HISTÓRIA E GLÓRIA DA DINASTIA PATO
E A DITADURA MILITAR NO BRASIL
Digitalizações e Tratamentos: Out,The Sider Z/HORDA Inc.
Vamos falar sobre censura nos tempos da Ditadura Militar. Mas, não pense que é sobre a censura a programas de TV, a artistas e suas músicas "subversivas" ou a filmes de cinema escandalosos, é a censura a quadrinhos direcionados primariamente a crianças, os quadrinhos da Disney publicados pela editora Abril.
Hoje em dia, nós, nerds, sabemos que a grande maioria dos quadrinhos da nossa época, principalmente os da editora Abril, eram tesourados. Nos quadrinhos de super-heróis, isso tinha muito a ver não apenas com censura, mas com falhas de tempo entre a publicação nos EUA e aqui, o que criava problemas na cronologia das histórias.
Outro problema era justamente o formato menor. O formato americano, ao ser reduzido para o formatinho, exigia que os textos também fossem mais reduzidos nos balões. O caso mais emblemático de censura, que provavelmnet já era de uma censura interna da própria editora Abril, haja visto a ditadura já estar em decadência, foram as cenas entre Tristã (Tristão em corpo de mulher) e Isolda em Camelot 3000, que foram deletadas.
Quanto à censura da ditadura propriamente dita, deixemos a EditoralAbril nos falar sobre ela um pouco, em parte do texto publicado das reedições História e Glória da Dinastia Pato:
"A saga dos patos estreou em português na edição 108 de Tio Patinhas, lançada em julho de 1974. Em plena ditadura militar e sob a vigência do AI-5 (um dispositivo arbitrário que dava plenos poderes ao governo federal e aos seus truculentos agentes), as editoras enfrentavam a marcação cerrada da censura e, caso o conteúdo de suas publicações desagradasse aos generais de plantão, corriam o risco de ver seus produtos recolhidos das bancas.
Conforme a gravidade da situação , outras sanções mais contundentes eram aplicadas, incluindo prisão e tortura de supostos transgressores. Esse contexto sombrio ajuda a explicar os cortes e as alterações que o material ITALIANO sofreu na versão nacional.
Logo no início do primeiro episódio, por exemplo, artistas brasileiros apagaram da mão de Donald o batedor de tapetes com que ele ameaçava espancar os sobrinhos. Mais adiante, na viagem espacial, os responsáveis pela edição do texto suprimiram a menção à bebida alcóolica que o Prof. Pardal oferece ao Tio Patinhas.
Em respeito à intenção dos autores, a obra aparece intacta neste volume (a reedição em dois volumes). E o título Ribombo Lunar, fiel ao original, substitui aqui o nome O Segredo do Baú, dado a HQ em 1974."
Provavelmente a Abril já praticasse a auto-censura, se adiantando assim aos desmandos da ditadura, como fizeram por bastante tempo os editores de quadrinhos dos EUA unidos durante o uso do selo Comics Code Authority que, para não perder dinheiro, já faziam eles mesmos os cortes necessários, nesta ditadura imposta aos artistas graças ao psiquiatra Fredric Wertham.
Também cortaram várias páginas inteiras, num total de 26. Oito páginas,na história No Mississipi, renomeada Os Canhões do Missisipi no lançamento duplo e 18 páginas no capítulo final num total de 26 páginas. Quando os capítulos foram reunidos em um Disney Especial, o de número 100, essas páginas cortadas fizeram falta, já que a coleção Disney Especial devia ter um número de páginas que a saga, por causa dos cortes, não alcançava. A solução? Os artistas brasileiros tiveram que inventar um novo capítulo intitulado A Quinta Mosqueteira, com a participação da Margarida. Este capítulo não se encontra na reedição dupla, pois as páginas que faltavam foram restauradas.
O que essa história toda vem nos mostrar é a arbitrariedade daqueles tempos, que viam até mesmo em histórias infantis, produzidas em outro país, uma ameaça à segurança nacional. Para se ter uma ideia da paranoia, uma das histórias se chamava originalmente, "O Rei da Arena", mas foi intitulada, em 1974, "O Grande Toureiro". É bem provável que a mudança do título se desse porque Arena era o nome do partido da ditadura.
Este artigo é uma espécie de remake de um que fiz em 2012, e achei importante trazê-lo de volta. Não é apenas um copy/paste, então, se quiser lero original, ele continua AQUI. Eles se complementam.
Também serviu para eu repostar os scans, que servem para que você mesmo faça suas comparações e se "divirta" vendo o quanto perdemos quando crianças e o quanto podemos perder agora, quando adultos. Afinal, não podemos nos deixar ser feitos de... patos.






















































