríamos como as bruxas de Salem. E eu nem tive culpa de nada nessa história, dessa vez. Meu único erro aqui, era conhecer o maldito Johnny Covenant. Talvez eu gostasse de sua companhia mais do que eu queria admitir, mas, em geral, eu terminava em situações assim. Já bastava a mim, as confusões em que eu me metia sozinho. 

Covenant era um cara mimado, filho de ingleses, criado aqui no Texas. Eu o conheci em uma outra aventura - que um dia eu conto - e acabei descobrindo como as pessoas podem ser idiotas quando encontram alguém com capacidade para ludibriá-las e sair ileso. Covenant era assim. 

Cismava que era alguma espécie de mágico. Gostava de fazer truques com cartas. Tirar moedas das orelhas das crianças. O básico. Se ele ficasse nisso estava ótimo. Mas, gostava também de fazer truques com cartas enquanto jogava pôquer valendo muito dinheiro. E eu, idiota que sou, acabava fazendo parceria com o maluco, toda vez que tínhamos oportunidade. 

Para cada vez que nos dávamos bem, pelo menos duas ou três terminávamos sob a mira de pistolas muito nervosas, Eu nunca entendia porque seus truques pareciam não funcionar com todos. Ele me dava explicações mirabolantes e falava palavras que eu nunca tinha ouvido antes. Parecia um dicionário. Penso que apenas me fazia de imbecil. 

O fato é que sempre escapávamos, fosse pagando o prejuízo, fosse correndo muito. Mas, desta vez, acho que as coisas seriam diferentes. O índo que parecia o chefe da tribo - uma que aliás eu não conhecia - veio com a tocha, que iluminava tenebrosamente a noite - e baixou sob a madeira abaixo de mim. Olhei para Covenant e disse:

- Você vai me pagar por isso, nem que seja no Inf...

... acordei de repente. Não estava entendendo o que acontecia. Parecia estar em uma caverna. Apesar da escuridão. Onde eu estava?

- É o inferno, Jones. 

Dei um pulo. Johnny Covenant estava ao meu lado, naquela escuridão. Parecia estar bem, assim como eu, sem sinal de queimaduras. 

- Eu sei o que está s perguntando. eu nos tirei de lá. Mas, só havia um caminho mais próximo ao qual eu tinha acesso.

- Do que você está falando? Os índios desistiram e nos desacordaram e nos jogaram aqui embaixo? 

- Não. Se tivermos sorte.Saímos sem que ninguém perceba. Só preciso lembrar como se faz. 

Não queria escutar mais asneiras. Um cheiro forte que ardia nas narinas vinha de mais adiante e um calor desgraçado também. Andamos até a claridade e, quando minha vista se acostumou á claridade, eu pude ver que Covenant, de alguma forma, tinha nos enviado para a porra do Inferno, mesmo. Ou ao menos, um lugar muito parecido, já que nunca estive lá. 

Pessoas se arrastavam como se carregassem todo o peso do mundo nas costas, carregando pesadas pedras. Mulheres e homens, velhos e jovens. Porém, meso os jovens pareciam velhos. Havia algo desolador naquilo tudo, pois a quantidade de pessoas era enorme.

- Não viemos aqui pra isso, Jones. Precisamos subir. 

- Subir como, seu louco. Tá vendo alguma escada? E que lugar é esse? Uma mina? O que eles escavam aqui? 

- Tá, tá. é uma mina. Vamos embora. 

Corremos por entre as várias entradas que se abriam a nossa frente. Túneis dentro do túnel. Covenant parecia conhecer o lugar, pois não hesitava quanto a qual entrada escolher. Todas elas estavam marcadas com números romanos. 

- Só precisamos evitar entrar nas entradar com VI. Se entramos em três delas, pode ficar complicado para nosso lado. O chefe pode aparecer. 

- Que chefe? 

- Covenant se deteve, parando para pensar e ficou ali, como um dois de paus. Fechou os olhos e começou a murmurar coisas que eu não entendia. Fechou os punhos e torceu as mãos como se abrisse uma porta. E quando olhei para frente, uma abertura que eu não tinha visto, estava lá. Acho que me distraí e não a percebi. Eu precisava sair dali, o calor estava me matando. Além disso, eu podia sentir o sofrimento das pessoas lá atrás. Era algo que entranhava na mente. Já Covennat parecia estar dando um passeio no parque de diversões. Louco desgraçado.

- Chegamos. 

- Chegamos onde? É um beco sem saída. 

- vou precisar de sua ajuda. O... hmm... dono da mina está quase nos encontrando. Logo isso aqui vai estar cheio de capangas dele, e você não vai gostar. Portanto, me desculpe, mas isso vai doer. 

- Isso o qu... AAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHH!!! FILHO DA PU...

Não sei bem o que Covennat fez. Mas, imagino que não foi algo que eu vá entender nunca. Só sei que senti como se uma partre de mim - minha alma, ou algo assim - fosse arrancada de mim, e parecia como se minha pele estivesse em chamas. Sentir minha garganta se fechar, e meus olhos pareciam terem se tornado poços de escuridão. Quando todo esse sofriemtno acabou, foi tão imediato como começou. E eu estava no meio do deserto, totalmente nu. 

Na areia, pegadas recentes iam em direção á cidade. Minhas roupas estavam por perto, mas quase totalmente queimadas. Perto dos meus pés, alguma coisa estava escrita na areia. 

- Até a próxima, amigo. 

Seja lá onde fomos parar, Covenant deve ter conseguido nos levar para lá facilmente. Mas, parece que para sair a coisa era mais complicada. E quem pagou o pato fui eu. Eu sentia um rombo no meio do peito. Como se uma porta se abrisse para o nada. Acho que meu amigo da onça me usou como algum tipo de passagem. Ao menos teve a decência de me trazer junto. 

