ANNO DRACULA - KIM NEWMAN
Fiquei sabendo do livro Anno Dracula, de Kim Newman, devido a outro livro que comprei, com o mesmo tema: Dossiê Drácula de James Reese. Explico melhor. Quando comecei a ler Dossiê Drácula logo antipatizei com o livro que, apesar da boa premissa, mostrava-se muito burocrático pro meu gosto. A idéia de colocar Bram Stoker perseguindo Jack, O Estripador, era ótima, mas achei a narrativa extremamente chata e nem mesmo prossegui com a leitura.
Tendo essa opinião, eu a expressei no Twitter e alguém - não lembro quem - me perguntou se eu já havia lido Anno Dracula. Me disseram que a idéia era mais ou menos parecida, só que melhor. Procurei mais informações e, realmente, parecia muito melhor. Porém, eu não encontrava o livro em lugar algum. Meio escaldado por Dossiê Drácula, não fiz questão de procurar em lojas on line. O dia que aperecesse na minha frente, eu o adquiriria. E, meses depois, isso aconteceu.
Talvez eu tenha que agradecer à descoberta de Anno Dracula a duas pessoas: quem me indicou o livro no Twitter e a Stephanie Meyer (a autora da famigerada Saga de Crepúsculo). Sim, você leu certo. Afinal, Anno Dracula é um livro publicado originalmente em 1992, publicado aqui no Brasil apenas em 2009. Só posso atribuir esse súbito interesse em publicar um livro tão esquecido à febre "crepuscular". Ou seja, tudo que se refere a vampiros começou a ser publicado. E, assim, pude ler essa obra prima da literatura de entretenimento.
As três palavras que Neil Gaiman usa para descrever o livro - "refinado, brilhante, único" - resume bem o que senti ao lê-lo. Anno Dracula é um livro que diverte de uma forma refinada. O escritor cria um universo paralelo usando personagens do livro de Bram Stoker e da literatura inglesa de uma forma impressionante. Chego a me perguntar se Alan Moore não se "inspirou" nas idéias de Newman para criar sua Liga Extraordinária. Afinal, Newman parece ter até mesmo uma certa ligação com os quadrinhistas ingleses, tendo trabalhado inclusive com Neil Gaiman em um livro escrito, conjuntamente.
Anno Dracula é, primeiramente, baseado em Dracula de Bram Stoker. Newman muda o destino do vampiro, colocando-o como marido da regente da Inglaterra, a Rainha Vitória. Com isso, vampiros e humanos convivem pacificamente, ao menos sob a superfície. Muitos humanos se transformaram em vampiros por vontade própria, alguns até mesmo pagando para isso. Agora há esta nova realidade onde "quentes" (os humanos) e "renascidos" (os vampiros) forma uma nova sociedade, onde Dracula agora é o Príncipe Consorte.
A nossa história se passa três anos depois dos eventos do livro de Bram Stoker. Nesta nova realidade alguém esta matando prostitutas-vampiras e as autoridades não conseguem capturar o assassino. Conhecido como "Faca de Prata" e depois como Jack, O Estripador, o assassino não é nenhum mistério para o leitor. Seu nome é revelado logo nas primeiras páginas e ele também vem das páginas do livro de Bram Stoker.
Neste cenário, uma vampira mais antiga que o próprio Drácula - Genevieve Dieudonné - trabalha em um hospital que atende tanto humanos como vampiros. Por seus conhecimentos em medicina ela é chamada pela polícia para ajudar no caso. Logo ela vai esbarrar em Charles Beauregard, investigador convocado por um tal Clube Diógenes, formado em sua maior parte por humanos. O Clube responde à Rainha Vitória.
Drácula é citado a maior parte do tempo, mas quase não aparece. A ação é centrada em Geneviéve e Charles e em tudo que acontece com os dois, separadamente ou quando estão juntos. As motivações do Estripador também nos são mostradas, sendo que esses capítulos são narrados na primeira pessoa.
Charles e Geneviéve são personagens originais de Kim Newman e são quase os únicos. Permeiam o livro personagens da literatura inglesa e também da vida real - como o próprio Jack, O Estripador -, com direito até a citação de personagens reais do Velho Oeste. O que poderia se transformar numa colcha de retalhos sem muito sentido, nas mãos de Newman se transforma em algo novo, exatamente como quando um humano se transforma em vampiro. O livro é um clássico por si só.
