RAPADURA AÇUCARADA: 15 ANOS DE COMPARTILHAMENTO
Há muito, muito tempo, numa blogosfera muito distante...
Quinze anos, hein? Se eu paro para pensar muito no assunto, parece algo extremamente impossível. E seria, se eu não tivesse a ajuda das pessoas certas. Afinal, uma coisa que poucos sabem, é que o Rapadura Açucarada deveria ter acabado antes de completar um ano. Era para ter sido morto e enterrado e, provavelmente, poucos lembrariam dele, além de mim.
O fato é qu ele começou apenas como mais uma tentativa de entrar na onda dos blogs, lá nos idos de 2002. Eu cheguei a participar de um e aí, depois tentei fazer o meu, que nem lembro o nome, e o Rapadura Açucarada foi algo como a terceira tentativa. Mas, eu não sabia muito o que colocar. Não sabia criar conteúdo que fizesse valer a pena visitá-lo. Assim, apenas meus amigos virtuais, que viram ele nascer, o visitavam por farra. Não ia durar muito. Era novembro.
Primeiros logotipos que tivemos
Lá pelo começo de 2003, veio a grande mudança. Aquilo que mudaria tudo: os scans. Deixou de ser apenas um blog, para ser uma casa, um lar. E eu estava gostando dele. Muitas pessoas apareciam para visitar e, em pouco tempo, outras vinham com suas contribuições. Mas, foi algo meteórico e, como um meteoro, queimou rapidamente.
Quando estava perto de completar um ano, fui obrigado a parar de colocar scans por motivo de força maior. O lugar onde eu pagava para que fossem hospedados os arquivos - depois de tentar trocentas maneiras gratuitas e sempre dar errado - me avisou que havia sido avisado para retirar as HQs. Até hoje acho incrível a atitude deles de me perguntaremo que deveriam fazer. Eu disse, "pode mandar pro espaço". E comecei a me preparar para deletar o blog.
Preparando uma HQ para digitalização
Mas, antes de manda ro RA para a inexistência eu raciocinei que levei um bom tempo para inventar o nome do blog ao qual acabei me apegando. Então, seria difícil simplesmente deletá-lo. Achei melhor continuar com ele e colocar qualquer coisa que me viesse a cabeça, e asim foi. Desde poemas - que a maioria dos visitantes execrava - até mulheres nuas, desde links para vídeos - era pré-Youtube - até memórias de minha infância. Também comecei a me aventurar pelo território da litratura e escrevia vários contos, entre eles os do estimado Jerusalem Jones, minha criação que nasceu aqui e virou até um pequeno livro.
Tive também o prazer - ou não - de criar e administrar o saudoso FARRA que nada mais era que um filhote do RA. Por três anos ele acabou me tomando mais tempo que o próprio blog, que ficou em segundo plano, até que fui obrigado a terminá-lo em 2010. Ao menos terminá-lo como um fórum de downloads. Depois dele vieram os blogs para compartilhamento de filmes Aspas Noir e Supersônico a Carvão. Que também fazem parte do passado agora.
Mas, toda essa história não começou há 15 anos atrás. Começou há muito mais tempo, quando eu ainda era um garoto que nem sabia ler. Começou quando uma de minhas tias me deu uma pilha de gibis que eu só podia ver as figuras. Mas, eu logo fiquei apaixonado e sabia que queria aquilo para a vida toda.
Começou também quando minha mãe chegou em casa, alguns anos mais tarde e retirou da bolsa de compras, algo que eu nem pedi a ela para comprar: um gibi do Mestre do Kung Fu. Até hoje me pergunto como ela escolheu aquele e por que. Só sei que ali foi onde eu realmente entre no mundo dos quadrinhos para valer.
O tempo andou mais um pouco e agora eu tinha 12 anos e trabalhava já há mais de um ano. Já podia eu mesmo comprar minhas revistas sem incomodar minha mãe. Eu acordava às cinco da manhã e ia para o trabalho na padaria que ficava distante de casa e perto da única banda de jornal de toda aquela área. Comprando gibis lá toda manhã, antes de ir trabalhar, eu acabei ficando conhecido. Eu nem mesmo esperava mais as revistas serem arrumadas, simplesmente entrava na Kombi de entrega, abria os pacotes e pegava as que eu queria. E fiado.
E assim eu comprava, trocava, emprestava e vendia gibis. Era algo que estava mais do que entranhado e, mesmo depois que me meti em religião durante longos sete anos, ainda assim eu não parei totalmente de ler quadrinhos. E o retorno a eles de modo integral, em 1997, era apenas o começo de uma nova era que culminaria no blog que aqui vos fala.
Em 1999 comecei a usar a internet de forma precária. Em 2001 eu me casei e tinha o apoio de minha esposa, a Lia, no quesito nerdice. Além de não implicar com o meu gosto pelos gibis, ela ainda deixava eu ir povoando todo o apartamento com eles, que dividiam espaço com os muitos livros que faziam parte da minha vida, também.
Quando o blog começou em fins de 2002, ela nem sabia de sua existência direito. Mas, quando vieram os scans, ela até mesmo me acompanhou em excursões por sebos próximos e distantes, para conseguir mais e mais gibis para escanear. E esse apoio foi essencial para que esses quinze anos se completassem. Sem ela, não haveria Rapadura Açucarada.
Daí que é quase mítico para mim estar aqui esse tempo todo. Muitos dos visitantes do blog - e até colaboradores - eram crianças quando ele começou. Talvez nem fossem nascidos ainda. O próprio cenário dos quadrinhos no Brasil era diferente. Confuso até.
Muitos blogs, sites e fóruns apareceram e muitos já se foram, deixando saudades. Muitos estão aí dando cada um sua contribuição para o compartilhamento de quadrinhos. E, mesmo assim, incentivando a que se compre aqueles que mais gostarem, como deve ser.
Quando ao scan comemorativo, ele ainda virá este mês. A falta de tempo e ocupações maiosres que as de 15 anos atrás, não me deixaram começar a tempo para publicá-lo hoje. Mas, logo estará aqui, no mês de aniversário ainda. E, como sempre, muitos outros, no ano que se segue.
Obrigado pela presença de todos, por todos esses anos. Sempre.