Estava amanhecendo e o sol não estava tão quente. Eu só precisava andar, pelado, até a cidade mais próxima. Vesti os trapos queimados como estavam, e fui embora. Estranhamente eu não sentia sede alguma. Parecia mágica. 


segunda-feira, 23 de abril de 2018

Terror em Paraty

TERROR EM PARATY - A NOITE DA TROMBA D'ÁGUA
E OUTRAS AVENTURAS MIRABOLANTES
Uma História Baseada em Fatos Surreais



Eu e Lia, minha digníssima esposa, tivemos uma época em que gostávamos de passar alguns dias em Paraty, aquele lugar que atrai tantos turistas. Em todas as vezes que fomos, tudo sempre foi muito tranquilo, como qualquer passeio como esse. Isso, até a última vez, onde tudo que aconteceu parece fazer parte de uma história de drama, terror, suspense e comédia. Tudo começou com o Homem de um Braço Só. 

Ficávamos quase sempre na mesma pousada ou e alguma outra próxima ao centro de Paraty. Porém, Lia já estava cansada da mesmice disso e resolveu pesquisar na internet re achou uma que era composta por pequenos chalés para os casais que lá ficariam. Tudo parecia maravilhoso pelas fotos da internet. E talvez até fosse, se tudo que aconteceu não tivesse roubado nossa intenção de se divertir. E, tivemos um sinal de que as coisas não iriam acontecer como queriamos, assim que chegamos à rodoviária e entramos em um táxi para ir à pousada. Eu cutuquei a Lia, e cochichei o mais discretamente possível:

- O motorista.... ele não tem um... braço!

Como já estávamos a caminho e como o trânsito em Paraty é sempre tranquilo, pensei, ah, que se dane, acho que não dá para morrer até chegar à pousada. 

Já era noite quando chegamos ao local. Pagamos o táxi e rezei para nunca mais entrar naquele veículo outra vez. Mas, aquilo era apanas um começo  de uma de nossas mais tresloucadas aventuras. 

Quando chegamos à recepção da pousada, simplesmente não havia ninguém. Nenhuma viva alma. Também não se via sinal de hóspedes. Era tão estranho aquilo. O lugar era bem remoto. A Lia havia caprichado na distância. E agora estávamos ali, como se num filme em que o mundo acabou e nós éramos as duas últimas pessoas da face da Terra. 

Lia pegou o celular e resolveu ligar para o homem com quem tratara sobre a hospedagem. Apesar da demora, ele acabou aparecendo. E as coisas ficavam mais estranhas ainda. O homem era alto, com um ar soturno, mas querendo parecer simpático, o que era quase impossível, pois ele não parecia saber como fazer isso. Imediatamente a Lia o apelidou de "Frankenstein". Para mim, ele parecia mais o Tropeço, da Família Adams. 

Depois dque fizemos o check in fomos levados ao chalé onde ficaríamos e logo notei que a coisa não era tão aconchegante como nas fotos. Tudo parecia pequeno demais, apertado demais. Mas, já havíamos pago antecipadamente, então não havia muito o que fazer a não ser tentar aproveitar, esquecendo o Homem de um Braço Só e o Frankenstein. Cansados, fomos dormir. 

E caímos no sono. 



No meio da noite, como um calor sufocante, acordei e vi a Lia na janela, olhando para fora, extasiada com a luminiscência do que pareciam ser muitos vagalumes. Na verdade, não sei o que eram. Mas, cansado demais, voltei a dormir, mas não por muito tempo. A coisa toda estava apenas começando e o mundo estava acabando. Acabando em água. 

Eu nunca havia presenciado o fenômeno que chamam de tromba d'água. Mas, para minha "alegria", ali estava ele, se fazendo presente bem durante uma viagem relaxante. A chuva era torrencial. O pequeno chalé parecia que não ia aguentar e seria destruído em pouco tempo. Mas, o fato é que eu estava cansado demais e não queria mais me importar com aquilo tudo, e só queria dormir. E o fiz, mesmo com o mundo entrando no Julgamento Final, lá fora. 

Quando acordamos, tudo estava em paz. A manhã estava clara e bonita. Fomos em direção ao local onde o café seria servido, que era próximo à piscina. Quando olhamos a mesma, a dita piscina, vimos que uma parte de nosso passeio estava totalmente, digamos assim, na lama, literalmente. A piscina se tornara um tanque de lama, que a chuva arrastou. Lia que gosta das pousadas justamente por causa da piscina, ficou arrasada. Mas, desgraça pouca é bobagem.

Acostumados ao café da amnhã suntuoso da maioria das pousadas, em que uma máquina de café fica ligada e um sotrimento de comida fica a nossa disposição, demos de cara não com isso, mas como o querido Frankenstein servindo café em um bule e quadrados de um bolo bem simplório. Lia e eu nos olhamos sem entender nada. Sem acreditar. E acho que pensamos a mesma coisa, pois falamos quase juntos:

- Precisamos ir embora daqui de qualquer maneira. 

Mas, havia um problema o qual eu já falei dele lá em cima: a hospedagem já estava paga adiantada. Resovidos a ir embora, minha mente começou a funcionar furiosamente, pensando em uma saída.E, olhando para a Lia, eu disse a única coisa que nos salvaria:

- Lia, você precisa chorar. 
-  Como assim?
- Você. precisa ir até o Frankenstein, dizer que a tia ligou, que está mal, muito mal, que precismaos voltar urgentemente e se ele pode devolver o dinheiro e, para isso, você precisa chorar, enquanto conta. Você consegue. 
- Ok, ok. Eu consigo, eu vou. 
- Eu... não posso ir junto. Acho que vou acabar rindo, sei lá. Só sei que não posso estar presente. Se eu vir você chorando, sabendo o que eu sei, não acho que eu consiga me controlar. Vou pegar nossas coisas, e esperar na saída. Aconteça o que acontecer, precisamos ir embora. 

Parado, na saída da pousada, os minutos pareciam horas. Eu pensava em cada desdobramento da conversa e nas possíveis consequência, como se universos paralelos estivessem sendo expelidos da minha cabeça. Quando Lia apareceu com o cheque de devolução, descontada apenas a noite que passamos ali, eu tive certeza  que ela era a melhor atriz que eu conhecia. 

O dono da pousada chamou um táxi para nós e, estávamos felizes de ir embora, até o momento que vi o motorista. Si, acreditem, era o Homem de Um Braço Só. Parece que aquele dia estava longe de acabar. 

