RAPADURA AÇUCARADA: 14 ANOS DE COMPARTILHAMENTO
Porque se fosse planejado nada disso teria dado certo
Eu estava com 33 anos quando tudo isso começou, 14 anos depois estou com 47 e ainda sinto como se estivesse lá, naquele começo em 21 de novembro de 2002.
Era um tempo sem Facebook, sem Whatsapp e sem a internet rápida como ela é hoje. Mesmo já tendo enveredado pelos caminhos dos blogs uma ou duas vezes, a verdade era que o formato não me chamava muita atenção. As tentativas anteriores foram apenas para "ver o que era aquela nova mania", mais nada. Eu ainda preferia ficar conversando com o povo pela rede social daquele tempo: o Outlook. Para quem é jovem demais para saber o que é, era o software para envio e recebimento de e-mails. Nem sei se ainda existe.
O fato era que, por ele era possível acessar os canais de troca de ideias sobre vários assuntos do UOL, entre eles, o de cinema. Era como uma mesa de bar, onde falávamos de tudo, menos de cinema. Não lembro como cheguei ali. Talvez tenha sido fuçando o Outlook. Assim, acabei fazendo parte de uma gangue que praticamente tomou conta daquele "lugar". Se algum desavisado entrasse ali para falar de cinema, não entenderia nada.
Então pode se dizer que aquilo foi o embrião do que viria ser o Rapadura Açucarada. Do mundo primitivo onde se reuniam Sérgio Martorelli, Maurício Bumba, Fábio Negro, Luci (que todo mundo que chegava pensava que era mulher), entre tantos outros, foi que a ideia do blog foi surgindo em minha mente.
Claro, além de "morar" ali, eu navegava pela internet e minhas experiência eram com grupos de apoio a Síndrome do Pânico, ex-Testemunhas de Jeová, sites e blogs de links e de humor. Os nomes de alguns deles me faziam rir sozinho, como por exemplo, o Dedada Digital (de pornografia) e o blog Passeata Solitária, de prosa e um pouco de humor. Assim, quando decidi que teria um blog permanente, queria que o nome dele não deixasse por menos em relação a esses.
Na época eu assinava OutsiderZ, que todo mundo devia ler como Outsiders, mas, para mim, era Outsider Zê. Lógica pra quê, né? E, acho que ninguém nem sabia que meu nome era Eudes. Então o blog foi criado pelo OutsiderZ. Apelido que criei pensando no grupo Os Renegados, do qual Batman era o líder.
Mas, como ia dizendo, eu precisava de um nome para o blog. Um que eu gostasse de verdade. Os nomes de sites e blogs mais interessantes eram os mais engraçados e sempre pareciam envolver algum tipo de pleonasmo ou contradição, como os já citados Dedada Digital e Passeata Solitária. Coloquei na cabeça que deveria ser algo nesse estilo. Depois de pensar um pouco, surgiu... Rapadura... Açucarada.
As plataformas para blogs mais conhecidas na época eram o Blig (do IG), que era terrivelmente ruim, e o Weblogger (do Terra). Escolhi o segundo e fiz o blog, que não tinha muita sofisticação. Na verdade, eu não sabia o que iria postar. Então, resolvi que seria qualquer coisa, mesmo que eu não soubesse o quê, ainda.
Confesso que, se não fosse o pessoal do UOL.Cinema, provavelmente o RA não existiria hoje. Como já tinha tentado outras vezes, eu desisti, mas porque não tinha visita alguma que incentivasse a continuação. Desta vez, por mais loucos que fossem, aqueles caras sabiam incentivar um blog que não tinha praticamente nada a dizer.
Eu colocava algumas imagens, piadas, frases. Nada que chegasse aos pés de hoje em dia. Era só um mero passatempo sem nenhuma direção. E assim foi de novembro até janeiro ou fevereiro. Era um recorde impensável. Mas, sem o que viria depois, por acidente, o blog com certeza teria morrido. E essa é a incrível origem que sempre gosto de contar quase todo ano:
Conversando com o pessoal lá no UOL.cinema, eu falei de uma história do Deadpool que li em uma HQ que comprei. Disse como morri de rir com o fato de o anti-herói ter viajado no tempo indo parar no passado do Homem-Aranha, numa história da época do John Romita e que quando ele vai para esse passado, tudo se torna johnromitizado, Era uma história antiga em que o Aranha enfretava o Kraven e a chegada do Deadpool tornava tudo hilário.
Ele se disfarçava de Peter Parker (sem saber que o mesmo era o Homem-Aranha), depois de aterrisar em cima da Tia May. O que vem depois é apenas Deadpool caindo na pele dos personagens e de suas esquistices da época, incluindo o cabelo dos Orborns.
A parte seguinte lembro perfeitamente: Fábio Negro, um os inscritos disse então, "ora, escaneia uma página aí e manda pra gente ver como é". Eu realmente tinha um scanner, mas, o único problema era que eu nunca o tinha usado uma única vez sequer. Em resumo, eu não sabia como aquilo funcionava. Lia e eu compramos por pura avidez de tecnologia. Mas, não custava tentar.
