EU, EU MESMO E O CARNAVAL: LEMBRANÇAS DO LOTE XV
Eu nunca fui alguém que gostasse de Carnaval tanto assim. Mas, quando se é criança, tudo é festa, principalmente... festa. O Carnaval mais próximo era no bairro Lote XV - sempre ele -, pois era o bairro mais movimentado de toda aquela área onde eu morava. E isso já durava muitos e muitos anos.
Não era bem um bloco, parecia mais um baile de carnaval a céu aberto, que ocupava toda a avenida principal. Começava já de noite. Lmebor que fui muitas vezes. Eu não ficava exatamente pulando carnaval. Havia o pessoal que dançava ali na avenida em si, e as pessoas que ficavam nas margens, mais apreciando. Eu era do segundo time.
Certa vez, minhas tias tentaram fazer com que eu fizesse parte do desfile, pois tiveram a ótima ideia de me maquiar de palhaço. Sendo muito pequeno, esse tipo de decisão não cabe muito a você. Então, pegaram minha cara e cobriram totalmente, me deixando parecendo... um palhaço. E lá fui para a festa.
Não lembro se fiquei dançando, pulando, ou seja lá o que fosse. Só sei que a coisa toda começou a dar errado. Era uma noite de calor, e eu comecei a suar naquela maquiagem espessa. Eu queria coçar, e não podia, pois iria borrar tudo. Mas, quanto mais eu tentava não coçar, mais eu queria coçar. Por fim, não aguentei aquilo e sai correndo para casa - a casa de meus avós, que era perto - e lavei o rosto desesperadamente para tirar aquela desgraça que, com certeza, eu nunca mais iria repetir em minha vida.
O mais incrível disso tudo é que, mesmo sendo muito pequeno, muito novo, eu simplesmente estava lá, no meio de todo mundo, praticamente por minha, sozinho. Meus tios e tias iam, às vezes minha mãe também, mas a gente não costumava ficar parados perto deles. Ficávamos subindo e descendo pela avenida, acompanhando todo mundo, às vezes ali no meio, a maioria das vezes à margem.
Isso é algo tão longínquo na minha memória, que lembro deixar de ir ainda criança,pois não tenho recordações de participar quando era adolescente. E aquilo foi o máximo de carnaval que eu suportei. Lembro que uma vez nos levaram a uma matiné, um baile de carnaval para crianças no único clube que tinha ali mesmo, no Lote XV. Me senti preso, quase com claustrofobia. Detestei. Não era como o carnaval lá de fora, onde me sentia livre para me divertir, sem paredes.
Quem mais se divertia eram meus tios e tios, a maioria na adolescência ou entrando na idade adulta. Meu tio Sálvio - o Professor Pardal da família - certa vez construiu uma "câmera" feita de papelão, e fingia filmar as pessoas, que também entravam na brincadeira. Eu via aquilo e morria de rir.
Era um tempo aparentemente mais simples. Ou talvez fôssemos apenas mais ingênuos mesmo, sem nos dar conta dos perigos. Hoje em dia não tenho essa mesma disposição para com o Carnaval, acho que gastei tudo nesta infância feliz, que insistia em ver o mundo como uma constante folia.