Queríamos tentar salvar nossa viagem, então fomos trás de uma pousada no local onde já estávamos acostumados. Para isso, precisávamos descontar o cheque. E, enquanto estávamos na fila do banco, eu conjecturava a possibilidade de Frankenstei aparecer no banco e perceer que não fomos embora imediatamente para casa, como foi dito em nossa história preparada. Mas, isso não aconteceu. Saímos de lá sem problemas e fomos procurar um lugar para almoçar, antes de nos instalarmos em uma nova pousada. 

Chegamos a um dos muitos restaurantes de Paraty e começamos a comer tranquilamente, começando a  ficar mais otimistas, mesmo que tudo parecesse tão desastroso. A tromba d'água arrasara Paraty. Os sistema de distribuição de água estava comprometido, pois água destruíra uma parte dele. as pousadas não tinham água e suas piscinas estavam do mesmo jeito ou pior que a da pousada Frankenstein. Mas, ao menos tínhamos comida. 

Lia se levantou para ir ao banheiro e eu me virei para a porta quando vi o impossível acontecer: apesar de existirem trocentos restaurantes em Paraty, Frankenstein acabara de entrar exatamente naquele. E ele morava a quilômetros dali!

Ele não me viu. Quando Lia voltou, eu contei a ela, que ficou pálida. De pilastra em pilastra, fomos nos aproximando da saída, até estar totalmente fora do restaurante. Aquilo tudo era surreal demais. Estava dificil continua acreditando no que estava acontecendo.Mas, escapamos do nosso algoz e agora queriamos tentar novamente. 

O jeito foi nos hospedarmos na pousada de sempre. Mas, ela estava como todas a outras: sem água e com a piscina barrenta. Ficamos uma noite e desistimos. Paraty não nos queria ali e nos jogou toda as suas maldições, desde o Homem de Um Braço Só, até a tromba d'água vinda do próprio inferno. Então, fomos embora, e nunca mais voltamos. 

Ainda hoje, quando contamos essa história, não parece possível que tanta coisa errada tivesse acontecido ao mesmo tempo. Se alguém nos contasse, diríamos que estava exagerando. Mas a verdade é que 99% aconteceu mesmo, e eu preenchi as lacunas com 1% de imaginação. 

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Uma Guerra Que Não é Minha

UMA GUERRA QUE NÂO É MINHA



Morrer em outro planeta em uma guerra que não era minha. Vamos colonizar, foi o que me disseram. O planeta é desabitado. Não percebi que a nave-mãe Aura tinha um compartimento de armas, e que eu assinei um contrato de combate em caso de emergência. Lizzie sempre me chamava de ingênuo. Lizzie. Ainda é difícil lembrar dela morrendo no segundo levante. Ela nem mesmo era um soldado, era uma botânica.

A morfina me ajuda a aguentar os últimos minutos. A perda de sangue vai me matar. Não há nenhum socorro vindo, porque não há mais ninguém para vir. O mais irônico é que creio que demos tudo o que os nativos precisavam para iniciar uma invasão à Terra. O que faltar, eles vão completar. Apenas pareciam burros. Aparências enganam, não julgue um livro pela capa, nem um alienigena pelas suas antenas... eu começo a rir e sangue sai da minha boca.

Eu devia ter desconfiado quando encontrei tantos outros solados aposentados, como eu. Era a chance de ver o universo, conquistar as estrelas. Viver uma vida calma e plena ao lado de Lizzie. Malditos políticos de merda. Não cansam de mentir.

Os habitantes eram pacíficos, e isso deve ter animado os malditos e tomarem o planeta à força. Suas pesquisas, como descobri depois, não encontraram nenhum tipo de arma letal. Apenas tecnologia agrícola avançada entre outras inofensivas, para comunicação e até entretenimento. Nada mais.

O que não entenderam, era que eles eram um povo pacífico porque nâo se sentiam ameaçados. Não tinham tecnologia defensiva porque não precisavam dela. Isso não significava que eles não poderiam improvisar e lutar. Como ser humano é prepotente.

Ao menos não matei nenhum deles, eu acho. Não, não por ser um pacifista. Eu fui um soldado, eu sabia quando era hora de lutar. Não adiantava mais pensar sobre o certo e o errado. Eu estava no meio do maldito inferno e agora tinha que abraçar o Diabo. O problema era que eles apenas eram melhores que eu. Como se tivessem lutado mil guerras.Como se tivessem nascido guerreiros.

Mas, era apenas algo que pareciam conhecer muito bem: instinto de sobrevivência. Os que atingi simplesmente não aceitavam a morte. As bombas neutrônicas arrasaram cidades inteiras, mas nunca exterminavam todos os habitantes. Até as crianças se tornaram ferozes, como se o medo fosse sua fonte de energia.

Morrer aqui, neste pântano, cercado de todos esses cadáveres, é mais do que justo. Ao menos posso ver o General Dalton daqui. O simpático Dr. Mark Dalto, chefe da expedição, cientista-chefe, era também, um soldado sanguinário e um comandante cruel. Matou muitos que disseram que não iam aceitar aquele engodo. Ele estava autorizado.

Vejo Lizzie. Alucinação ou, quem sabe, ela veio de um lugar melhor, para me levar. Sinto sua mão puxar meu braço. É quente.

- Corey! Corey! O que você tem? Acorde. O planeta... é habitado! O planeta é habitado e parece que teremos de lutar contra os habitantes. O general disse que temos novas ordens e que eles não são beligerantes. O que faremos, Corey!

- Eu... eu sei. Eu sei de tudo. Lizzie. Eu acho que fui contatado. Quando eu pegar em armas, vamos tomar a Aura. Você está comigo?


domingo, 6 de março de 2016

A Menina

A MENINA  
Um Conto Após o Fim do Mundo


Era uma manhã cinzenta e fria de mais um dia após o Fim do Mundo.

Os mortos-vivos agora eram raros. Mas, ainda apareciam de vez em quando. Às vezes eram apenas aqueles que os parentes guardavam escondidos em uma esperança de cura, isso antes do Grande expurgo. Foi pensando nisso, que avistei a menina enquanto eu estava lá fora, apreciando aquele dia melancólico.