Desfilam pelas páginas de Anno Drácula, a esposa de Bram Stoker (Stoker é apenas citado, assim como Sherlock Holmes), Dr. Jekyll (seu alter-ego é citado, mas não aperece), Dr. Moreau (Jekyll e Moreau aparecem em uma "cena" juntos, conversando com os protagonistas), Fu Manchu, Graf Von Orlok (sim, do filme Nosferatu. Newman não se apega apenas à literatura), e muitos outros personagens que aparecem em ação ou são apenas citados.
Os personagens (tanto os originais, quanto aqueles retirados da literatura que têm uma grande participação) são profundos, e acompanhamos não apenas suas aventuras, como também seus dramas. Talvez a personagem mais intrigante seja Geneviéve Dieudonné, uma vampira com vários séculos de idade, que foi transformada aos 16 anos e que tem sua prórpia opinião sobre Drácula e seu reinado.
Trabalhando no hospital que fica nos arredores de onde acontecem os assassinatos, Dieudonné acompanha o drama dos novos "renascidos", inclusive de crianças transformadas em vampiras, que não sabem como usar seus poderes, tentando se transformar em outros animais, como o Príncipe das Trevas faz, sem muito sucesso. Um dos capítulos mais tocantes é de Dieudonné no hospital, com uma menina-vampira.
Newman dá sua própria interpretação para os mitos que envolvem os vampiros, como a Cruz, alho, entre outros. Mas não é nada bobo, e procura não tentar dar explicações para coisas como a falta de reflexo. Como diz Dieudonné a Charles: "Talvez haja um pouco de magia".
Por fim, Anno Dracula é diferente de muitos livros que tem a intenção de entreter. Alguns livros são como aquele vinho que você compra no supermercado para beber todo, de uma vez só, sem se importar com a marca, o ano ou seja lá o que for. Livros como Anno Dracula são como aquele vinho que você compra, escolhendo cuidadosamente, pagando um pouco mais, para saborear aos poucos, sentindo cada milímetro do que está bebendo.
A única decepção com Anno Dracula não é exatamente com o livro, mas com a Editora Aleph. Na orelha somos informados que o autor ainda escreveu mais dois livros, como continuação (The Bloody Red Baron e Dracula Cha Cha Cha) e, pelo andar da carruagem (Anno Dracula foi publicado aqui em 2009), não as teremos no Brasil, pelo menos não pela Editora Aleph. Provavelmente porquê ninguém no livro brilha.
Tendo essa opinião, eu a expressei no Twitter e alguém - não lembro quem - me perguntou se eu já havia lido Anno Dracula. Me disseram que a idéia era mais ou menos parecida, só que melhor. Procurei mais informações e, realmente, parecia muito melhor. Porém, eu não encontrava o livro em lugar algum. Meio escaldado por Dossiê Drácula, não fiz questão de procurar em lojas on line. O dia que aperecesse na minha frente, eu o adquiriria. E, meses depois, isso aconteceu.
Talvez eu tenha que agradecer à descoberta de Anno Dracula a duas pessoas: quem me indicou o livro no Twitter e a Stephanie Meyer (a autora da famigerada Saga de Crepúsculo). Sim, você leu certo. Afinal, Anno Dracula é um livro publicado originalmente em 1992, publicado aqui no Brasil apenas em 2009. Só posso atribuir esse súbito interesse em publicar um livro tão esquecido à febre "crepuscular". Ou seja, tudo que se refere a vampiros começou a ser publicado. E, assim, pude ler essa obra prima da literatura de entretenimento.
As três palavras que Neil Gaiman usa para descrever o livro - "refinado, brilhante, único" - resume bem o que senti ao lê-lo. Anno Dracula é um livro que diverte de uma forma refinada. O escritor cria um universo paralelo usando personagens do livro de Bram Stoker e da literatura inglesa de uma forma impressionante. Chego a me perguntar se Alan Moore não se "inspirou" nas idéias de Newman para criar sua Liga Extraordinária. Afinal, Newman parece ter até mesmo uma certa ligação com os quadrinhistas ingleses, tendo trabalhado inclusive com Neil Gaiman em um livro escrito, conjuntamente.