Quando escaneei a página que ele pediu, foi como se um scanner radioativo me picasse. De repente um flashback aconteceu: me lembre que vários meses antes eu baixara algumas HQs num formato que eu nunca tinha visto antes, páginas digitalizadas, uma a uma. Coisas como Marvels e 300 de Esparta, num site chamado Toca do Carcaju.
lembrei també que, pouco tempo depois, o site foi notificado pela Editora Abril a cessar com aquelas atividades...e cessou. E eu nunca mais pensei no assunto... até aquele momento crítico. A Editora Abril não era mais detentora dos direitos de Marvel e DC, então eu pensei... ora, porque não?
E assim o blog ganhou um caminho, um objetivo e, mesmo sem eu saber ou planejar nada, eu também ganhei com isso. Afinal, justamente naquele mês, havia começado meu tratamento contra Síndrome do Pânico. Mais um entre muitos que tentei durante 12 anos. Indo de 1990 até o final de 2002. Nada funcionava, nada fazia as crises pararem. Coincidência ou não, assim que entrei de cabeça nos scans, preenchendo um espaço com algo que eu realmente estava fazendo porque queria e não porque precisava, as crises simplesmente pararam.
O ano de 2003 se tornou pequeno. Sete ou oito meses pareceram anos e anos. Novamente a ajuda do pessoal do UOL.Cinema foi essencial. Eles agora não apenas apoiavam visitanto o blog, mas ativamente. Dali saíram as primeiras contribuiçoes para o blog.
Não demorou muito e resolvi que ia traduzir HQs que foram canceladas depois de pouco tempo de publicação: Planetary e Authority. Os louco de lá me ajudaram conseguindo os scans no inglês original, algo que eu não fazia ideia de como conseguir, e eles sabiam, pois já baixavam scans pelo eterno DC++. Aqui, no entanto, os scans viviam fechados em panelinhas. Por isso, sei muito bem que não fui o "inventor do scan" por aqui, mas ao menos, mesmo sem querer, eu fiz com que todo mundo ficasse sabendo da sua existência. Eu e os caras que enviavam as traduções, os scans originais, as revisões e, pasmem, começaram a fazer seus prórpios scans e suas próprias traduçõe s enviarem.
Infelizmente é impossível eu lembrar o nome de todos, sem contar que foram muitos, dezenas, quiçá mais do que isso. Um do primeirosa enviar traduções foi Thiagaum que, com a ajuda de mais outros, logo começaram seu próprio blog especializado apenas em traduções: o Immateria, nome baseado justamente em uma HQ traduzida, Promethea de Alan Moore.
E mais e mais blogs, sites e fóruns eram iniciados. Era como uma semente, que nem mesmo fui eu, mas que não parava de germinar e criar mais sementes.
Manter os links para download era um problema. Acho que devo ter usaod mais de 10 lugares diferentes, até que em outubro e novembro recebi o mesmo aviso que A Toca do carcaju. Ou quase o mesmo. Eu estava pagando um lugar para alocar os arquivos e o servidor recebeu uma notificação. Até hoje louvo a atitude deles de não terem apagado tudo de imediato, mas vieram a mim e perguntaram o que deveriam fazer. Eu confesso que estava cansado de pular de lugar em lugar e disse simplesmente para apagarem. E, com medo de mais problemas, eu parei.
Por muito pouco eu não deletei o blog que, a esa altura já estava no Blogger da Globo. com. Mas, eu não tive coragem. Tinha sido um ano de muito trabalho, o blog se tornara conhecido nacionalmente, tendo saído em jornais e revistas. Parecia errado dar um fim nele. E eu decidi prosseguir, fosse lá como fosse.
Eu decidi que ia colocar links, mulheres, poesias, contos, memórias, imagens, vídeos, piadas, frases. Ele ia voltar ao que era no começo, só que desta vez eu sabia como fazer. Obviamente, a audiência caiu, mas quem ficou, ficou porque estava acostumado com aquele lugar construído por loucos. As caixas de comentários eram verdadeiros fóruns, mesmo que fosse apenas para xingarem uns aos outros ou aos meus poemas. E, por incrível que pareça, ele ainda tinha a mesma força.
Não sei quanto tempo demorou. Talvez um ano. Só sei que voltei com os scans. E agora eu não era estava mais sozinho. havia dezenas de novos blogs, sites e fóruns de scans. Alguns deles nem mesmo conheciam o RA, pois se passara muito tempo. Eles tinham sido inspirados por lugares como GibiHQ e Indigo Sunset.
Eu podia agora manter um ritmo diferente e podia também mesclar os scans ao que eu fiz naquele meio tempo. O blog que nasceu sem direção, agora ia para todas as direções. E eu também.
E, como num piscar de olhos, 14 anos se passsaram. Hoje em dia temos colaboradores que estão deixando sua marca, com contribuição de material de primeira qualidade. Temos o Sabrewulf, o Renato P., o freelancer Alan B. e o "novato" Gr. Machado. Sem eles, o blog não estaria recheado assim.
O blog nunca teve lucro, nem terá, pois esse é o sentido do compartilhamento. Nunca pedi doações e as que tive, em forma de quadrinhos, se não os digitalizei, revendi e comprei outros que precisava para digitalizar.
Também vi muita gente começar ou voltar a ler quadrinhos por causa dos scans e este foi o maior lucro que eu tive. A leitura é uma paixão. É algo que deve ser incentivado. E ser o responsável por uma parte mínima desse incentivo, vale mais do que dinheiro... e até do que ouro.
Portanto, enquanto eu puder, estarei aqui.
P.S.: Teremos o presente de todo ano, só vai demorar um pouco, pois ando meio ocupado. Vocês não vão perder por esperar.