Ela estava com um vestido branco, e descia por um estrada acima, acompanhada de outras crianças. Demorei um pouco para me dar conta do que estava acontecendo. A menina estava morta.

As crianças que eram imprudentes, implicavam com a menina, como crianças gostam de fazer quando veem alguém diferente. Não entendiam o perigo que corriam. A menina, no entanto, apenas caminhava com aquele passo típico deles. Mesmo de longe, percebi que ela estava nos estágios finais.
Eu gritava para as crianças se afastarem. Mesmo sem atacar, isso não era garantia de que ela não iria fazê-lo a qualquer momento, então teríamos um grande problema, com o exército chegando ao lugarejo e limpando o lugar, levando consigo mortos e vivos.

Eu gritava, mas os gritos de zombaria das crianças eram mais altos. A menina caminhava, descendo a estrada, numa caminhada sem pressa. Parecia tão calma, tão inofensiva. Mas, aquilo só fazia com que minha apreensão aumentasse. era como o silêncio antes do terremoto.

Eu comecei a entrar em pânico. mesmo sendo uma menina, eu não tinha outra alternativa. Comecei a procurar alguma coisa que me servisse de arma. Eu precisava fazer algo para evitar uma catástrofe maior.

Varri o chão com os olhos, corri como um louco pelo lugar ao redor. Foi quando vi o que me parecia um pedaço de vergalhão, já enferrujado. Eu o segurei com uma das mãos e seu tamanho parecia que serviria para o que eu precisava. Quando olhei na direção da menina, as crianças a derrubaram e e ela rolou e caiu pela beirada do caminho, ficando bem mais perto de mim.

Corri em sua direção e olhei para seu rosto. Ela não parecia disposta a atacar, era como se soubesse que seu tempo acabou, que aqueles iguais a ela não existiam mais. Que não adiantava lutar por uma vida que não existia. Ela nem mesmo era mais uma menina. Eu segurei o pedaço de vergalhão acima de sua testa e, esquecendo qualquer sentimento, matei o que restava de seu cérebro. Ela não fechou os olhos, pois não os tinha mais.

Eu não queria mais ficar ali. Devia queimar o corpo, mas não conseguia ficar perto dela. Só pensava em me mudar novamente, ir para longe daquele lugar. Sem nada a me apegar, eu apenas comecei a caminhar para longe. As crianças que antes estava rindo e zombando, agora pareciam tão mortas quanto a menina, depois do que viram eu fazer. Foram embora caladas.

Quando eu já estava a uma certa distância, olhei para trás uma última vez. Um homem se aproximava da menina. Ele carregava o que parecia ser um caixão do exato tamanho dela. Ele me viu. Olhou em minha direção, com o olhar mais triste que eu já vi em minha vida - e eu vi muitos olhares tristes - e acenou para mim.

Comecei a chorar sem parar, enquanto ia embora. Senti no aceno do homem que ele me agradecia.

FIM

[Extraído de um sonho de duas noites atrás.]

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Um Conto de Verdade

A VERDADE DÓI - UM CONTO DE TERROR


A verdade o atacou durante a noite, na cama. Na escuridão de seu quarto, ela pulou sobre ele e rasgou sua pele. Era um animal selvagem, que atacava com violência, mas, ele sentia, parecia não haver raiva alguma.

Ele tentava se proteger, mas seus braços eram lacerados. A verdade era fria e impiedosa. Quando ele começou a orar por alguma ajuda divina, a verdade feriu sua língua e deu um soco violento em seu rosto. Aquilo fez com que ele acordasse. Ele precisava sair vivo. Mas, a verdade não parava de agredi-lo por todos os lados.

Sua boca se encharcava com sangue, seus olhos estavam ardendo com o esforço para se aguentar vivo. A verdade o ergueu sobre si mesma e o arremessou contra a parede. Ele bateu e caiu. Começava a achar que não escaparia de tamanho ataque.

A verdade olhou para ele no chão e soltou um rugido alto, como se fossem 100 leões famintos. A verdade não terminara ainda.

Quando ele tentou se levantar, a verdade o agarrou pelo pescoço e sacudiu como se fosse um boneco de pano, como se tentasse sacudir de dentro dele todos os seus mitos, superstições e outros entraves que o faziam se sentir pesado. A verdade não tinha porque ter pena.

- Tudo que sofreu até aqui foi por culpa de sua própria ignorância e falta de perspectiva. - ela disse em uma voz gutural.

A verdade o sufocava, seu pescoço parecia que ia quebrar. Ele tentava se livrar, mas suas mãos eram pequenas demais, fracas demais. Ele ia morrer. Morrer. Escuro. Sem ar. Morrer.

Ele acordou no chão do quarto. Estava nu e ferido. Mas, não morreu. Estava vivo. Na beirada da cama estava sentada uma criança, um menino. Parecia não saber nem falar direito. Olhava-o com curiosidade. De alguma forma, sabia que a criança era a Verdade. Mas, perguntou assim mesmo:

- Quem é você?
- Meu nome é Conhecimento e suas cicatrizes desta noite serão eternas. - disse, e se foi.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O Velho Homem Cansado

O VELHO HOMEM CANSADO
Um Conto de Um Lugar Qualquer no Mundo



O velho homem cansado observava a tarde de sua varanda. Não gostava de admitir para si mesmo que estava cansado. Cansado até mesmo de odiar. Seu racismo ainda fazia ferver seu sangue ao se dar conta de como a vizinhança cada vez mais era habitada por negros, incluindo os da casa ao lado, que ele sempre fez questão de evitar por todos esses anos em que vieram morar ali.

Sentia falta de Mina, que sempre ralhava com ele, dizendo para ele se preocupar com coisas mais importantes, como educar os filhos e pensar no futuro deles. Eles se foram. Mina também. Eles para longe, ela para sempre. Agora era só ele e Claire, sua vira-latas de estimação.

Escutou um barulho na cerca de madeira e se virou. Não conseguiu acreditar no que via. Uma das filhas, a mais nova, acreditava ele, ao que parecia, estava empurrando a tábua e passando por ela. Sua pequena bola caíra no seu quintal. A menina, a negrinha, estava invadindo seu espaço sagrado. O velho homem cansado queria gritar e mandá-la embora. Mas, algo o segurava. Ainda assim, seus olhos ardiam de raiva.