Anno Dracula é, primeiramente, baseado em Dracula de Bram Stoker. Newman muda o destino do vampiro, colocando-o como marido da regente da Inglaterra, a Rainha Vitória. Com isso, vampiros e humanos convivem pacificamente, ao menos sob a superfície. Muitos humanos se transformaram em vampiros por vontade própria, alguns até mesmo pagando para isso. Agora há esta nova realidade onde "quentes" (os humanos) e "renascidos" (os vampiros) forma uma nova sociedade, onde Dracula agora é o Príncipe Consorte.
A nossa história se passa três anos depois dos eventos do livro de Bram Stoker. Nesta nova realidade alguém esta matando prostitutas-vampiras e as autoridades não conseguem capturar o assassino. Conhecido como "Faca de Prata" e depois como Jack, O Estripador, o assassino não é nenhum mistério para o leitor. Seu nome é revelado logo nas primeiras páginas e ele também vem das páginas do livro de Bram Stoker.
Neste cenário, uma vampira mais antiga que o próprio Drácula - Genevieve Dieudonné - trabalha em um hospital que atende tanto humanos como vampiros. Por seus conhecimentos em medicina ela é chamada pela polícia para ajudar no caso. Logo ela vai esbarrar em Charles Beauregard, investigador convocado por um tal Clube Diógenes, formado em sua maior parte por humanos. O Clube responde à Rainha Vitória.
Drácula é citado a maior parte do tempo, mas quase não aparece. A ação é centrada em Geneviéve e Charles e em tudo que acontece com os dois, separadamente ou quando estão juntos. As motivações do Estripador também nos são mostradas, sendo que esses capítulos são narrados na primeira pessoa.
Charles e Geneviéve são personagens originais de Kim Newman e são quase os únicos. Permeiam o livro personagens da literatura inglesa e também da vida real - como o próprio Jack, O Estripador -, com direito até a citação de personagens reais do Velho Oeste. O que poderia se transformar numa colcha de retalhos sem muito sentido, nas mãos de Newman se transforma em algo novo, exatamente como quando um humano se transforma em vampiro. O livro é um clássico por si só.
Desfilam pelas páginas de Anno Drácula, a esposa de Bram Stoker (Stoker é apenas citado, assim como Sherlock Holmes), Dr. Jekyll (seu alter-ego é citado, mas não aperece), Dr. Moreau (Jekyll e Moreau aparecem em uma "cena" juntos, conversando com os protagonistas), Fu Manchu, Graf Von Orlok (sim, do filme Nosferatu. Newman não se apega apenas à literatura), e muitos outros personagens que aparecem em ação ou são apenas citados.
Os personagens (tanto os originais, quanto aqueles retirados da literatura que têm uma grande participação) são profundos, e acompanhamos não apenas suas aventuras, como também seus dramas. Talvez a personagem mais intrigante seja Geneviéve Dieudonné, uma vampira com vários séculos de idade, que foi transformada aos 16 anos e que tem sua prórpia opinião sobre Drácula e seu reinado.
Trabalhando no hospital que fica nos arredores de onde acontecem os assassinatos, Dieudonné acompanha o drama dos novos "renascidos", inclusive de crianças transformadas em vampiras, que não sabem como usar seus poderes, tentando se transformar em outros animais, como o Príncipe das Trevas faz, sem muito sucesso. Um dos capítulos mais tocantes é de Dieudonné no hospital, com uma menina-vampira.
Newman dá sua própria interpretação para os mitos que envolvem os vampiros, como a Cruz, alho, entre outros. Mas não é nada bobo, e procura não tentar dar explicações para coisas como a falta de reflexo. Como diz Dieudonné a Charles: "Talvez haja um pouco de magia".
Por fim, Anno Dracula é diferente de muitos livros que tem a intenção de entreter. Alguns livros são como aquele vinho que você compra no supermercado para beber todo, de uma vez só, sem se importar com a marca, o ano ou seja lá o que for. Livros como Anno Dracula são como aquele vinho que você compra, escolhendo cuidadosamente, pagando um pouco mais, para saborear aos poucos, sentindo cada milímetro do que está bebendo.
A única decepção com Anno Dracula não é exatamente com o livro, mas com a Editora Aleph. Na orelha somos informados que o autor ainda escreveu mais dois livros, como continuação (The Bloody Red Baron e Dracula Cha Cha Cha) e, pelo andar da carruagem (Anno Dracula foi publicado aqui em 2009), não as teremos no Brasil, pelo menos não pela Editora Aleph. Provavelmente porquê ninguém no livro brilha.