A menina devia ter uns 5 anos. Passou pela cerca e apanhou a bola. Já estava indo embora quando notou que o velho a observava com estranhos olhos de alguém muito mais velho do que parecia. Ela foi em sua direção.

Ele já ia levantar e mandá-la embora, mas, para piorar, Claire passou por ele e foi fazer festa com a menina. A menina ria e Claire tentava pegar a bola da mão dela. Ela segurava no alto e ria. Claire tomou a bola e a menina caiu. O velho não conseguia emitir palavra alguma. Não sabia o que fazer, mas não estava gostando daquilo, não mesmo.

Claire trouxe a bola para ele, insistia que ele pegasse. e ele só pensava que não queria tocar em nada que viesse de um negro. Ou de uma filha deles. Mas, Claire era insistente, então ele pegou e arremessou longe, Claire foi buscar. Quando viu, a menina estava ao lado de sua cadeira de balanço. Olhava para ele, intrigada.

- Sua bebê gostou de mim.
- Ela deve ser mais velha que eu. E cachorros gostam de todo mundo. Não sabem a diferença.
- Que diferença? 
- A... ... a diferença de... cor. - disse, sem se importar. 
- Meu pai disse que é porque eles não enxergam as cores. 
- Ah, basta treiná-los e eles saber exatamente que cores não gostar. 
- O senhor fez isso com ela?
- Não. Nunca me passou pela cabeça. 
- Mas, assim também não ia contar.
- Por quê?
- Porque ela não escolheu não gostar, só foi treinada pra isso. A gente pode escolher, ela não. O senhor, por exemplo, de que cor não gosta? 
- Eu...

Antes que ele respondesse, Claire voltou com a bolinha e pulou em cima dele, entregando-a. O velho homem cansado tomou um susto e se aprumou.

- Seus pais devem estar preocupados, melhor você ir. 
- Eu já vou. Qual seu nome?
- É... Kurt. 
- O meu é Mina. Jasmina, quer dizer, Mina é meu apelido. Eu vou pra casa agora, tchau e obrigado.

O velho homem cansado sabia que era apenas coincidência, mas, não conseguiu se conter quando algo dentro dele morreu. Suas lágrimas o faziam sentir-se cada vez menos cansado.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Justiça

JUSTIÇA - EDIÇÃO DEFINITIVA
Digitalização e Ajustes by H.O.R.D.A. e  ÐØØM™ Scans

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"Eles são conhecidos como Os Maiores Super-Heróis do Mundo. Porém, os integrantes da consagrada Liga da Justiça da América estão prestes a aprender que não são os únicos capazes de se unir por um objetivo em comum. As mentes criminosas mais mortais de nossa era aparentemente estão agindo juntas, com um surpreendente plano... que procura perpetrar um bem que nem a LJA é capaz! Mas algo de obscuro se esconde sob a superfície dessa busca. Conseguirá a Liga sobreviver tempo suficiente para descobrir a verdade? Jim Kruger, Doug Braithwaite e Alex Ross responderão a essa pergunta."

Finalmente terminei. O que era pra ser um presente de Natal se tornou o primeiro post de 2016. Ter 490 páginas faz esse tipo de coisa acontecer. Mas, essa edição tem um "agravante: muitas páginas duplas com arte de Alex Ross (na verdade Alex Ross sobre esboços de Doug Braithwaite) e estragar a arte de Braithwaite e Ross com páginas com aquela linha divisória aparecendo no meio, deixando a arte mei aliejada, seria um crime. 

Para evitar isso eu convoquei um dos membros da Liga Scanística, o Alan, do blog ÐØØM™ Scans para ajudar. Como poderão ver nas páginas duplas que ele juntou, não dá pra ver as emendas, o que deixa a arte praticamente como ela foi feita originalmente. 

A demora também se deu porque eu tento não deixar nenhum grão de poeira (ou seja lá o que for aquilo) que fica nas páginas quando se digitaliza. E, fazer isso em 490 páginas durante os feriados de fim de ano e num calor desanimador, demanda tempo mesmo. Mas, no final, acho que ficou bom. Sem a ajuda do Alan nas duplas teria demorado bem mais. Afinal eram mais de 100 páginas individuais. 

Além da excelente trama de 12 capítulos de Justiça a edição traz mais de 100 páginas de extras, entre os pensamentos dos autores, perfis dos personagens e esboços. Assim sendo, curtam a vontade. 




SETE CONTOS DE QUERES E TANATOS
Autor: Álvaro Trigo Fernandes 

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Os sete contos reunidos neste eBook foram publicados originalmente no blog O Cientista Social Nerd. Eles vão do terror ao humor negro. Falam de vinganças e até mesmo de Rock. Os personagens estão sempre buscando algo, ou sendo encontrados, também. Não há saídas fáceis e não podemos julgá-los, pois, talvez fizéssemos o mesmo se estivéssemos em seus lugares. Lugares, em geral, sombrios. Uma leitura que pode ser curta, mas  sempre impactante. Fique assim, sob os cuidados de Queres e Tanatos e boa leitura.



terça-feira, 6 de outubro de 2015

Gibiografia


GIBIOGRAFIA – MINHA HISTÓRIA EM QUADRINHOS

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Entro na estranha máquina do tempo, uma espécie de divã em formato de uma motocicleta sem rodas, com assento mais largo. No que seria o guidão aciono o memorial-pad. Ele escaneia minhas ondas cerebrais e procura a memória afetiva mais frequente: quadrinhos, é o resultado. O contador passa a procurar a data-momento onde minhas memórias guardam a lembrança mais antiga que tenho sobre quadrinhos. E sou jogado para lá em um vórtice enjoativo. Estou em meados de 1975, na casa em que morei quase a vida toda.

A viagem não é física, mas virtual. Estou lá e não estou. A máquina funciona por datas e temas. Estranhamente ela escolheu quadrinhos. Me vejo sentado no muro da meia-água onde eu morava. Uma das minhas muitas tias – por parte de pai – chega com um monte de revistas em quadrinhos e me entrega. Ela sabe que eu não sei ler ainda, e pouco se importa com isso. Em algum momento ela notou a minha afeição pelos quadrinhos e me trouxe este presente.

Meus dois tios mais novos – irmãos dela – se aproximam e pedem para ver as revistas. Eu deixo. Como já sabem ler, querem emprestado. Vão separando as que querem, uma a uma. Somente as melhores, as de super-heróis. Mas, ainda deixam uma comigo: Riquinho. Nunca mais vi as outras. E tomei uma certa raiva das revistas do Riquinho.

A máquina diverge e me joga mais para a frente. Estou com minha mãe  no ponto de ônibus. É o ano seguinte e já sei ler um pouco. Ao nosso lado uma banca de jornal muito humilde tem alguns gibis. Esta banca é, na verdade, uma pequena filial de uma maior que fica num bairro mais distante. Foi a única banca que meu bairro teve e, depois que ela acabou, alguns anos depois, nunca mais teve outra, até os dias de hoje.

Peço CR$ 1,00 (um cruzeiro) à minha mãe, para comprar uma revista do Pato Donald. Era superfina, pouquíssimas páginas, mas era o que eu podia comprar. Ela me dá o dinheiro e eu a compro, como se estivesse adquirindo ouro puro.

Vou mais para frente um pouco – quase nada – e estou em casa novamente, com minhas irmãs e irmão – esperando minha mãe chegar. Ela foi às compras e parece estar demorando. Ela chega cansada, mas com um certo brilho nos olhos. As bolsas ainda são aquelas de papel, com alças, Ela as deposita no chão e me chama. De dentro de uma delas ela puxa algo.

Olhando de onde estou, parece que tudo se passa em câmera lenta, ou talvez seja apenas ela saboreando a alegria de me ver em expectativa. Ela retira um gibi da bolsa. Eu quase não consigo acreditar. A imagem à minha frente é a mesma que carrego na memória: ela segura uma revista em quadrinhos de O Mestre do Kung Fu. Nunca tinha visto. Não sei se vou gostar ou não, mas sei que é o melhor presente do mundo.

Os anos passam com um pouco mais de pressa e já estou em um tempo que meu pai se foi, separou-se de minha mãe. Ela seguiu sua vida e cria a nós quatro sem nunca reclamar desse fardo. Chegamos a ter um padrasto, mas não deu certo. Então ela procura não se apegar. Quando arranja um namorado, para minha surpresa, ele gosta de gibis, exatamente como eu. Acho que eu nunca tinha visto isso, um adulto que lia gibis.

Seu nome é engraçado, Daguiberto, nunca esqueci.Quando ele mesmo não me dá seus gibis, me dava dinheiro para eu comprar. Numa dessas vezes, eu pego o dinheiro e saio pelo mundo para comprar uma revista. Não encontro a banca que estou acostumado a ir aberta. Então ando mais e mais. Acabo indo muito longe, mas compro o que queria: a Disney Especial – Os Cosmonautas. Era o primeiro gibi com tantas páginas que eu tinha.

Quando chego em casa, quase apanho. Demorei demais, e ninguém sabia onde eu estava. Daguiberto quase apanha também.

A máquina acelera e estou em meu primeiro emprego, aos 11 anos de idade. É 1980. O que aconteceu foi que perguntei minha mãe se eu podia trabalhar. Ela reluta um pouco, mas decide que posso, e consegue emprego para mim num armazém de um senhor para que ela trabalha de faxineira em sua casa: o Seu Joaquim. Para minha surpresa é o pai de uma de minhas primeira – ou talvez a primeira – professora, de muitos anos atrás. Anos depois iria trabalhar para seu filho, no bar dele. O dinheiro não dá para comprar muitos gibis.

No ano seguinte a coisa toda muda. É como se fosse a Era de Ouro dos quadrinhos para mim. Estou com 12 anos e consegui emprego em uma padaria de bem pouco movimento no tal bairro onde a banca de jornal matriz, que mencionei lá em cima, fica. Junta a fome com a vontade de comer.

Me vejo acordar todo dia bem cedo e, antes de seguir para a padaria, começo a ir a banca. Acelero o tempo e me vejo criar uma relação comercial e de amizade com os dois jornaleiros donos da banca. Até mesmo confiam em mim para comprar fiado. Ganho tano a confiança deles, que já chego e não pergunto mais o que saiu de novo, apenas entro na Kombi, procuro os pacotes, abro e vou pegando o que quero. Pensando nisso hoje, era muito estranho fazer isso.

Com o tempo acelerado, vejo minha coleção de quadrinhos crescer e não caber mais no pequeno armário amarelo onde eu as colocava. Não compro mais apenas Disney ou apenas super-heróis, eu compro TUDO que sai. De Turma da Mônica a Espada Selvagem de Conan. Tomo conta de um grande armário branco que fica na sala e uso toda a parte de baixo para colocar minha coleção. Arrumo em várias pilhas bem organizadas.

Fico sabendo já depois de adulto, que minhas irmãs pegavam quadrinhos da Turma da Mônica que tinha medo de pedir emprestado, quando eu ia trabalhar e colocavam de volta na mesma posição, para que eu não desconfiasse. Ri quando me contaram isso.

O armário branco torna-se pequeno também, e não consigo encontrar solução. A casa não tem espaço, e muito menos eu tenho um quarto meu. Nenhum de nós tem. Uma ideia me vem a cabeça.

Todo domingo, na rua da padaria onde eu trabalho, há uma feira livre e há algo lá que destoa de toda a feira: uma banca de gibis usados, onde eu mesmo comprei alguns. Fico sabendo que eles compram, também, e falo dos meus mais de 500 gibis. Eles aceitam comprar. Então, arranjo três grandes caixas, coloco todos eles dentro e consigo um carrinho de mão, para transportá-los até lá. Eu já começava a exercer o desapego, quando necessário. Com o dinheiro arrecadado, comprei minha primeira bicicleta, mesmo que de segunda mão.

Então, nos anos subsequentes eu não mantenho uma coleção tão vasta como aquela. Sempre compro, guardo, troco ou vendo. Faço muitos amigos por meio da troca de gibis. Também vou crescendo, chegando à idade adulta e um desastre acontece em minha vida: quando chego aos vinte anos me torno religioso, uma Testemunha de Jeová.

A máquina para com um sopetão e eu me vejo parar de comprar quadrinhos, pois a doutrina ensina que é errado lê-los, devido às duas muitas más influências, como por exemplo, personagens baseados em deuses pagão, como Thor, ou no próprio demônio, como Daredevil (Demolidor). E assim, sigo por sete anos, demorando para perceber que tudo é basicamente um discurso para nos fazer sentir culpados, e que muitos fazem e veem o que querem, fora das reuniões religiosas.

Como se para compensar, coleciono muito material de leitura da religião, quase como quando eu colecionava quadrinhos. Mas, não é a mesma coisa, Perto do fim dos sete anos – que por ironia, significa perfeição, na simbologia bíblica – eu já voltei a ler alguns quadrinhos. Quando abandono a religião, o primeiro gibi que leio é O Reino do Amanhã (Kingdom Come, uma alusão ao Pai Nosso), fazendo a ironia estar novamente presente.

Volto para o mundo dos vivos, agora com 28 anos de idade. A máquina do tempo parece navegar em águas mais calmas. Ainda estou meio perdido, mas as coisas vão ganhando foco novamente. A síndrome do Pânico que adquiri antes de me tornar religioso ainda prevalece. E não, não procurei nas Testemunhas de Jeová uma cura. Procurei conhecimento e, de certa forma, eu atingi o meu objetivo.

Na internet conheço outras ex-Testemunhas de Jeová e outras pessoas com Síndrome de Pânico. Essa facilidade em lidar com o mundo virtual faz com que cheguemos ao anos 2000, o alvorecer do século 21 e tudo volte a mudar na minha vida, mais uma vez. Conheço uma pessoa, no mundo virtual que, no ano seguinte se torna minha esposa, minha sempre amada Eliane, ou simplesmente Lia. O que vem pela frente é fruto dessas mudanças que ocorrem aqui.

A máquina dá um salto para o ano de 2003. Já estamos casados há mais de dois anos. Desde então, me imiscuí no mundo da internet e por uma espécie de acidente – como em toda boa origem – os quadrinhos voltam com força total à minha vida. Até então eu vinha comprando e lendo de forma esporádica, sem me importar realmente. O baque de ficar tanto tempo afastado ainda cobrava seu preço. Mas, uma conjunção de acontecimentos faria tudo isso mudar de vez.

Eu tinha começado um tal blog, chamado rapadura Açucarada, e não tinha muito o que postar. Blogs eram novidade e eu acabei experimentando o formato. Mas, assim como nas duas vezes anteriores, parecia que este blog também acabaria sendo deletado. Até que alguém me pediu para escanear a página de uma HQ que eu descrevi e tudo se tornou isso, como muitas vezes acabei relatando no próprio blog, em quase cada aniversário.

Eu queria compartilhar, como vi pessoas fazerem antes de mim. E, para compartilhar, eu precisava adquirir, comprar quadrinhos. E eu voltei a fazer isso com todo fervor de muitos anos antes. Como na minha pré-adolescência. E não apenas novos, mas eu comecei a percorrer sebos e comic shops, passei a conhecer pessoas que amavam os quadrinhos como eu amava, tanto no mundo virtual, quanto no real. E, aquilo – isso – se tornou um caminho sem volta. Ou apenas, um caminho que teve uma breve pausa.

A máquina acelera passando por esses quase 13 anos, e mostrando como amadureci como leitor de quadrinhos. Como aprendi a gostar de coisas que antes eu não tinha acesso e, quando tinha, demonstrava certo preconceito: Will Eisner, Chiclete Com Banana, Striptiras, Robert Crumb, Asterix, Circo, Revista Animal, Akira, Lourenço Mutarrelli, Bone, Quadrinhos europeus, mangás, e por aí vai em uma lista muito grande.

Era como se tudo que vivi antes tivesse sido apenas uma preparação para tudo que aconteceu nessa última década. E eu não conseguia parar, mesmo quando queria, porque no fundo, eu não queria. Tive tanta ajuda de tantas pessoas e vi essa coisa de compartilhar sem nenhum interesse financeiro ser tornar algo que eu nem mesmo podia imaginar que seria.

As pessoas já faziam isso com música, acho que até mesmo com mangás. Foi um site que compartilhava quadrinhos bem modestamente que me inspirou, e vi que o que bastava, como sempre, era continuar, não desistir, e outros fariam o mesmo.

Isso tudo me fez ver – ou apenas constatar – que eu e os quadrinhos estamos ligados por mais do que apena um mero gosto pessoal. Estamos ligados desde que eu apenas os abria para olhar os desenhos, sem saber ler ainda. Parece que todos sabiam disso: minha tias, minha mãe, o Daguiberto. Todos.

O que aconteceu aqui – e ainda acontece- foi algo que validou uma paixão que eu nem mesmo sabia que era tão grande. Não fiz porque queria ser ativista de nada, não sou assim. Fiz porque queria compartilhar algo que eu gosto com outras pessoas, como alguém que chama os amigos para ver um filme que já assistiu e quer que eles também curtam. Fiz por empatia.

No fim das contas, ainda sou aquela criança, sentada no muro da meia-água, com uma pilha de gibis ao meu lado, folheando-os um por um, e me imaginando ali dentro. E é assim que eu gosto de ser.

E a viagem nunca termina.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Jerusalem Jones–Queimado

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Fazia um bom tempo que J. J. não aparecia por essas paragens. Mas, ainda assim, foi uma surpresa para ele encontrar a maior parte da pequena cidade de Old Cow queimada, destruída. Já a outra parte, estava apenas deserta mesmo. Mas, não estava em melhor estado. As casas que não tinham virado cinzas, estavam visivelmente queimadas, negras. Todo o lugar parecia ter sido atingido por algo, uma explosão talvez, que selou seu destino.

Jones cavalgou até o cemitério, e ele parecia do mesmo tamanho e com a mesma quantidade de túmulos que viu da última vez que esteve em Old Cow City. Para onde foram os cadáveres torrados pelo incêncio, ou seja lá o que tenha acontecido ali? Os sobreviventes levaram consigo? Não parecia provável.

J. J.  já sentia sua cicatriz no pescoço começar a pulsar, mesmo sabendo que aquilo era apenas uma impressão causada pela sua pulsação agitada. Cavalgava lentamente, com inveja de Chase, que parecia não se dar conta de quão estranho era aquilo tudo. Na verdade, parecia mais que ele estava dormindo, mesmo que andasse. E ele tinha certeza que aquele cavalo já devia ter feito isso alguma vez. Não era bem preguiça, era aquela espécie de calma que ele tinha.

- Uooooouuuuu!!!

Jerusalem Jones foi retirado a força de seus pensamentos quando Chase empinou, para evitar pisar sobre uma estranha massa enegrecida que estava bem diante deles, no chão. J. J. não queria admitir, mas era uma pessoa. Totalmente queimada. O mais estanho é que ela ainda fumegava, ao passo que a cidade já tinha esfriado a um bom tempo.

Mesmo sabendo que não devia, J. J. desceu do cavalo e se agachou ao lado daquilo. O calor era suportável, mas o cheiro era outra história. Uma espécie de carne assada, mas que ele nunca… J. J. parou com aqueles pensamentos. Sua fome estava controlada há muito tempo e a cicatriz vinha deixando-o em paz. Seus problemas de morto-vivo pareciam ser um assunto do passado.

A coisa abriu os olhos e olhou diretamente para Jones.

Ele pulou para trás, com o susto. Não tanto por medo. Já estava acostumado, foi mais o espasmo que a pessoa –ou coisa – sofreu ao abrir os olhos. Duas piscinas azuis em um rosto totalmente desfigurado pelo fogo. Seria uma mulher? Não conseguia deduzir. Com certeza estava viva. E tentava falar:

- N-necessário… foi… necessário.

A voz parecia queimada, também. Não dava para definir se era homem ou mulher. Qualquer vestígio de identificação o fogo havia levado. J. J. não sabia o que fazer, nem o que dizer. Era uma daquelas situações que ele sabia ser impossível qualquer ajuda. O que quer que tenha acontecido ali, ele não participara. Pelo menos desta vez.

Mesmo que a pessoa parecesse calma e sem sofrimento, apesar de seu aspecto e estado, J. J. achou que só havia uma coisa que poderia fazer por ela. Retirou um de seus revólveres e aponto para a pessoa. E, com o dedo indicador da outra mão, apontou para a arma e fez uma expressão de quem pergunta, “é o que deseja?”.

- N-não. Ainda falta… um.

Ah, não, pensou Jones. Eu só passei por aqui algumas vezes. Nem mesmo morei aqui, só fiquei alguns dias, no máximo. Por que essas coisas sempre tem que me perseguir? O que aconteceu aqui?!

Tão distraído que estava, J. J. não percebeu de imediato, como a pessoa começou a se recompor, se regenerar. De início, muito devagar. mas, conforme J. J. se dava conta do que o esperava, a coisa foi acontecendo mais rápido. Quando ele finalmente saiu de seu estupor, a coisa estava completamente restituída. A índia nua de profundos olhos azuis estava em pé, encarando-o. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela o agarrou pelo pescoço com as duas mãos:

- Era necessário, forasteiro. Era necessário. A cidade toda precisava pagar. Olho por olho, fogo com fogo. Eu nasci do fogo que levou minha mãe, minha família, minha aldeia. Aldeia por aldeia.

- O-onde estão… as… pessoas? – perguntou, sufocando, Jones.

- Não estão.

- Eu… acho que lembro da história. – isso fez a índia afrouxar as mãos. 

– Pensei que era apenas uma lenda para assustar crianças. O fundador de Old Cow City  teria tomado essas terras de índios, de uma tribo desconhecida, pequena. Falava-se em terem queimado todos, incluindo… uma índia grávida.

- Old Cow, era como meu avô a chamava, em sua língua.

- Mas… foi há muito tempo. Essas pessoas, elas.. elas nem lembram… não são… não eram culpadas.

- Forasteiro… todos… são… culpados.

E, dito isso, seus olhos de um azul estranho, foram preenchidos por um buraco negro, cada um, sua boca se abriu, suas mãos esquentaram e Jones se preparou para morrer queimado. Era isso, todos eram culpados. Ela estava presa ali, à cidade, à sua tribo, e matava a todos que por ali passavam.

Esse foi o último pensamento que passou por sua mente, ao sentir o fogo preencher o mundo, o espaço, cada átomo de seu corpo. Era uma dor bem-vinda. Era libertador. Fogo purificador. Sentia que, no fundo merecia isso. Todos… nós.

Sentiu as mãos da índia o largarem no chão. Uma massa disforme, carne queimada e apodrecida. Mas, como podia estar pensando ainda? Abriu os olhos e sentiu os fiapos chamuscados de roupa revoarem de seu corpo. O vento fresco o banhava e ele sentia… ele sentia que chorava. As lágrimas desciam por seu rosto e quase evaporavam. Todo seu corpo ainda fumegava, mas ele estava vivo, e bem. Só queria conseguir parar de chorar. Ela se fora.

- Onde estão as pessoas? – ecoou a pergunta em sua cabeça.

- Não estão – ele lembrou da resposta.

Foram embora. Não pertenciam mais àquele lugar. Nem conseguia imaginar como centenas e centenas de pessoas saíram vagando por aí, conscientes de que eram culpadas de alguma coisa. Nuas, talvez, como ele estava agora. Nu para si mesmo.

O chão a sua volta estava chamuscado. Chase estava seguro ao longe. Parecia assustado, mas conformado. J. J. tentava parar as lágrimas, mas sabia que elas ainda iam durar mais um pouco. Pegou uma roupa no alforje  e se vestiu. Queria ir embora, mas também queria ficar. Saber mais, ser purificado totalmente. Talvez esta fosse a vingança: tornar-se consciente de si mesmo, de seus pecados, e não conseguir perdão para eles.

- Vamos embora, Chase.

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